A guerra comercial norte-americana está de volta. O heroicamente desafiador primeiro-ministro canadense, Mark Carney, confirmou isso depois de dias de uma queda de braço tarifária com o governo Trump, antes de optar por um “não acordo” e prometer retaliação dólar por dólar. Continuo acreditando que já atingimos o pico global das tarifas, mas o fato de o presidente Donald Trump ter em mãos novos brinquedos reluzentes – as tarifas sobre o Canadá envolvem a obscura Seção 338 – significa que ele sempre terá o poder de atacar em casos específicos.
Hoje, analiso como a ridícula lista de exigências de Trump na realidade tornou a escolha de Carney muito mais fácil, além de examinar como essas tarifas vão repercutir politicamente nos EUA. Charted Waters, nossa coluna que analisa os dados por trás do comércio mundial, trata dos preços do gado.
A atuação de Carney como rei-filósofo em Davos, em janeiro, quando previu uma ordem internacional pós-EUA, somada ao seu excelente trabalho no ano passado ao enfrentar as ameaças comerciais de Trump, certamente já é suficiente para lhe garantir a canonização. O discurso do primeiro-ministro no fim de semana, depois que as negociações fracassaram, foi claro e eloquente, e a opinião pública canadense está firmemente a seu lado. Mas acho que ele teve sorte.
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Como escrevi em junho, a retórica do Canadá às vésperas das negociações havia tomado um rumo mais conciliador, reconhecendo o fato de que, no comércio, a geografia é destino. O próprio Carney, recuando de sua posição adotada em Davos, enfatizou a importância da relação comercial entre EUA e Canadá. Doug Ford, o combativo primeiro-ministro de Ontário que no ano passado provocou Trump com um anúncio de televisão contrário ao protecionismo, citando o ex-presidente americano Ronald Reagan, voltou a defender sua proposta anterior de uma “Fortaleza Norte-Americana” no comércio. O embaixador americano no Canadá, Pete Hoekstra, conhecido por sua postura incisiva e difícil de impressionar, disse ter ficado agradavelmente surpreso.
A diplomacia canadense na preparação para as negociações esteve longe de segura, e o episódio da Ponte Internacional Gordie Howe, que atravessa a fronteira entre os EUA e o Canadá, ligando Ontário a Michigan, é um exemplo. A ponte foi concluída neste verão, após oito anos de construção, mas no início do Trump repentinamente exigiu uma parcela da receita dos pedágios, apesar de o Canadá ter financiado a obra. Carney provocou irritação entre o público canadense ao fazer concessões pouco transparentes que, de qualquer forma, não foram suficientes para apaziguar Washington. No fim, o Canadá fez sozinho a cerimônia de inauguração da ponte.
Um conjunto de exigências bem elaborado e direcionado nas negociações comerciais teria colocado Carney em uma posição difícil, deixando apenas opções desagradáveis. Segundo relatos, o Canadá estava disposto a aceitar tarifas permanentes em alguns setores, em vez de exigir o retorno às alíquotas zero anteriores a Trump, e a concordar com regras de origem mais rigorosas para forçar uma parcela maior da cadeia de suprimentos transfronteiriça do setor automotivo para os EUA.
Isso teria provocado consternação no país e acusações de que o governo estava vendendo os interesses canadenses. Felizmente para Carney, ele está lidando com o bullying estabanado do governo Trump, que, possivelmente sob a influência perniciosa do secretário de Comércio, Howard Lutnick, apresentou uma série de novas exigências de última hora.
Ao que tudo indica, os EUA exigiram a abolição das regras destinadas a promover a língua francesa – presumivelmente as exigências do Quebec de rotulagem de produtos em francês e as cotas de conteúdo em francês nas plataformas digitais. Houve relatos de que os EUA queriam acesso exclusivo aos minerais críticos do Canadá, algo que Carney disse que jamais aconteceria, e de que Washington queria integrar o Canadá ainda mais estreitamente à sua órbita comercial, restringindo o direito de Ottawa de fechar acordos com outros países.
Tudo isso imediatamente transformou o dilema político de Carney em uma decisão óbvia. Ele não teve nenhum escrúpulo em rejeitar o acordo e prometer retaliação. Trump pode ter tentado aplicar a estratégia de dividir para governar no Canadá; conseguiu apenas unir e provocar o país. Como uma máfia incompetente, os EUA deram a um adversário uma oferta que ele só poderia recusar. Isso não é novidade: o mesmo aconteceu no ano passado, quando Trump tentou ameaçar o Brasil por causa do ex-presidente Jair Bolsonaro, então preso.
Para deixar claro, não existe uma estratégia geral óbvia sobre o que o Canadá deveria fazer em resposta a Trump. A resistência parece ter sido a melhor política até agora, mas não é uma regra universal. O Canadá está preso em um apartamento no último andar, com um vizinho destrutivo e excêntrico fazendo estragos no andar de baixo, por mais que queira se mudar para a Torre Europa. Nessa ocasião, porém, a decisão de Carney foi muito fácil, e suspeito que a determinação do público canadense permanecerá firme em seu apoio a ela.
Então, isso enfraquece pessoalmente Trump de maneira irreversível e condena os republicanos nas eleições legislativas de meio de mandato nos EUA? O Congresso americano e os republicanos no Capitólio finalmente vão decidir se distanciar da toxicidade política das tarifas? Respectivamente, talvez e não.
A ameaça à popularidade, já muito baixa, de Trump é evidente. A inflação já está elevada, e as tarifas são responsabilizadas pelo aumento dos preços, sejam elas de fato responsáveis por isso ou não. Um coro de reclamações surgiu no fim de semana entre parlamentares, governadores e líderes empresariais por causa do colapso das negociações com o Canadá.
O público americano não é um grande fã de tarifas. A opinião se divide segundo linhas partidárias – como tudo, inclusive a questão de saber se o sol nasce no leste ou no oeste –, mas os independentes têm adotado uma posição bastante firme contra elas. Às vezes, Trump parece vagamente consciente disso – recentemente concedeu uma nova cota de seis meses para a importação de carne bovina moída sem tarifas, presumivelmente numa tentativa de comprar votos com hambúrgueres baratos –, mas, no fim, as tarifas são uma arma tentadora demais.
O presidente também agiu de maneira imprudente ao manter suas tarifas no centro das atenções do público, vociferando contra a decisão da Suprema Corte dos EUA que as derrubou e depois reconstruindo laboriosamente o muro tarifário por meio de vários instrumentos.
E, no entanto, não há um histórico forte de Trump sofrer eleitoralmente por causa do impacto de suas tarifas. Agricultores foram duramente atingidos pelas retaliações contra as tarifas americanas desde que ele começou a elevá-las em seu primeiro mandato, mas os condados rurais votaram em Trump por margens cada vez maiores nas eleições seguintes. Distritos prejudicados por sua guerra comercial de 2018-19, ainda assim, posteriormente penderam para os republicanos.
Fonte: Valor Econômico


