Os historiadores são fascinados com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Como o assassinato de um arquiduque austríaco em Sarajevo em junho de 1914 levou, semanas depois, a um conflito que arrastou todas as grandes potências da Europa e, no fim, os EUA.
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Israel intensifica ataques a Gaza e amplia ofensiva para outras regiões — Foto: Abed Khaled/AP
A questão é particularmente preocupante porque muitos dos envolvidos tentaram arduamente evitar uma guerra generalizada na Europa. Os imperadores alemão e russo trocaram numerosas mensagens tentando desarmar uma crise que durou um mês antes do conflito. Mas fracassaram.
Um risco semelhante de escalada inadvertida agora paira sobre o Oriente Médio. Os horrores do conflito em Gaza são tão convincentes que é tentador nos concentrarmos apenas nos combates. Mas as autoridades ocidentais estão cada vez mais focadas na região como um todo — e no perigo de uma guerra generalizada no Oriente Médio que possa arrastar o Irã, os EUA e até mesmo a Arábia Saudita.
Para o governo de Joe Biden, a ameaça de uma guerra mais ampla é agora tida como o principal desafio em toda a crise. Como afirmou uma fonte de Washington: “Todos os países envolvidos têm limites que, se ultrapassados, os farão acreditar que precisam agir. Mas ninguém realmente sabe qual é o limite do outro lado”.
No fim de semana, o Irã fez uma ameaça clara de que está chegando perto desse limite. Ebrahim Raisi, presidente do país, usou o X (ex-Twitter) para declarar que as ações de Israel em Gaza “atravessaram as linhas vermelhas e isso poderá forçar todos a agir”. Ele acrescentou: “Washington nos pede para não fazer nada, mas eles continuam dando um amplo apoio a Israel”.
Então, como poderia ocorrer uma escalada? Uma indicação veio na semana passada, quando os EUA bombardearam milícias apoiadas pelo Irã na Síria. Washington disse que estava reagindo a ataques a forças americanas no Iraque e na Síria, realizados por grupos que atuam sob patrocínio do Irã. Se esses ataques continuarem, e soldados americanos forem mortos, a próxima resposta dos EUA será ainda mais dura.
O papel do Hezbollah, o grupo militante xiita apoiado pelo Irã no Líbano, é crucial. Se o Hezbollah intensificar seus ataques a Israel, ele possui mísseis guiados com precisão suficientes no seu arsenal para basicamente forçar a população civil da Israel a correr para os abrigos antiaéreos. Benjamin Netanyahu, o premiê de Israel, ameaçou o Líbano com “devastação”, se Israel for atacado de seu território. Mas se o Hezbollah estiver sob a ameaça de destruição, o Irá poderá enviar tropas da Guarda Revolucionária para combater ao lado do aliado. A essa altura, Israel poderá decidir atacar a Guarda Revolucionária no Irã, bem como no Líbano.
Outros grupos da região que atuam sob procuração do Irã provavelmente também responderiam a uma guerra envolvendo o Hezbollah, intensificando seus ataques a alvos israelenses e americanos. O Irã poderia também finalmente agir face às suas ameaças ocasionais de fechar o Estreito de Ormuz, através do qual flui grande parte do petróleo mundial — talvez minando o estreito. Isso jogaria a economia mundial em uma espiral de queda, ameaçando diretamente a Arábia Saudita.
A Marinha dos EUA tentaria reabrir o estreito. Mas isso poderia levar o Irã e seus representantes a reagir. As tropas e instalações americanas em toda a região poderiam se transformar em alvos — inclusive no Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Catar, Síria e Iraque.
Uma força apoiada pelo Irã que os americanos observam com especial preocupação são os houthis no Iêmen — alvos de uma guerra brutal com a Arábia Saudita. Forças houthis dispararam foguetes contra Israel na semana passada. Também já atingiram instalações de petróleo sauditas no passado. Uns poucos mísseis de precisão poderiam destruir as centrais de dessalinização que fornecem água para Riad, a capital saudita.
Um conflito que se desenrolasse dessa forma seria um desastre para todos os participantes — e todos eles sabem disso. No entanto, isso poderá acontecer porque todos os lados também acreditam que há certos eventos aos quais seria muito perigoso não responder.
Israel invadiu Gaza, sem um plano de saída convincente, porque sente que precisa “restabelecer a dissuasão”. O Irã acredita que precisa mostrar que seu “eixo de resistência” está apoiando os palestinos. Os EUA acreditam que precisam responder duramente a qualquer ataque às suas tropas.
Mas nem todos na região estão em pânico. Em Riad na semana passada, encontrei alguns sauditas bem posicionados afirmando com confiança que esta será apenas mais uma crise em uma região historicamente instável. A ambiciosa agenda de modernização do país – Vision 2030 — permanece no caminho, insistiram eles.
Mas a multidão que vive como sempre em Riad está enterrando a cabeça na areia. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, governante de fato do país, está muito preocupado com a possibilidade de uma guerra regional. Sua estratégia, segundo um confidente, é “pressionar os americanos para que pressionem os israelenses”. Os americanos, de sua parte, esperam que Bin Salman, o Catar e até mesmo a China possam convencer o Irã dos perigos da escalada e da necessidade de contenção.
Esta crise já levou a uma conversa sem precedentes entre Mohammed bin Salman e o presidente do Irã. Assim como os imperadores russo e alemão antes da Primeira Guerra Mundial, os líderes iraniano e saudita se mostraram dispostos a conversar um com o outro — numa tentativa de evitar uma guerra catastrófica. Não funcionou em 1914. Esperemos que desta vez seja diferente.
Fonte: Valor Econômico

