Ghassan Abu Sitta, cirurgião britânico-palestino que está tratando sobreviventes dos bombardeios na Faixa de Gaza, recebeu uma ligação alarmante de Londres nesta semana: agentes de contraterrorismo visitaram sua casa.
Abu Sitta, voluntário da Médicos Sem Fronteiras que ainda está no enclave sitiado, disse à “BBC” que a visita foi um “tipo de tentativa grosseira de assédio e silenciamento” e disse que vai procurar assessoria jurídica.
A Polícia Metropolitana londrina confirmou ter “comparecido a um endereço no norte de Londres” em resposta a relatos de que um homem estava “planejando ir a uma zona de guerra”.
As repercussões da guerra entre Israel e o Hamas vêm sendo sentidas pelas populações muçulmanas e árabes em toda a Europa, que temem uma reação islamofóbica. Receiam que o conflito e os recentes ataques de islamistas radicais na França e na Bélgica estejam fortalecendo vozes da extrema direita que retratam muçulmanos e árabes como uma “quinta coluna” que representa um perigo interno.
“Os muçulmanos estão realmente com medo de serem estigmatizados e apontados como culpados, e de serem associados a apoiadores do Hamas”, disse Lamya Kaddor, deputada alemã de raízes sírias. “Eles temem se tornar estranhos em seu próprio país.”
A preocupação foi agravada pela notícia do fim de semana passado de que um rapaz de seis anos, Wadea al-Fayoume, foi morto a facadas nos EUA, supostamente por ser muçulmano. Um homem de 71 anos foi acusado em Illinois de assassinato e de crime de ódio.
Na Europa, alguns muçulmanos e árabes disseram estar sendo usados como bodes expiatórios por expressarem solidariedade aos palestinos porque o Reino Unido e os países da União Europeia assumiram uma firme posição pró-Israel. Eles lamentam a falta de empatia a respeito das mortes de civis pelos bombardeios na Faixa de Gaza.
Na França — lar das maiores populações judaicas e muçulmanas da Europa — esse tipo de frustração só aumentou depois de as autoridades terem imposto uma proibição nacional a todas as manifestações pró-Palestina, medida adotada sob o argumento de “proteger a ordem pública”.
Os críticos contestaram a proibição na Justiça como uma restrição ilegal à liberdade de expressão e ganharam o caso na quarta-feira. Agora, as autoridades locais, que prestam contas ao Ministério do Interior decidirão se tais protestos podem ser realizados caso a caso.
“Proibir os protestos apenas aumenta o sentimento de frustração e injustiça que muitos muçulmanos sentem”, disse Tareq Oubrou, um imã em Bordeaux.
O ressurgimento dos chamados ataques de “lobos solitários”, levados a cabo por extremistas islâmicos, exacerbou uma situação que já era tensa. No norte de França, um jovem tchetcheno esfaqueou até à morte um professor em uma escola do ensino médio, na sexta-feira, e em Bruxelas, dois cidadãos suecos foram mortos a tiros por um tunisiano, na noite de segunda-feira. Ambos os atacantes haviam feito manifestações de apoio ao grupo jihadista Estado Islâmico (EI) em vídeos, segundo a polícia.
Segundo ministros e o procurador federal da Bélgica, o homem que atacou os suecos em Bruxelas pode ter sido motivado pelos protestos ocorridos na Suécia neste ano em quem manifestantes anti-Islã queimavam o alcorão.
Hugo Micheron, acadêmico na Sciences Po que pesquisa o jihadismo na Europa, disse que trata-se do início de um período potencialmente turbulento, no qual o impacto dos conflitos no Oriente Médio poderá voltar a ter o chamado “efeito de transbordamento” para a Europa. Existe o risco tanto de um aumento dos ataques de islâmicos quanto de retaliação contra as minorias muçulmanas e árabes.
“Essa é a armadilha que o islamismo [extremista] abre para as democracias ocidentais. Eles procuram dividir as sociedades”, disse ele. “Os cidadãos muçulmanos na Europa estão sob pressão e não podemos ficar cegos a isso.”
Embora existam poucas estatísticas oficiais, organizações muçulmanas relatam um crescimento alarmante da retórica racista, tanto na internet quanto fora dela. No Reino Unido, a Tell Mama, uma instituição beneficente que registra casos de islamofobia, informou na segunda-feira ter catalogado 200 incidentes nacionalmente desde o ataque do Hamas a Israel, um aumento de cinco vezes em comparação a igual período em 2022.
Em um incidente em um trem nos arredores de Londres que está sob investigação policial, uma mulher muçulmana teve o seu hijab arrancado e recebeu ameaças de morte.
Aiman Mazyek, chefe do Conselho Central dos Muçulmanos na Alemanha, disse que a “violência verbal” dirigida a líderes comunitários como ele “aumentou enormemente nos últimos dias”.
Ele citou a reação on-line à sua declaração condenando o ataque do Hamas a Israel. Mazyek disse que uma pessoa escreveu, referindo-se aos muçulmanos: “Eu expulsaria esses bastardos do país ou simplesmente os penduraria na árvore mais próxima”.
Outros reclamam do assédio policial. “Em áreas de Berlim com grandes populações árabes […] estamos vendo a um aumento nas operações policiais de controle de pessoas consideradas muçulmanas, sem qualquer suspeita razoável”, disse Rima Hanano, do CLAIM, um grupo que faz campanha contra o racismo antimuçulmano. “Isso constitui claramente [a prática de] perfilamento racial.”
Na cidade alemã de Regensburg, no sul, um jovem sírio ficou gravemente ferido na sexta-feira após ter sido empurrado intencionalmente de uma ponte. Seu agressor, que foi acusado de tentativa de homicídio, é um extremista de direita há muito conhecido pelas autoridades.
No entanto, o que realmente provocou ondas de choque pela Europa foi o assassinato de Al-Fayoume nos EUA, segundo líderes comunitários. Isso “mostra como as linhas de frente estão se tornando arraigadas”, disse Kaddor.
A deputada alemã disse não ter dúvidas de que um incidente semelhante poderia acontecer na Alemanha. “Ataques contra muçulmanos são uma ocorrência quase diária aqui.”
Na França, as tensões estão particularmente altas porque os casos violentos anteriores em tempos de conflito israelense-palestino foram seguidos por incidentes antissemitas no país.
Em discurso televisionado na quinta-feira da semana passada, o presidente da França, Emmanuel Macron, declarou o apoio do país ao direito de Israel de se defender contra o Hamas e também pediu “união nacional” para que não se adicionem “divisões internas às divisões internacionais”.
Ele procurou mostrar equilíbrio ao assegurar aos cidadãos judeus que o Estado os protegeria, ao mesmo tempo em que reconheceu a preocupação sentida por seus “compatriotas muçulmanos” que também temem a discriminação.
No entanto, logo após o discurso de Macron, um jovem de 20 anos matou um professor em Arras, reavivando velhos traumas na França, que sofreu diversos ataques mortais de islamistas nos últimos anos, entre os quais a decapitação de um professor em 2020.
Políticos de extrema direita atacaram o que consideraram uma política de segurança e de imigração frouxa do governo. “Parem a imigração […] não vamos ceder mais um centímetro à islamização de nosso país”, disse Éric Zemmour, que já foi candidato a presidente da França.
A desconfiança também afeta a esfera privada. Nesta semana, em um subúrbio de Paris uma mãe muçulmana de três filhos foi detida pela polícia por cinco horas após um conflito com uma vizinha que terminou com ambas fazendo reclamações à polícia, de acordo com o advogado dela, Nabil Boudi. Segundo seu relato, a vizinha denunciou sua cliente por ter falado em árabe com trabalhadores do prédio, interpretando “salam alaikum” (a paz esteja consigo) e outras frases como ameaçadoras e dizendo que ela deveria se envergonhar de falar árabe dado “tudo o que estava acontecendo em Israel”. “É uma loucura que algo assim tenha acontecido”, disse Boudi.
A vizinha acusou a cliente de Boudi de ter feito ameaças contra ela, segundo relatório policial ao qual o jornal “Libération” teve acesso.
Na Suécia, Mohannad Yousif, que ajudou a organizar manifestações pró-palestinas em Malmo, deseja garantir que sua voz e a de outros manifestantes sejam não apenas ouvidas, mas compreendidas pelos suecos, então eles decidiram não fazer cânticos em árabe.
Yousif, de 45 anos, que se mudou do Líbano à Suécia quando criança em 1986, acredita que os partidos antiimigração aproveitarão a tensão durante a guerra entre Hamas e Israel “na direção negativa”, mas disse que isso não é nenhuma novidade. “A extrema direita sempre nos disse que somos todos terroristas e que deveríamos ir para ‘nossos próprios’ países”.
(Tradução de Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico


