Os fluxos de investimento estrangeiro para a América Latina e o Brasil, em especial, não só são sustentáveis como podem até aumentar nos próximos meses, segundo o CEO do J.P. Morgan para América Latina e Canadá, Alfonso Eyzaguirre. Ele diz que a região tem uma série de vantagens estruturais e também se beneficia da conjuntura geopolítica atual – e que os fluxos de fundos ativos ainda nem começaram.
“A América Latina está muito bem posicionada nessa nova ordem mundial. A região tem vantagens estruturais que a favorecem em comparação com outras partes do mundo. Está longe de conflitos geopolíticos, tem uma demografia atraente, recursos naturais, democracias sólidas nos grandes países”, comentou em entrevista ao Valor durante visita recente ao Brasil.
Segundo o executivo, o país ainda se destaca dentro da América Latina por ter uma economia diversificada, enorme mercado consumidor doméstico, mercados de capitais amplos e líquidos e uma população jovem e digitalizada. “Em períodos como o atual, em que o risco geopolítico está tão alto, o maior desde a Segunda Guerra Mundial, estar longe desses conflitos importa para os investidores. Quando está tudo normal, a paz é garantida, isso não faz diferença, mas esse não é o caso hoje. Então isso é um ativo que não pode ser subestimado. E o Brasil pode monetizar isso, porque já tem todo o resto.”
Eyzaguirre aponta que somente em janeiro e fevereiro deste ano os mercados emergentes atraíram 2,5 vezes todo o fluxo de 2025 e que isso já provocou uma valorização dos ativos desses países. Ainda assim, os “valuations” seguem atrativos. Ele lembra que, no piso recente, em 2024, os emergentes ficaram com 4,9% dos fundos globais. “No ano passado isso começou a se recuperar e este ano também. Com a guerra do Irã deu uma parada, mas não acho que isso vai se manter. Os emergentes vão ganhar mais peso. A alocação ainda é muito baixa. Esse porcentual dos emergentes nas carteiras globais ainda está dois, três pontos percentuais abaixo da média dos últimos dez anos. Cada ponto percentual é cerca de US$ 350 bilhões, e a América Latina fica com uma parte disso”.
De acordo com o representante do J.P. Morgan, os fluxos para emergentes ainda estão concentrados em fundos passivos, mas em breve devem entrar no jogo também os fundos com gestão ativa. “É lógico que não será uma linha reta, terá altos e baixos, mas precisamos observar a tendência.” Ele aponta ainda que o tamanho relativo dos mercados é tão diferente que qualquer movimento pode ter um impacto grande. Enquanto o valor de mercado das empresas americanas é de cerca de US$ 65 trilhões, na América Latina é de apenas US$ 1,5 trilhão. “Então,se sair um pouco dos EUA para a região, isso move a balança.”
Sobre o contexto macroeconômico brasileiro mais especificamente, Eyzaguirre diz que a queda dos juros pode ajudar a destravar mais negócios, especialmente em emissões de ações (ECM, na sigla em inglês) e fusões e aquisições (M&A). Já em relação às eleições presidenciais, ele prefere não tecer muitos comentários, mas lembra que a questão da disciplina fiscal é sempre um tema importante para investidores internacionais. “Muitos países, incluindo economias desenvolvidas, como os EUA, estão com déficits muitos altos. O Brasil tem um déficit alto há algum tempo, a relação dívida/PIB também é alta. Seria fantástico ver esse número se estabilizando e começando a cair.”
O CEO do J.P. Morgan no Brasil, Marcelo Gaiani, afirma que os mercados de dívida (DCM) estão bem abertos para emissores frequentes, e diz que em ECM e M&A a dinâmica vai depender da velocidade de queda dos juros. “O que nós dizemos para os clientes é que eles precisam estar preparados, porque ninguém sabe quando a guerra [no Irã] vai acabar, quanto os juros vão cair, quando os fundos ativos virão para cá.” Ele aponta que, em M&A, o que tem acontecido são operações mais estruturadas, com trocas de ações, por exemplo, em que não é preciso financiar uma parte da operação com dívida. Em alguns setores, como infraestrutura, há muitas oportunidades. “Recentemente assessoramos uma empresa estrangeira que comprou um conjunto de aeroportos aqui. Fundos de infra estão olhando ativamente. Mesmo com esses juros [altos], deve ter muita atividade.”
Sobre o mercado de crédito privado nos EUA, Eyzaguirre diz que há ruídos, mas não vê nenhum risco sistêmico. Ele aponta que lá o mercado é formado basicamente por investidores institucionais, em operações de longo prazo, então não pode haver uma corrida para saques em fundos. “Como em qualquer indústria, alguns players vão sofrer, podem até ter de sair dos negócios, mas o setor como um todo se mantém. Vai haver perdas, mas faz parte do ciclo de crédito.” O CEO global do J.P. Morgan, Jamie Dimon, disse no ano passado, referindo-se a esse cenário, que, quando se vê uma barata, provavelmente há outras. “Pode ter uma barata aqui, ali, mas não é toda casa que tem barata. Então não vemos uma crise de crédito”, pondera o chefe de América Latina.
Já sobre o Brasil, onde grandes empresas têm enfrentado dificuldades e recorrido a recuperações extrajudiciais ou mesmo judiciais, Gaiani também não vê um problema generalizado. “Tivemos alguns eventos de crédito de empresas relevantes, mas não é um problema do mercado como um todo. Quando você analisa caso a caso, cada uma tem razões diferentes.” O J.P. Morgan não revela se tem exposição a algum dos nomes mais conhecidos, mas o CEO diz que o banco costuma ser muito cuidadoso na gestão do seu portfólio.
Fonte: Valor Econômico
