Por Harry Dempsey e Mary McDougall, Valor — Financial Times, de Londres
13/03/2024 21h37 Atualizado há 12 horasPresentear matéria
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/5/Z/47jGSvSkWJoBsA6BvorQ/408296093.jpg)
O preço do ouro deu um salto em pouco mais de uma semana, atingindo recordes e deixando observadores de longa data do mercado com dificuldade para explicar o que tem sido um dos ralis mais curiosos do metal amarelo.
A mudança repentina de preço elevou o ativo, considerado como um porto seguro, acima do pico anterior alcançado em dezembro, atingindo US$ 2.195 na sexta-feira e quase US$ 2.169,4 a onça troy, segundo dados da London Stock Exchange Group (LSEG). Alguns analistas atribuíram a movimentação às expectativas crescentes de cortes nas taxas de juros nos Estados Unidos, que tornaria esse ativo sem rendimento relativamente mais atraente.
Mas vários outros disseram que nenhum dos fatores que vêm impulsionando a alta do ouro nos últimos 16 meses é o provável catalisador do recente rali. Esses incluem os níveis recordes de compras pelo banco central, famílias chinesas em busca de investimentos seguros, ou as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
“Este tem sido o rali mais silencioso e confuso”, diz Nicky Shiels, analista de metais preciosos da MKS Pamp, refinaria e trader suíça de ouro. “O que levou o preço de US$ 2.000 no mês passado para mais de US$ 2.150 é a parte complicada.”
O rali começou quando dados sobre o setor industrial dos EUA divulgados no começo do mês mostraram uma contração maior que a esperada, reforçando a convicção dos investidores de que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) poderá começar a cortar as taxas de juros em junho.
Mas a dimensão das movimentações nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA e a movimentação do dólar não parecem justificar totalmente o rali, segundo analistas. O rendimento dos Treasuries de dois anos de prazo, que são sensíveis aos juros, caiu 0,12 ponto percentual desde o começo de março, para 4,5%, ainda muito maior que o ponto baixo de 4,12% registrado em janeiro, enquanto o dólar continua mais alto em relação a uma cesta de seis moedas do que estava no começo do ano.
“Antes, quando tínhamos uma alta de US$ 70 para US$ 80, ela geralmente era acompanhada por um novo catalisador ou evento de risco”, diz Suki Cooper, analista do Standard Chartered. “Mas desta vez não houve nenhuma mudança significativa nos atuais acontecimentos.”
Na segunda-feira, o ouro foi negociado a US$ 2.182 a onça troy, depois que os números sobre o crescimento dos empregos nos EUA em dezembro e janeiro foram reduzidos bastante na sexta-feira, aumentando as expectativas dos investidores de um corte nas taxas de juros no primeiro semestre.
A alta nominal ocorreu apesar das retiradas no ano passado de 21 milhões de onças dos fundos negociados em bolsas (ETFs) apoiados no ouro, segundo a Bloomberg. Por outro lado, o bitcoin, que atingiu um recorde quase US$ 74 mil na quarta-feira, foi estimulado por bilhões de dólares aplicados nos ETFs desde que eles foram lançados nos EUA há dois meses.
Rhona O’Connell, analista da corretora de commodities StoneX, diz que muitos fatores podem justificar a alta do ouro, como o endurecimento da retórica da China sobre Taiwan, o aumento das tensões bancárias nos EUA e a aproximação de eleições em vários países.
Mas, segundo ela, nenhum desses fatores esteve por trás da movimentação da semana passada. Ela aponta, em vez disso, para os traders dinâmicos — fundos eletrônicos que se agarram à alta dos preços —, que passaram a acumular posições depois que o ouro ultrapassou um nível importante.
“Não há nada específico ou tangível que possamos apontar, além do exercício exaustivo de observar o Fed”, disse O’Connell.
A falta de dados imediatamente disponíveis sobre os fluxos no mercado levou a sugestões de que as compras no mercado de balcão por compradores furtivos de ouro, que são difíceis de rastrear, arrastaram os preços para cima.
Bernard Dahdah, analista sênior de commodities do banco francês Natixis, disse que as oscilações modestas recentes do dólar e dos rendimentos dos bônus, além das retiradas contínuas dos ETFs, tornaram difícil atribuir o rali do ouro à mudança das expectativas em relação aos cortes dos juros pelo Fed.
Também não se pode atribuir a alta à demanda renovada dos pequenos investidores chineses, porque o ágio do ouro na China em relação a Londres diminuiu, nem às compras renovadas do banco central, uma vez que as instituições oficiais tendem a comprar lentamente e gostam de passar despercebidas.
“Esta é a primeira vez que sento para deduzir coisas, em vez de simplesmente dizer o que é que está movimentando o preço”, disse Dahdah. “Quem faria isso seria um grande fundo hedge ou gestora de ativos” com o uso de derivativos.
Em um sinal de maior atividade dos investidores, o número de contratos futuros de ouro em curso na Comex aumentou 30% desde 28 de fevereiro, enquanto as posições compradas líquidas aumentaram cerca de 64.000 para 208.000 contratos na terça-feira passada, segundo dados da Commodity Futures Trading Commision (CFTC). “Isso dispara sinais de alerta para uma correção substancial”, disse O’Connell. “Assim que o ímpeto parar, haverá realização de lucros.”
Alguns acreditam que o rali do ouro é um sintoma de que os investidores estão se adiantando nas apostas sobre os cortes nas taxas de juros. “Não é um conclusão inevitável que o Fed vai cortar os juros”, diz Carsten Menke, chefe de análises de nova geração do banco Julius Baer.
Mas nem todos acreditam que os preços do ouro caminham para uma queda. Os preços ainda estão um pouco abaixo do recorde ajustado à inflação de bem mais de US$ 3.000 a onça troy registrado em 1980, e alguns analistas afirmam que o atual rali mostra que há um piso firme sob o preço.
Cooper, do Standard Chartered, destaca a forte procura no varejo e dos bancos centrais fora do Ocidente, além da reação exultante do preço do ouro às notícias sem muita importância que dão suporte a um corte dos juros nos EUA, e a capacidade do metal de se sustentar quando os dados indicam juros altos por mais tempo.
“Há muitos acontecimentos desconhecidos contra os quais os investidores querem se proteger”, diz ela, citando as eleições, os riscos da escalada de conflitos ou uma volta da crise bancária. “Parece que temos um novo apetite no mercado de ouro.”
Fonte: Valor Econômico


