Os investidores que resgataram R$ 59 bilhões dos fundos multimercados em 2025 podem se arrepender. O Índice de Hedge Funds Anbima, o termômetro desses produtos, acumulou alta de 15,3% no ano, ante um CDI, a referência dos investimentos em geral, de 14,3% nesse intervalo. E teve fundo disparando até 96,4% no mesmo período, seis vezes mais que os indicadores. A fórmula? Comprar ações brasileiras.
Os fundos multimercados podem apostar em altas e baixas de diferentes investimentos, como ações, commodities, juros e moedas no exterior e no Brasil. Apesar da liberdade que os produtos têm para comprar aplicações diversas, muitos gestores se deram bem concentrando mais os investimentos em ações brasileiras, na contramão das expectativas mais pessimistas para a bolsa no começo de 2025. As gestoras não estavam tão preocupadas com o risco fiscal do governo Lula quanto a maioria do mercado.
Atualmente, alguns gestores preferem investir em ações americanas do que na bolsa brasileira, por considerarem que há mais oportunidades de ações baratas nos Estados Unidos do que localmente depois de a bolsa daqui andar. Contudo, outros veem oportunidades ainda no Brasil, independentemente do resultado da eleição neste ano.
A gestora que chamou a atenção em 2025, disparadamente, foi a Logos Capital, que alcançou a façanha de um ganho de 96% em 2025. Já a IP atingiu o feito de uma remuneração de 25% no ano passado. Em seguida, o Itaú e a Dahlia conseguiram entregar uma rentabilidade de 24%. Nada mal, eim?
Fundos multimercos mais rentáveis de 2025
| Fundo | Retorno em 2025, em % | Retorno em 2024, em % | Risco | Patrimônio, em R$ milhões | Cotistas |
| Logos Total Return | 96,36 | -38,53 | 38 | 141 milhões | 395 |
| IP Value Hedge | 24,78 | 2,98 | 7 | 292 milhões | 615 |
| Itau Artax Ultra | 24,40 | 11,15 | 8 | 512 milhões | 1,2 mil |
| Dahlia Total Return | 24,19 | -2,23 | 11 | 359 milhões | 8,4 mil |
| Vista Multiestratégia | 23,11 | -14,47 | 43 | 127 milhões | 433 |
| BB Arbitragem | 23,05 | 7,52 | 5 | 193 milhões | 7,7 mil |
| Itaú Multimercado Hedge Plus | 22,41 | 6,49 | 5 | 280 milhões | 2,8 mil |
| Empiricus Carteira Universa | 22,32 | -4,69 | 7 | 199 milhões | 5,5 mil |
| Mar Absoluto | 21,99 | -2,56 | 13 | 533 milhões | 1,2 mil |
| Kapitalo Zeta | 20,56 | 10,31 | 7 | 796 milhões | 250 |
Fonte: Estudo elaborado por Marcelo d’Agosto, consultor financeiro responsável pelo Guia de Fundos do Valor e blogueiro do Valor Investe, com base em dados da plataforma Morningstar
Esses fundos multimercados estão no topo do ranking dos que melhor desempenharam em 2025 entre os acompanhados pelo “Guia de Fundos do Valor”. O levantamento foi realizado por Marcelo d’Agosto, consultor financeiro responsável pelo guia, com base nos dados da plataforma Morningstar. Mais abaixo, dá para entender a metodologia do ranking tim-tim por tim-tim e por que nem todos os produtos do mercado aparecem nessa lista.
Embora o ranking se refira ao último ano, não significa necessariamente que esses são os melhores fundos para investir neste momento. Os especialistas aconselham analisar pelo menos três anos de remuneração e a qualidade da gestora antes de escolher onde investir. Esse ranking, portanto, é meramente informativo e não é uma indicação.
Além disso, vale um alerta: como os fundos multimercados são de risco maior, eles são aconselhados para os investidores que podem aplicar os recursos por no mínimo três anos.
Aposta ganhadora
O melhor multimercado de 2025, da Logos Capital, já iniciou 2025 comprando bastante ações brasileiras. A casa estava na contramão da maioria do mercado, que estava em modo pânico com a percepção de risco fiscal alto no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após um anúncio do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, no rádio e na televisão.
O anúncio de contenção de gastos do governo veio junto com a isenção de Imposto de Renda para os brasileiros que ganham no máximo R$ 5 mil, o que trouxe preocupação para a maioria dos investidores. Na análise deles, o governo Lula parecia ter pouco controle dos gastos públicos, o que subia a pressão sobre a alta da inflação e dos juros e seria ruim para a bolsa. Contudo, a gestora achou que as ações estavam tão baratas que compensava investir mesmo com o risco, o que se provou uma estratégia atrativa.
A Logos aumentou ainda mais a parcela de papéis brasileiros em abril, após o “Liberation Day”, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou as diretrizes tarifárias dos EUA para importar mercadorias de outros países. Na visão da gestora, o dinheiro dos investidores do mundo sairia dos Estados Unidos em direção a outros países e o Brasil seria beneficiado, o que acabou acontecendo de fato.
A carteira era concentrada em poucas ações, mas de setores variados. A casa acertou comprando especialmente as ações da construtura Tenda, protegida pelo programa habitacional do governo “Minha Casa Minha Vida” mesmo em um momento de juro alto, que encarece os financiamentos imobiliários. Apenas as ações da companhia dispararam 98% em 2025.
Além disso, a gestora ganhou com as ações da construtora Plano&Plano, da operadora de plano de saúde Hapvida e da varejista Natura. As companhias de energia e saneamento Axia (antiga Eletrobras), Copel, Sabesp e Sanepar também ajudaram.
Após o Ibovespa saltar 34% em 2025 e os preços dos papéis subirem, a Logos mudou um pouco o portfólio. As ações com as maiores posições seguem sendo Tenda e Plano&Plano – a “empresa do ano”, na análise da casa –, mas também Sanepar e a produtora de alumínio CBA. As demais estão com posições menores ou deixaram a carteira.
Luiz Henrique Guerra, sócio-fundador da Logos, está animado com a bolsa, embora espere mais oscilação neste ano devido à eleição. “O dólar fraco e os juros mais baixos nos Estados Unidos farão 2026 parecido com 2025, com a ressalva de que a eleição trará volatilidade. Contudo, os estrangeiros têm uma cabeça diferente e enxergam Lula com melhores olhos do que o mercado brasileiro”, afirma. “Os estrangeiros seguirão investindo na bolsa brasileira independentemente das notícias relacionadas à eleição, o que contribuirá para a alta das ações”, diz.
Ações americanas são as favoritas de gestores
A gestora IP também se destacou começando o ano mais alocada em ações brasileiras do que estrangeiras, o que é raro dentro da casa. A análise era que as ações brasileiras estavam muito baratas, mas que as companhias continuavam gerando muito valor para os investidores.
“Adoramos o Brasil, mas em poucos momentos da história recente tivemos grandes assimetrias entre o preço e o valor das empresas, a ponto de ter uma exposição maior no país do que no exterior”, afirma Carolina Lamas Barbará, sócia responsável pelo relacionamento com investidores da gestora IP.
Contudo, após as bolsas dos Estados Unidos tombarem com o anúncio das tarifas de Trump no “Liberation Day”, a casa começou a comprar mais papéis estrangeiros do que brasileiros. A cabeça era a mesma: aproveitar ações de companhias que a gestora via valor, mas estavam muito baratas.
A IP é mais preocupada com a escolha criteriosa de companhias que contribuam para preservar o capital dos cotistas no longo prazo em qualquer ambiente macroeconômico. As empresas precisam ter uma vantagem competitiva clara, serem lideradas por uma equipe competente, ética e inovadora e estarem baratas.
“Estamos mais preocupados em encontrar assimetrias entre o preço e o valor das empresas, que desconhecemos quando serão corrigidas, do que em acertar se o Lula, o Flávio ou o Tarcísio vão ganhar a eleição”, diz Barbará.
As ações que ajudaram mais na remuneração em 2025 foram Itaú e Google, além de BTG e Energisa.
Atualmente, a casa continua mais investida nos Estados Unidos do que no Brasil, avaliando que existem mais ações baratas nos EUA do que no Brasil atualmente. O Itaú continua sendo a maior posição do portfólio, mas a gestora adora as ações do Booking, do Google e da Meta. “Porém, nada impede que, se a confusão da eleição fizer a bolsa brasileira desabar, a gente volte a comprar mais ações brasileiras”, afirma Barbará.
O fundo multimercado vencedor do Itaú em 2025 chamou a atenção apostando que os juros no México sofreriam mais cortes do que o esperado. Mas outro grande destaque foi a compra de ações brasileiras, especialmente de negócios de serviços de utilidade pública. As ações estavam baratas no começo de 2025 e as companhias têm o fluxo de caixa mais previsível, o que ajuda em ambientes de incerteza.
“Conseguimos ganhar com a melhora do ambiente para os emergentes, com a vinda dos investidores estrangeiros para cá”, afirma Thiago Morgado, especialista de portfólio da Itaú Asset. “Não estávamos tão pessimistas com o risco fiscal quanto a maioria do mercado. Fomos aumentando as posições de tamanho aos poucos ao longo do ano”, diz.
O fundo do Itaú segue com ações brasileiras conservadoras, mas reduziu a posição de ações brasileiras na carteira. “Desde as notícias sobre Flávio Bolsonaro como candidato à eleição, a incerteza aumentou e está difícil ter uma convicção que justifique uma posição maior na bolsa”, afirma. Atualmente, o banco está mais confortável de investir em ações americanas de companhias ligadas à inteligência artificial.
Ações brasileiras à prova da eleição?
Na Dahlia Capital, o destaque de 2025 também foram especialmente as ações brasileiras. A ideia era surfar na perspectiva de corte de juros, que é positiva para a bolsa porque deixa a renda fixa menos atrativa e pode trazer de volta os investidores brasileiros. As ações dos bancos, das companhias de energia elétrica e das construtoras ajudaram bastante o fundo.
Jose Rocha, gestor da Dahlia Capital, está animado com a bolsa brasileira em 2026. Ele acha que as ações estão baratas e que o dólar e o petróleo com preços mais baixos ajudarão a inflação a recuar. Isso deve contribuir para os cortes de juros finalmente iniciarem e deve ajudar a bolsa a subir, independentemente da eleição.
“Acho que a eleição será muito apertada, mas a bolsa está subindo no governo atual. Caso o mundo siga ajudando, a bolsa conseguirá ir bem. Na maior parte do tempo, o mundo é mais importante para a bolsa do que a eleição”, afirma Rocha.
Fundos long & short
Os fundos multimercados com uma estratégia diferente, chamada de long & short, renderam um pouco menos, mas ainda assim vários renderam mais que o CDI em 2025. O fundo Polo Norte I Long Short bateu nos 36%, enquanto o Apex Equity Hedge chegou nos 24% e o Fundo Ibiuna L&S STLS, 23%.
Fundos long & short mais rentáveis de 2025
| Fundo | Retorno em 2025, em % | Retorno em 2024, em % | Risco | Patrimônio, em R$ milhões | Cotistas |
| Polo Norte I Long Short | 35,78 | -6,02 | 12 | 82 milhões | 998 |
| Apex Equity Hedge | 24,30 | 5,53 | 4 | 58 milhões | 741 |
| Ibiuna L&S STLS | 23,25 | 3,64 | 9 | 608 milhões | 2,2 mil |
| Solana Long And Short | 22,35 | 0,54 | 5 | 117 milhões | 832 |
| Real Investor FIC FIM | 18,21 | 9,39 | 3 | 1,4 bilhão | 22,5 mil |
| Safra Kepler Equity Hedge | 16,81 | 7,84 | 4 | 151 milhões | 1 mil |
| Santander Alocação Long & Short | 15,80 | 3,80 | 3 | 105 milhões | 1,9 mil |
| AZ Quest Total Return | 15,60 | 19,95 | 5 | 146 milhões | 3,4 mil |
| Sharp Long Short Feeder 2x | 15,18 | 4,60 | 5 | 290 milhões | 109 |
| Bradesco Equity Hedge | 14,95 | 11,14 | 4 | 176 milhões | 4,7 mil |
Fonte: Estudo elaborado por Marcelo d’Agosto, consultor financeiro responsável pelo Guia de Fundos do Valor e blogueiro do Valor Investe, com base em dados da plataforma Morningstar
Os gestores desses fundos costumam escolher pares de ações ou de ativos que estão no mesmo setor ou dependem de cenário igual, e, no jargão do mercado, montam posições “compradas” (apostando na alta) e “vendidas” (apostando na baixa).
Os profissionais esperam que os ativos “comprados” tenham desempenho melhor em relação aos “vendidos”, para ganhar com essa diferença. Em outras palavras, em um cenário de alta, a aposta é que os papéis “comprados” subam mais que os “vendidos”, ou, em um mercado de baixa, que eles caiam menos.
Alguns analistas desaconselham fundos long & short, porque eles compram bolsa, mas têm tributação de renda fixa. Ou seja, sofrem come-cotas, a antecipação de imposto semestral. Ainda, como eles são obrigados a ficar com uma fatia de ações compradas e outra de papéis vendidos, já tiveram problemas no passado por depender de aluguel de ações.
Metodologia dos rankings
Os fundos multimercados do ranking têm patrimônio líquido de no mínimo R$ 100 milhões e pelo menos 100 cotistas, enquanto os fundos long & short têm patrimônio líquido de no mínimo R$ 50 milhões e pelo menos 100 cotistas.
Os fundos que integram as duas listas desta matéria estavam necessariamente na última edição do “Guia de Fundos do Valor”. O guia lista 2.024 fundos com três anos de histórico, no mínimo, e que estavam acessíveis aos investidores em geral em corretoras e bancos. A ferramenta agrupa as carteiras em categorias que possuem um significado prático para o investidor diversificar as suas aplicações.
Os produtos são organizados em 16 categorias: renda fixa DI, prefixados renda fixa ativo, juro real, crédito privado com até 15 dias para o resgate, crédito privado a partir de 16 dias para resgate, debênture incentivada, multimercado baixa volatilidade, multimercado, long & short, long biased, ações índices, ações, investimento no exterior, ações no exterior, alocação multimercado e alocação ações.
Os fundos multimercados e long & short dos rankings desta matéria foram agrupados nessas categorias no “Guia de Fundos do Valor”. Alguns fundos podem não estar nesses rankings porque não participaram do guia — seja porque tinham menos de três anos ou porque não estavam acessíveis aos investidores em geral em corretoras em bancos. Ainda, alguns fundos podem não estar nesses rankings porque foram agrupados em outra categoria do guia.
Como escolher fundos multimercados
Bons fundos multimercados seguem indicados para diversificar a carteira e ganhar mais que o CDI, focando em no mínimo três anos. O conselho dos especialistas para escolher os produtos que conseguem entregar rendimentos altos e consistentes ao longo do tempo é analisar como o fundo se comportou durante diferentes momentos no passado e onde os profissionais trabalharam.
Casas com mais idade e volume de recursos sob gestão, acima de alguns bilhões, contam com mais confiança do mercado. Além disso, é um bom indicativo se a gestora possui um grande número de pessoas e se elas trabalham lá desde o começo.
Alguns produtos correm mais riscos e, por isso, tendem a ser mais voláteis, mas às vezes as gestoras têm fundos parecidos que correm menos riscos e tendem a ser menos voláteis. É aconselhado escolher os que mais combinam com o perfil e objetivos do investidor.
Fonte: Valor Investe


