O presidente americano, Donald Trump, alertou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) poderá ter um futuro “muito ruim” se os aliados dos EUA não ajudarem a reabrir o Estreito de Ormuz, enviando uma mensagem direta aos países europeus para que se juntem ao seu esforço de guerra no Irã.
Em entrevista ao “Financial Times” neste domingo, o presidente dos EUA disse que também pode adiar a cúpula com o presidente da China, Xi Jinping, ainda neste mês, enquanto pressiona Pequim a ajudar a desbloquear a via marítima crucial.
“É apenas apropriado que aqueles que são beneficiários do estreito ajudem a garantir que nada de ruim aconteça ali”, disse Trump, argumentando que Europa e China dependem fortemente do petróleo do Golfo Pérsico, ao contrário dos EUA.
“Se não houver resposta ou se a resposta for negativa, acho que será muito ruim para o futuro da Otan”, acrescentou.
Os comentários de Trump, feitos em uma ligação telefônica de oito minutos com o FT, vieram um dia depois de ele apelar à China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido para se juntarem a um “esforço em equipe” para abrir o gargalo marítimo por onde passa um quinto do petróleo mundial.
O Irã, na prática, fechou o estreito depois que os EUA e Israel lançaram sua guerra há mais de duas semanas, provocando temores de um novo choque nos preços do petróleo para a economia global. Os esforços dos EUA para reabrir a via marítima fracassaram em grande parte. Os preços internacionais do petróleo chegaram a US$ 106 por barril no domingo à noite, alta de cerca de 45% desde o início da guerra.
Apesar do alerta, Trump mostrou pessimismo de que os aliados dos EUA atenderiam aos seus apelos por ajuda.
“Temos uma coisa chamada Otan”, disse Trump, que frequentemente criticou a aliança. “Fomos muito gentis. Não precisávamos ajudá-los com a Ucrânia. A Ucrânia fica a milhares de quilômetros de nós… Mas ajudamos. Agora veremos se eles nos ajudam. Porque há muito tempo digo que estaremos lá por eles, mas eles não estarão lá por nós. E não tenho certeza de que estariam.”
Questionado sobre que tipo de ajuda precisava, Trump respondeu “o que for necessário”. Ele acrescentou que os aliados deveriam enviar navios varredores de minas, dos quais a Europa possui muito mais do que os EUA.
O presidente americano também disse querer “pessoas que vão eliminar alguns agentes problemáticos que estão ao longo da costa [iraniana]”. Trump deu a entender que gostaria de equipes de comando europeias ou outro tipo de ajuda militar para eliminar iranianos que estão causando “incômodo” no Golfo com drones e minas navais.
“Estamos atacando com muita força”, disse Trump. “Eles não têm mais nada além de causar um pouco de problema no estreito, mas essas pessoas são beneficiárias e deveriam nos ajudar a policiá-lo. Nós vamos ajudá-las. Mas elas também deveriam estar lá. De certo modo, você precisa de muitas pessoas para vigiar poucas.”
Trump disse que também espera que a China ajude a desbloquear o estreito antes de ele viajar a Pequim no fim deste mês para uma cúpula com Xi Jinping, sua primeira viagem à China em seu segundo mandato.
“Acho que a China também deveria ajudar porque a China recebe 90% do seu petróleo dos estreitos [sic]”, disse Trump. Esperar até a cúpula seria tarde demais, afirmou.
“Gostaríamos de saber antes disso. [Duas semanas] é muito tempo.” Ele acrescentou que sua viagem à China também pode ser adiada. “Podemos adiar”, disse Trump. Ele não especificou por quanto tempo.
Os comentários do presidente dos EUA vieram enquanto seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, se reuniu em Paris com seu homólogo chinês, He Lifeng, para discutir a cúpula planejada em Pequim no fim de março.
Xi convidou Trump para visitar a China quando os dois líderes se encontraram na Coreia do Sul no fim de outubro e chegaram a uma trégua na guerra comercial e tecnológica entre EUA e China. Pequim não deu sinais de querer adiar a cúpula apesar da guerra no Irã, que é um grande fornecedor de petróleo para a China.
Após falar mais cedo no domingo com o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, Trump expressou frustração particular com a resposta britânica até agora.
“O Reino Unido pode ser considerado o aliado número um, o mais antigo e assim por diante, e quando pedi que viessem, eles não quiseram vir”, disse. “E assim que basicamente eliminamos a capacidade de ameaça do Irã, eles disseram ‘ah, bem, enviaremos dois navios’, e eu disse: ‘precisamos desses navios antes de vencermos, não depois de vencermos’. Há muito tempo digo que a Otan é uma via de mão única.”
Trump afirmou que qualquer risco para aliados que deslocassem recursos para o Golfo seria mínimo, já que EUA e Israel teriam destruído a capacidade militar do Irã nas últimas duas semanas.
“Basicamente dizimamos o Irã”, disse Trump. “Eles não têm Marinha, nem defesa antiaérea, nem força aérea, tudo desapareceu. A única coisa que podem fazer é causar algum problema colocando uma mina na água — um incômodo, mas que pode causar problemas.”
No entanto, aliados europeus já foram afetados pela guerra. Um soldado francês foi morto na quinta-feira em um ataque de drone iraniano no Iraque. Um avião italiano foi destruído no domingo em uma base no Kuwait.
Trump também alertou que os EUA estão preparados para lançar novos ataques contra a Ilha de Kharg, centro das exportações de petróleo do Irã, e podem atingir sua infraestrutura petrolífera.
“Vocês viram que atacamos a Ilha de Kharg, tudo menos os dutos, ontem”, disse, referindo-se a um bombardeio que anunciou na sexta-feira. “Podemos atingir isso em cinco minutos. E não há nada que eles possam fazer a respeito.”
Questionado se a Rússia estaria ajudando o Irã com dados de satélite para atingir escudos antimísseis dos EUA e de Israel, Trump respondeu: “Não sei de uma forma ou de outra. Mas também se poderia argumentar que nós ajudamos a Ucrânia até certo ponto. É difícil dizer: ‘vocês estão nos atacando’, quando nós temos ajudado a Ucrânia.”
Seu antecessor, Joe Biden, teria dado à Ucrânia US$ 350 bilhões em dinheiro e equipamentos, afirmou o presidente. “Então é difícil dizer: ‘Poxa, o que vocês estão fazendo?’ quando nós temos feito a mesma coisa.”
Fonte: Valor Econômico