A dinâmica da inflação brasileira manteve-se bastante saudável no ano passado, mas, a partir do segundo trimestre deste ano, chegou a uma “encruzilhada”. Assim, a agência de classificação de risco Fitch também passou a esperar um “mini-ciclo” de aperto monetário que, como deve ocorrer simultaneamente a cortes de juros nos EUA, pode trazer benefícios de credibilidade ao Banco Central.
“O desempenho da inflação nos últimos 12 meses foi bastante bom, com a queda nos preços de commodities, alívio nas cadeias globais de oferta, e o Banco Central subiu os juros de modo rápido, antes do Fed [o BC dos EUA]. Mas esse cenário começou a mudar no segundo trimestre deste ano e passamos a ver mais desafios no horizonte. Houve problemas relacionados às enchentes no Sul e às condições de mercado, que se deterioraram também com críticas do governo à atuação do BC”, disse a chefe de ratings soberanos para Ásia e Américas da Fitch, Shelly Shetty, em evento realizado nesta quinta-feira em São Paulo.
Ela cita também o quadro fiscal e a atividade econômica em níveis robustos como responsáveis por tornar o processo de desinflação mais desafiador. “Mas, se olharmos em um cenário mais amplo, comparado com outras referências, em termos de inflação, o Brasil está no meio do caminho — não é a pior nem a melhor situação. Se você olhar para os juros reais e comparar com outros emergentes, é possível dizer que os juros reais são altos no país”, diz.
Segundo ela, os desafios à frente fazem a Fitch esperar um mini-ciclo de altas de juros, com início já em setembro. “Com o Fed cortando juros, ao mesmo tempo em que o Brasil sobe, isso seria outro impulso para a credibilidade do Banco Central”, aponta.
No mesmo evento, o economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, afirmou que, caso o governo demonstre um compromisso fiscal sólido junto aos agentes financeiros, o afrouxamento monetário poderia ocorrer ainda no primeiro semestre do ano que vem.
“As expectativas de inflação para os próximos anos se afastaram das metas e é difícil saber se este vai ser um ciclo de 1,5 ponto ou 2 pontos percentuais de alta da Selic. O que é claro é que devemos ter altas de juros em setembro, novembro, dezembro e janeiro. Mas acredito que, se o governo mostrar que vai cumprir o fiscal, isso deve nos aproximar dos cortes de juros”, diz.
Para ele, se o governo conseguisse demonstrar um real compromisso com as regras fiscais, um ambiente muito melhor seria criado no país. “Poderíamos ter queda de juros ainda no primeiro semestre do ano que vem. E isso não traria só uma queda no juro curto, que é o controlado pelo BC, mas também nos juros de longo prazo. A taxa das NTN-Bs começou o ano por volta dos 5,3% e hoje está acima dos 6%, o que impacta nos investimentos e no financiamento da dívida. O governo precisa ser muito mais claro do ponto de vista fiscal.”
Segundo Mansueto, as incertezas fiscais também contribuíram para um desempenho ruim da moeda brasileira, que pode ver alguma apreciação nesse ambiente de cortes de juros nos países desenvolvidos e altas de juros locais.
O economista chama a atenção para o fato de que, caso as projeções de inflação do mercado sejam confirmadas — cerca de 4,6% em 2025; 4% em 2025; e 3,6% em 2026 —, o governo Lula 3 encerraria o período de quatro anos com a menor inflação média desde a adoção do real. “A notícia ruim é que essas projeções mudam de forma bastante rápida. E isso pode piorar com as incertezas fiscais”, afirma.
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Fonte: Valor Econômico