Enquanto os fundos de crédito tradicionais se recuperaram dos resgates observados a partir do estresse do mercado em março, atraindo R$ 1,4 bilhão em junho até o dia 12, os fundos de infraestrutura, que têm benefício de isenção do Imposto de Renda, continuam a registrar retiradas, que somam R$ 34,3 bilhões desde março, segundo relatório do Bradesco BBI. O valor equivale a cerca de 13,7% do patrimônio da indústria, estimado em R$ 250 bilhões.
Para especialistas, esse momento é fruto de uma demanda fora do comum vista no ano passado, somada à necessidade de que esses fundos aumentem ao longo do tempo a alocação em debêntures de infraestrutura até que elas representem 85% do patrimônio.
Além disso, em março, a Raízen e o Grupo Pão de Açúcar anunciaram recuperações extrajudiciais. A Raízen estava no portfólio de alguns desses investimentos. Além dela, outras empresas que também costumam estar na carteira de fundos de investimento, como CSN e Aegea (saneamento) também levantaram preocupações sobre sua situação financeira em um ambiente de juros elevados.
Como resultado: alguns fundos chegaram a registrar cota negativa, especialmente os listados em bolsa, ou ficaram muito abaixo do CDI. No final de abril, os fundos de infraestrutura encabeçavam os prejuízos da classe de crédito privado, sofrendo mais do que fundos de crédito tradicionais, que são tributados.

Mas os dados do Bradesco mostram que o pior pode já ter ficado para trás: R$ 15,2 bilhões foram resgatados desses fundos em maio, contra R$ 4 bilhões em junho até o dia 12.
Contudo, a situação não está melhorando para todos os fundos. Em uma amostra de fundos monitorada pela Porto Asset, junho atingiu o pico de retiradas. Os resgates no mês representam 15% do patrimônio dos fundos de infraestrutura observados pela gestora.
Na amostra, a captação dos ativos começou a ficar negativa em outubro do ano passado de forma gradual, mas foi amplificada a partir de março: passou de 6% para 9% do PL dos fundos, até chegar a 15% em junho.
Sobre retornos, a amostra da Porto mostra que os piores retornos foram registrados em abril (-2,43%), mas vêm se recuperando em maio (-0,15%) e junho (0,30% até o dia 12).
Demanda anormal
O mercado de fundos de infraestrutura registrou um grande crescimento desde 2023, impulsionado por mais emissões de títulos incentivados e maior demanda de investidores.
Em 2024, houve um aumento nas restrições para emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), bem como aumento do prazo mínimo para emissão de Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). Como resultado, parte da demanda por esses títulos foi redirecionada para os fundos de infraestrutura, aponta Vinicius Romero, gestor de portfólio da XP Asset.
A mesma coisa aconteceu quando os fundos exclusivos passaram a ser tributados: parte do dinheiro alocado nesses ativos foi redirecionada para os fundos de infraestrutura, movimento guiado pela foto de boa performance da classe de ativos.
Com toda essa demanda, o prêmio extra que um investidor recebe para assumir o risco de investir nos fundos (spread) foi diminuindo, mas não chegou a interromper o apetite do investidor. “O investidor continuou a aceitar retorno menor porque o incentivo do tributo ainda era relevante”, observa Fayga Delbem, superintendente e diretora da mesa de crédito tradicional da Itaú Asset.
Até que, em 2025, surgiu a possibilidade de tributação dos fundos de infraestrutura, o que aumentou ainda mais a demanda por esses produtos, já que havia a expectativa de que a Medida Provisória 1.330 passaria a valer. Esse movimento reduziu ainda mais o prêmio extra oferecido pelos fundos. Em outubro, porém, a MP caducou, o que retirou a pressão sobre a demanda.
É neste momento que muitos fundos de infraestrutura passam a ter a necessidade de se enquadrar em alguns requisitos para garantir o beneficio de isenção de IR. Dois anos após a criação dos fundos, eles precisam aumentar de 67% para 85% o patrimônio alocado em debêntures incentivadas. Como captaram muito no ano passado, precisaram comprar mais debêntures isentas. Com mais compradores disputando os mesmos papéis, os prêmios ficaram comprimidos, reduzindo o retorno potencial para novos investidores.
Por fim, em março, após os eventos de crédito no mercado e início da guerra entre Estados Unidos e o Irã, investidores passaram a exigir um prêmio maior dos fundos de infraestrutura pela perspectiva de que os juros fiquem elevados por mais tempo.
Os fundos de infraestrutura sofrem mais nesse ambiente porque o “prazo de risco” (duration) de seus títulos é maior do que a média de outras classes de ativos, em torno de 5,5 anos. Quanto maior a duration, maior o impacto das mudanças de juros sobre o valor dos investimentos.
Impacto nos fundos
Apesar de apontar que a indústria é concentrada e que, em alguns casos, Raízen representava 5% a 7% da carteira, Delbem aponta que, nas carteiras da Itaú Asset, a posição não passava de 1%. “Somos mais pulverizados do que a média da indústria: temos cerca de 100 empresas nas carteiras. Um reflexo disso é que nossos resgates representaram cerca de 5% do PL dos nossos fundos, quando chegou a 15% na concorrência.”
Olhando para o que investe hoje, a gestora do Itaú não vê novos casos acontecendo. Hoje, tem fatia de 25% do mercado de fundos de infraestrutura e R$ 55 bilhões sob gestão na classe de ativos. No momento do estresse do mercado, tinha 30% do patrimônio dos fundos em caixa, e acabou optando por comprar títulos de gestoras que estavam sem caixa e tiveram de vender as debêntures por “qualquer preço”.
A XP Asset declara que não tinha nenhuma posição em Raízen quando a empresa anunciou sua recuperação extrajudicial e que os títulos de infraestrutura de seus fundos têm prazo de risco de 4 anos, menor do que a média do mercado, o que os torna mais defensivos em momentos de volatilidade. As carteiras dos fundos da gestora têm mais de 100 emissores de títulos de infraestrutura, a maior parte pertencente ao setor elétrico (36,4%) e de saneamento (10,3%), considerados mais protegidos em crises.
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Com exceção da Raízen, os últimos eventos de crédito anunciados não estão relacionados a empresas de infraestrutura. O setor costuma ter receitas previsíveis, reguladas por contrato, e é considerado, em geral, defensivo.
Janela para investir
Os resgates não devem assustar investidores, na opinião dos especialistas, pois permitem comprar menos ativos por uma taxa de retorno maior. Portanto, para Delbem, do Itaú, e Romero, da XP Asset, o momento atual é um bom ponto de entrada para quem deseja começar a investir no setor.
Enquanto os fundos de infraestrutura remuneravam Tesouro IPCA menos 0,5 ponto porcentual em janeiro, remuneram atualmente o título do governo mais 0,5 ponto porcentual. Ou seja, houve uma melhora expressiva na relação risco retorno.
Há quem pense de outra forma. Daniel Palaia, gestor da Asset1, não acredita que o prêmio extra que um investidor recebe para assumir risco nos fundos de infraestrutura estão muito atrativos: apenas ficaram justos após a correção de um movimento exagerado que aconteceu no ano passado. “O nível de hoje está apenas um pouco abaixo do que via há um ano e meio“.
Para quem ainda não tem exposição ao setor, talvez seja hora de entrar. Se já tem, é melhor ter um pouco mais, porque os títulos tiveram um desconto importante.
Fayga Delbem, diretora de crédito na Itaú Asset
Existem fundos de infraestrutura que são indexados a índices de inflação, que representam um terço do mercado, e vêm sendo beneficiados pela valorização dos títulos do governo. “Neles as taxas estão melhores do que no começo do ano, e o índice de referência está pagando mais aos investidores. Ou seja, é um ativo que ficou duas vezes melhor”, conclui Delbem.
Romero, da XP Asset, aponta que é necessário colocar ainda na conta a isenção do imposto, como forma de comparar o retorno desses ativos ao de outros investimentos que são tributados; “Atualmente os fundos de infraestrutura estão pagando o equivalente ao Tesouro IPCA mais 11%.”
A superintendente da Itaú Asset ressalta que os fundos indexados à inflação têm maior volatilidade do que os que tem o CDI como referência. “Eles são válidos para quem deseja investir com objetivo de longo prazo”.
A janela de retornos maiores não tende a não durar muito, observa Palaia. “Os pequenos investidores voltaram a comprar papéis, o que está fazendo o mercado se recuperar aos poucos. Desde a segunda quinzena de maio o prêmio extra que um investidor recebe para assumir o risco do ativo já diminuiu.
Em breve achamos que vai voltar a ter captação positiva para os fundos que não sofreram muito. Tem fundo que está muito abaixo CDI, e isso irá gerar uma seleção maior sobre em quais fundos investir
Daniel Palaia, gestor da Asset1
Romero, da XP Asset, lembra que existem duas formas de perder dinheiro na renda fixa: em caso de calote do emissor do título e quanto o investidor opta por resgatar investimentos no meio de um evento de marcação dos títulos a mercado.
Portanto, o investidor precisa conviver com a rentabilidade e entender que se carregar o título até o vencimento terá o retorno contratado no momento do aporte. “Se vender no meio do caminho, em um momento de perda, realiza o prejuízo.”
Fonte: Estadão


