Por Gabriel Roca e Matheus Prado — De São Paulo
14/04/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
O fluxo de recursos estrangeiros na bolsa inverteu a mão em abril, depois da entrada expressiva de recursos que ajudou a sustentar o Ibovespa neste ano. No segmento à vista, o saldo líquido de investidores externos no mês, até o dia 11, ficou negativo em R$ 904 milhões e, nos últimos três pregões computados, a saída de recursos foi de R$ 1,6 bilhão.
Desde o início deste ano, houve apenas nove dias de retirada de recursos pelos investidores estrangeiros. Desses, cinco se deram neste mês. O cenário contrasta com o observado no primeiro trimestre. As entradas líquidas de recursos externos no mercado secundário à vista da B3 superaram os R$ 20 bilhões por mês, em um montante acumulado de R$ 64,42 bilhões até o fechamento da última sexta-feira.
A leitura predominante, por ora, ainda é a de que a diminuição do fluxo não indica uma reversão de tendência, mas uma acomodação após a alta expressiva das ações locais em moeda estrangeira. No entanto, o movimento acende um sinal de alerta. O dinheiro vindo de fora permitiu que a bolsa acumulasse uma valorização robusta neste ano, na contramão dos principais índices do mundo desenvolvido.
Na visão de gestores ouvidos pelo Valor, o fluxo estrangeiro ainda deve se manter relevante, já que boa parte dos componentes que trouxeram os recursos ao Brasil continua em vigor. Entre eles, destacam-se a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, a valorização expressiva das commodities e a rotação de carteiras em direção a ações de “valor”, que têm peso elevado na bolsa brasileira.
Mesmo assim, a percepção geral é a de que o fluxo estrangeiro deve passar por uma acomodação. Leonardo Morales, sócio e diretor da SVN Gestão, afirma que a velocidade de entrada de recursos na bolsa teve um recuo grande no mês de abril, o que demonstra uma estabilização.
“Não vejo como um movimento de aversão ao risco ou algo doméstico. Apesar da venda de R$ 904 milhões no segmento à vista, os estrangeiros compraram R$ 3,6 bilhões no segmento futuro em abril, o que ainda dá um saldo positivo de R$ 2,7 bilhões”, afirma.
Morales afirma que o movimento é natural após a valorização expressiva dos ativos brasileiros. “O estrangeiro acaba olhando para o Ibovespa em dólar, que subiu perto de 35% no ano. Depois da valorização da bolsa e do real, na contramão do mercado americano, parece natural existir um pouco de acomodação”, diz.
Para César Mikail, gestor de renda variável da Western Asset, é cedo para falar em reversão no fluxo. Ele não descarta, no entanto, que o movimento fique mais tático e pontual a partir de agora. “O desconto que os ativos locais tinham em relação aos pares globais no início do ano diminuiu bem, o que faz com que o fluxo fique mais errático daqui para a frente. Antes, a estratégia para o investidor estrangeiro era simples, só precisava raspar [comprar] as ‘large caps’ [empresas de grande porte e maior liquidez]. Vai precisar ser mais seletivo”, diz.
A crença de que a bolsa brasileira não deve experimentar uma saída expressiva de recursos no curto prazo ocorre, em grande parte, pela permanência de questões globais que acabaram trazendo dinheiro ao país. “Quando a gente pensa no que esteve por trás do fluxo de estrangeiros, a maioria desses componentes continua presente. Seja a composição do índice, mais voltada para empresas de valor, seja a ausência de alternativas dentro do universo emergente”, diz Alexandre Cancherini, sócio e gestor de renda variável da Frontier Capital.
Denise Pondé, gestora de renda variável da ARX Investimentos, lembra que o fluxo estrangeiro foi importante para o desempenho da bolsa neste ano, que acabou compensando o movimento de saques em fundos locais. “A questão principal foi a Rússia ter se tornado impraticável para investir. Perdeu-se um dos emergentes e, com a China patinando com sua política de covid-19, esse dinheiro acabou vindo para o Brasil”, afirma.
De acordo com ela, o conflito no Leste Europeu continua sendo um ingrediente de incerteza adicional para a renda variável. No entanto, um dos efeitos da guerra foi a alta expressiva dos preços das commodities, o que acabou beneficiando o Brasil. Assim, a gestora continua vendo com bons olhos papéis que possuem uma característica de preservação de capital, como bancos, empresas de commodities e companhias do setor elétrico.
Wilson Barcellos, diretor-executivo da Azimut Brasil Wealth Management, vê o movimento de curtíssimo prazo como um compasso de espera do mercado, enquanto agentes esperam ter mais clareza sobre o ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos. “A inflação americana irá definir o rumo do fluxo nos próximos meses. Se a alta dos preços continuar fora de controle, exigindo que o Fed [banco central dos EUA] aumente as taxas para níveis maiores que os previstos, é provável que haja uma saída mais contundente de ativos de risco para produtos mais seguros.”
Fonte: Valor Econômico
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