Em abril, os fundos de debêntures incentivadas sofreram a maior debandada mensal, no mínimo, desde agosto de 2022, apontam os dados do banco ABC Brasil. Os resgates, descontando as aplicações, alcançaram R$ 8,5 bilhões, após a categoria sofrer tombos que assustaram os cotistas e fizeram os investidores sacarem os recursos.
As taxas dos papéis entraram em disparada, com a maior percepção de risco após os pedidos de recuperações extrajudiciais do GPA e da Raízen, do atraso das demonstrações financeiras da Aegea e da guerra no Oriente Médio, que contaminaram o mercado como um todo. Quando as taxas dos títulos saltam, os preços dos papéis desabam e as cotas dos fundos são reajustadas para um valor menor.
O estrago foi menor nos fundos de crédito privado tradicional, que não são de debêntures incentivadas, mas a categoria registrou um resgate também de R$ 8 bilhões, mostram os dados do banco ABC Brasil. É a maior retirada mensal desde dezembro de 2025, quando saíram R$ 21,7 bilhões da classe.
Tanto os fundos de debêntures incentivadas quanto os de crédito privado tradicional estão na categoria de fundos de renda fixa. A classe puxou o resgate de R$ 18,1 bilhões da indústria de fundos de investimentos como um todo em abril, apontam os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Apenas os fundos de renda fixa registraram uma retirada de R$ 19,2 bilhões no mês.
O movimento chama a atenção após aportes fortes nos fundos de debêntures incentivadas nos últimos anos, com o apelo dos juros altos. Esses fundos investem em papéis de renda fixa emitidos pelas companhias para financiarem projetos de infraestrutura, como aeroportos, energia, portos, rodovias e saneamento básico. O governo isenta os investidores dessas debêntures e os fundos que investem nesses papéis de pagarem imposto sobre os lucros obtidos, o que turbina a rentabilidade e é o grande benefício dessas aplicações.
Com os cotistas assustados deixando os fundos, o risco é os retornos continuarem prejudicados. Os resgates podem obrigar os gestores a se desfazerem de debêntures para devolverem o dinheiro aos investidores, o que pode levar a uma alta maior das taxas, a uma redução maior nos preços e a um prejuízo maior nos fundos. Assim, aconteceria um círculo vicioso, como já aconteceu em momentos no passado. Significa que os fundos de debêntures incentivadas podem seguir apresentando perdas ou retornos menores que o CDI.
Nesse ambiente, algumas casas fecharam os fundos de debêntures incentivadas para novas aplicações, como fez a gestora Sparta. Na carta de abril, a casa diz que o salto nas taxas dos títulos reflete principalmente a menor demanda e não a venda dos títulos pelos gestores para honrarem os resgates, e que o mercado continua funcional.
“Não há nada de disfuncional nisso. Em um mercado com base de investidores direcionada e incentivada, o preço precisa se deslocar até encontrar demanda em outros bolsos diversos. Se um bolso seca, o preço se move até o nível que outro bolso suporta”, afirma. “É esse mecanismo que restabelece liquidez. Não é uma falha do mercado, é exatamente o seu funcionamento”, diz.
A gestora acrescenta que não enxerga uma piora no risco de crédito, isto é, no risco das empresas emissoras darem calote nos investidores. “Não vemos, neste momento, aumento relevante de risco nos emissores, especialmente no universo de infraestrutura. O movimento é de preço. É risco de spread [diferença das taxas pagas nas debêntures em comparação às dos papéis no Tesouro Direto], não risco de crédito“, afirma.
Contudo, segundo a Sparta, esse processo de alta nas taxas dos títulos pode não ter estabilizado ainda e, devido a isso, a casa fechou o fundo de debêntures incentivadas para novas aplicações.
A maior volatilidade nesses fundos não deve ser encarada pelos investidores como um problema, segundo gestores. Março e abril apontaram que, para investir nesses fundos, deve-se aceitar correr risco e focar no longo prazo.
No ano até abril, os fundos de renda fixa continuam capitaneando as aplicações nos fundos de investimento como um todo. Os aportes na categoria chegaram a R$ 106,7 bilhões no ano até abril, enquanto os fundos de investimento como um todo tiveram entradas de R$ 159 bilhões.
Fonte: Valor Investe
