O Ibovespa acumula forte valorização neste início de ano, impulsionado por um fluxo recorde de investidores estrangeiros para a bolsa brasileira. O movimento, no entanto, tem produzido um rali concentrado, com algumas das maiores empresas do índice acumulando ganhos expressivos, enquanto boa parte das ações avança em ritmo bem mais moderado.
Segundo análise da EQI Research, esse desempenho tem sido menos resultado de uma melhora nas expectativas para a economia doméstica e mais reflexo de um processo global de diversificação de portfólios, que tem favorecido mercados emergentes, incluindo o Brasil.
É sob esse contexto que o capital estrangeiro voltou a ganhar protagonismo na bolsa brasileira. Apenas em janeiro, o saldo de entrada de recursos internacionais na B3 chegou a R$ 26 bilhões, o maior valor mensal da série histórica.
Desde então, o fluxo externo continuou positivo e tem sido o principal motor do mercado acionário brasileiro em 2026.
Dados da B3 mostram que os investidores estrangeiros passaram a responder pela maior parte das compras líquidas no período, enquanto investidores institucionais e pessoas físicas registraram, em alguns momentos, fluxo negativo.
Historicamente, o Ibovespa tende a acompanhar de perto o comportamento do fluxo estrangeiro, já que boa parte do capital que entra na bolsa se concentra nas empresas de maior liquidez e maior peso na carteira teórica.
Nos últimos meses, à medida que os aportes internacionais ganharam força, o índice também passou a acumular uma sequência de altas, registrando novas máximas e fortalecendo o papel do investidor estrangeiro no movimento da bolsa.
Mas, apesar da força do rali, o impacto não tem sido o mesmo entre as empresas listadas.
Rali concentrado nos maiores pesos do índice
O fluxo estrangeiro recente tem favorecido principalmente as ações com maior liquidez e maior peso no Ibovespa, exatamente aquelas que também compõem a maior parte dos investimentos feitos por meio de fundos de índices (ETFs).
Entre os principais beneficiários estão empresas como Vale (VALE3) e Banco do Brasil (BBAS3), ações de setores com peso relevante no Ibovespa, segundo um estudo da XP.
Também aparecem na lista Prio (PRIO3), Vibra Energia (VBBR3) e Marfrig (MRFG3), além de companhias do setor elétrico como Eneva (ENEV3) e Equatorial (EQTL3).
O levantamento mostrou que a Eneva liderou a entrada de capital estrangeiro no período, com fluxo equivalente a um crescimento de 864% do volume médio diário negociado (ADTV). Em seguida aparecem Prio (volume 791% maior), Banco do Brasil (706%), Marfrig (550%) e Vibra Energia (526%).
Esse movimento ajuda a explicar o desempenho recente dessas ações, como é o caso de Prio, cujos papéis subiram 44,5% em três meses, e Vale, com alta de 40,4%.
Ações com maiores fluxos estrangeiros (em 3 meses)
| Código | Fluxo estrangeiro (3 meses, % do ADTV) | Setor | Retorno em 3 meses |
| ENEV3 | 864% | Elétricas | 6,8% |
| PRIO3 | 791% | Óleo & Gás | 44,5% |
| BBAS3 | 706% | Bancos | 23,3% |
| MRFG3 | 550% | Alimentos & Bebidas | 5,5% |
| VBBR3 | 526% | Óleo & Gás | 21,8% |
| VALE3 | 515% | Mineração & Siderurgia | 40,4% |
| BRAV3 | 504% | Óleo & Gás | 37,1% |
| EQTL3 | 491% | Elétricas | 6,5% |
| CMIN3 | 464% | Mineração & Siderurgia | 2,2% |
| USIM5 | 445% | Mineração & Siderurgia | 32,1% |
Fonte: XP Research
No outro extremo, algumas empresas registraram saída relevante de investidores estrangeiros. Entre os maiores fluxos negativos aparecem C&A (CEAB3), Azzas (AZZA3) e Alos (ALOS3), além da BrasilAgro (RAIZ4).
No caso da C&A, por exemplo, o fluxo líquido estrangeiro foi equivalente a uma queda 846% do ADTV, acompanhado de queda de 27,9% nas ações no período de três meses.
Ações com menores fluxos estrangeiros (em 3 meses)
| Código | Fluxo estrangeiro (3 meses, % do ADTV) | Setor | Retorno em 3 meses |
| CEAB3 | -846% | Varejo | -27,9% |
| AZZA3 | -708% | Varejo | -2,0% |
| BRAP4 | -699% | Mineração & Siderurgia | 40,2% |
| ALOS3 | -591% | Propriedades Comerciais | 20,6% |
| TOTS3 | -574% | TMT | -10,7% |
| BBSE3 | -508% | Instituições Financeiras | 8,0% |
| RAIZ4 | -456% | Agro | -24,1% |
| CMIG4 | -447% | Elétricas | 9,0% |
| YDUQ3 | -431% | Educação | 5,0% |
| EMBR3 | -413% | Bens de Capital | 11,7% |
Fonte: XP Research
ETFs ampliam concentração de recursos
Parte importante desse movimento está atrelada ao aumento das entradas em fundos de índice ligados ao mercado brasileiro.
Entre eles, o principal é o EWZ, ETF listado nos Estados Unidos que replica o desempenho das ações brasileiras. Em 2025, o número de cotas do fundo cresceu 76%, marcando o maior volume de criação desde 2019. Apenas em janeiro de 2026, houve uma nova expansão de 15%.
Como esses fundos replicam a composição do Ibovespa, o dinheiro acaba sendo direcionado automaticamente para as empresas com maior peso no índice. O resultado é um fluxo concentrado em grandes companhias, sobretudo nos setores de commodities e financeiro.
Dados da XP mostram que, nos últimos meses, os setores de metais e mineração e de óleo e gás receberam entradas equivalentes a 427% e 318% do volume médio diário negociado, respectivamente.
Divergência dentro da bolsa
Enquanto as ações de maior capitalização acumulam fortes ganhos e já negociam em níveis mais elevados em termos de preço, companhias mais sensíveis ao ciclo doméstico continuam com preços deprimidos.
Segundo a XP, setores como bancos, mineração, petróleo e utilities já operam acima de suas médias de preço dos últimos três anos, enquanto áreas mais ligadas à economia local, como educação, varejo e saúde, ainda apresentam descontos.
Entre os exemplos que concentram os maiores fluxos de capital estrangeiro estão: Banco do Brasil (BBAS3), Petrobras (PETR4), Vale (VALE3), Prio (PRIO3) e Vibra Energia (VBBR3), além de empresas de energia elétrica e infraestrutura como Copel (CPLE3) e Auren Energia (AURE3).
Também aparecem na lista empresas como Simpar (SIMH3), Lavvi (LAVV3) e Moura Dubeux (MDNE3), que registraram forte entrada de capital estrangeiro no período.
A XP destaca que esses papéis passaram a negociar com múltiplos de preço sobre lucro (P/L) superiores às médias dos últimos três anos, refletindo tanto a valorização recente quanto o aumento da demanda por parte de investidores internacionais.
Ações com P/L superior à média dos últimos 3 anos
| Código | Setor | Desempenho 2026 | P/L vs média 3 anos |
| AXIA3 | Elétricas | 30,6% | 3,16 |
| BBAS3 | Bancos | 25,5% | 3,99 |
| CPLE3 | Elétricas | 22,0% | 1,94 |
| LAVV3 | Construtoras | 23,5% | 1,67 |
| MDNE3 | Construtoras | 44,8% | 1,61 |
| PETR4 | Óleo & Gás | 28,5% | 2,68 |
| PRIO3 | Óleo & Gás | 26,4% | 2,85 |
| SIMH3 | Transportes | 25,7% | 2,26 |
| VALE3 | Mineração & Siderurgia | 24,0% | 3,23 |
| VBBR3 | Óleo & Gás | 21,6% | 2,13 |
Fonte: XP Research
Possível “trade de convergência”
Para a XP, a forte divergência de desempenho entre as ações pode abrir espaço, em algum momento, para um movimento de convergência no mercado.
Nesse cenário, investidores passariam a buscar empresas que ficaram para trás no rali, sobretudo aquelas com fundamentos sólidos, mas que não se beneficiaram diretamente do fluxo estrangeiro, que tem se concentrado nas companhias de maior peso e liquidez do índice.
Segundo a casa, alguns papéis ainda negociam com preço atrativo mesmo após a alta recente da bolsa, combinando preços descontados em relação às médias históricas com revisões positivas de lucro.
Entre os nomes destacados estão: Smart Fit (SMFT3), Totvs (TOTS3), Vivara (VIVA3), Riachuelo (RIAA3) e Raia Drogasil (RADL3), além de empresas de construção civil e mineração como Tenda (TEND3), Aura Minerals (AURA33) e Cyrela (CYRE3).
Ações que negociam com preços atrativos mesmo após rali do Ibovespa
| Código | Setor | Desempenho 2026 | P/L vs média 3 anos |
| SMFT3 | Varejo | -7,9% | -1,71 |
| TOTS3 | TMT | -6,1% | -1,03 |
| VIVA3 | Varejo | -7,5% | -0,74 |
| RIAA3 | Varejo | 20,3% | -0,48 |
| RADL3 | Varejo | 13,0% | -0,29 |
| TEND3 | Construção Civil | 34,6% | -0,24 |
| AURA33 | Mineração & Siderurgia | 40,8% | -0,08 |
| PGMN3 | Varejo | 23,8% | 0,09 |
| CYRE3 | Construção Civil | 28,3% | 0,34 |
Fonte: XP Research
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Espaço para mais entrada de estrangeiros
Apesar do forte fluxo recente, a EQI avalia que ainda há espaço para maior participação dos estrangeiros na bolsa brasileira.
De acordo com a casa, investidores internacionais atualmente detém 52,2% do capital das empresas listadas na B3, abaixo da média dos últimos 15 anos, que gira em torno de 56%, e bem distante do pico de 63,4% registrado em 2017.
Para que essa participação volte ao patamar médio histórico, seria necessário um aumento de aproximadamente R$ 210 bilhões nas posições estrangeiras, considerando os preços atuais das ações.
Em um cenário de retorno aos níveis mais elevados observados no passado, o volume potencial poderia ultrapassar R$ 600 bilhões, segundo cálculos da EQI.
Caso o ritmo de entrada observado neste início de ano seja mantido, a casa estima que o fluxo externo poderia continuar sustentando o mercado local por vários meses.
Fonte: Valor Investe
