O private equity no Brasil atravessa um dos ciclos mais desafiadores da última década, com juros elevados, liquidez restrita e um mercado para desinvestimentos mais seletivo. O quadro dificultou novas captações e alongou o prazo de permanência dos ativos nos fundos. Por outro lado, o mesmo ambiente tem aberto uma janela favorável para novos investimentos, com preços mais atrativos e maior poder de negociação para os fundos com dinheiro em caixa.
De acordo com executivos do setor, a redução dos juros vai contribuir para a reabertura gradual dos IPOs e maior participação de investidores estratégicos nas operações, acelerando as saídas e reduzindo desequilíbrio entre o ritmo de novos investimentos e a realização de desinvestimentos.
Priscilla Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), afirma que o mercado brasileiro, por ser menor, é mais dependente dos investidores estratégicos e, mais recentemente, de transações secundárias (operações entre fundos). Ainda assim, ressalta a importância de um mercado de capitais aberto, que dê maior previsibilidade às saídas.
“A janela de captação depende da saída. Tem gestor com muita empresa na carteira”, diz ela. “É preciso uma reciclagem para liberar dinheiro ao investidor então a indústria vai focar mais no desinvestimento.”
Levantamento da Bain & Company, em parceria com a Abvcap, mostra que os fundos de private equity realizaram 32 novos investimentos no ano passado, ante 24 em 2024. Já as saídas somaram 11 operações, abaixo das 17 registradas no ano de 2024. Esse fluxo mais lento de saída tem prolongado o tempo de permanência das empresas nas carteiras. Na prática, os investidores estão demorando mais para ter o retorno do capital.
Esse descompasso entre investimentos e saídas tem levado as gestoras a ajustarem o foco entre gestão de portfólio e novas alocações, priorizando a saída dos investimentos mais maduros e sendo seletivo nos aportes em novos ativos.
No Pátria Investimentos, essa dinâmica aparece de forma mais clara pela convivência entre ciclos distintos dentro da própria gestora. Os fundos IV e V, mais antigos, estão voltados à fase de desinvestimentos. A saída mais recente foi a da SmartFit, companhia investida desde 2010 e integralmente desinvestida por meio de uma série de operações ao longo dos últimos anos.
Luiz Felipe Cruz, sócio da área de private equity do Pátria, avalia que o ambiente ainda é desafiador para saídas, mas ressalta que operações com investidores estratégicos seguem viáveis, especialmente no caso de ativos de maior qualidade. Para ele, a normalização do cenário de juros e redução de incertezas geopolíticas tende a melhorar gradualmente o ambiente de desinvestimentos, com efeito posterior sobre a captação.
Já os fundos VI e VII operam na fase de investimento e geração de valor. O fundo mais recente, cuja captação foi concluída no segundo semestre de 2024, tem cerca de metade dos US$ 1,2 bilhão já comprometida em novas alocações, em especial nos setores de saúde, alimentos e bebidas. “Com menos competição e mais capital disponível, estamos encontrando ativos premium a preços muito atrativos”, diz Cruz.
O investimento mais recente foi na Banmédica, operadora de saúde com atuação no Chile e na Colômbia. A transação, de aproximadamente US$ 1 bilhão, contou com recursos do fundo e participação de co-investidores, ampliando a capacidade total de alocação. Esse modelo reflete também uma mudança no comportamento dos investidores, que têm buscado teses específicas.
Com menos competição, há ativos premium a preços muito atrativos”
Gustavo Camargo, sócio e líder de private equity na consultoria Bain & Company, avalia que a indústria vive um desequilíbrio pontual após um ciclo muito forte de captação e investimentos durante a pandemia, seguido por dificuldades na venda de ativos nos anos seguintes.
Olhando para frente, a expectativa é de um cenário construtivo no longo prazo, mas com incertezas no curto prazo, especialmente por fatores como o ambiente global, o nível de juros e a dinâmica política.
Segundo ele, a decisão dos gestores de evitar vendas em momentos desfavoráveis é natural, mas esse comportamento tem uma consequência negativa. “Essa decisão é óbvia e correta, mas quando todos os gestores fazem o mesmo, o mercado praticamente para”, afirma.
Essa falta de reciclagem está presente em outras economias. Os fundos soberanos e outros institucionais possuem recursos, o chamado “dry powder”, mas ainda não foi direcionado a novos investimentos devido a essas incertezas e o custo de dinheiro que reduzir o apetite por risco.
No Brasil, porém, há uma percepção relativamente mais construtiva. A combinação de ativos ainda depreciados, menor competição e juros elevados tornou o ambiente de investimento mais atrativo para quem já possui capital comprometido.
Na prática, esse cenário já se reflete nas estratégias das gestoras. É o caso da Vinci Compass, que levantou R$ 3,2 bilhões em seu quarto fundo no ano passado e cerca de metade desse montante ainda está disponível.
Na avaliação dos co-heads de private equity da gestora, Gabriel Felzenszwalb e Carlos Eduardo Martins, o momento exige mais disciplina, seletividade e capacidade de execução. Para quem conseguir atravessar esse período, a expectativa é de uma safra mais promissora no futuro.
Janela de captação depende da saída. Tem gestor com muita empresa na carteira”
Felzenszwalb afirma que a estratégia da casa continua centrada em teses estruturais de longo prazo, menos dependentes do ciclo econômico – como envelhecimento da população, saúde, bem-estar, digitalização e conveniência. “São temas que vão crescer por 10, 15, 20 anos, não dependendo tanto do ciclo econômico”, diz.
Já Martins destaca que, apesar das restrições atuais, especialmente com crédito ainda caro, há oportunidades para fundos capitalizados. “A única certeza é o preço de entrada e hoje estamos vendo empresas maiores com múltiplos mais baixos”, conta.
A mesma visão tem Piero Minardi, sócio da Lazuli Partners. A captação deve continuar difícil no curto prazo, mas os valuations mais baixos das empresas abrem espaço para os investimentos. Nesse contexto, Minardi vê uma mudança relevante por parte do investidor, que busca modelos mais flexíveis, como os co-investimentos. Isso torna o processo mais seletivo e trabalhoso para as gestoras. “O investidor quer olhar o gestor, a empresa e a tese antes de investir. o poder está mais na mão dele”, diz.
Em termos de estratégia, a Lazuli tem olhado ativos em consumo e educação, porém com uma abordagem mais disciplinada. A casa prioriza empresas já estabelecidas, com potencial de crescimento e, em alguns casos, necessidade de reestruturação de balanço.
Para Roberto Haddad, sócio-líder de private equity na KPMG, o Brasil deve se beneficiar por tem uma posição geopolítica mais neutra, entrando no radar dos investidores globais. Para ele, há maior preferência por ativos mais maduros, co-investimentos e menor foco em consolidação. “O mundo está há muito tempo em compasso de incerteza e qualquer boa notícia pode destravar um boom.”
Mas nem todos concordam que o momento de destravar o ciclo está próximo. Para Fernando Borges, da SPX Capital, o maior volume de negócios e a volta das captações ainda depende de definições no cenário local. Enquanto isso não acontece, aposta em movimento pontuais, como o que a gestora fez na Vision Cybersecurity, aportando R$ 400 milhões
“Estamos em um contexto muito delicado. É muito barulho e muita coisa acontecendo. Não sou otimista de achar que vamos ter grandes captações e volumes. O mercado ainda vai ficar esperando definições”, avalia.
Fonte: Valor Econômico
