O Fundo Monetário Internacional (FMI) deve revisar para baixo as projeções para a economia global nesta semana, quando autoridades de todo o mundo se reunião para avaliar os custos cada vez maiores da guerra de EUA e Israel contra o Irã.
Bancos centrais e autoridades econômicas das maiores economias participarão do primeiro de dois encontros anuais do FMI e do Banco Mundial em Washington, nesta semana. Analistas alertam que, mesmo que o atual cessar-fogo se mantenha, os danos econômicos provocados pelo conflito tendem a persistir.
A economia global sofreu um “desvio de rota” e o conflito “quase certamente fará a inflação disparar”, diz Eswar Prasad, da Brookings Institution.
Levantamento feito pelo grupo de pesquisa para o FT indica que antes do início do atual conflito, a economia global registrava seu ritmo mais forte desde o período pós-pandemia.
O índice Tiger (Tracking Indexes for the Global Economic Recovery), desenvolvido em parceria entre a Brookings e o FT, compara indicadores de atividade real, mercados financeiros e confiança dos investidores com suas médias históricas, tanto no âmbito global quanto por país.
Os dados anteriores à guerra mostravam que “a economia mundial parecia resiliente e caminhava para um ano de crescimento razoável”. Além disso, “os mercados financeiros estavam aquecidos em muitos países e a confiança do setor privado vinha se recuperando”, disse Prasad
“A duração da guerra determinará se o crescimento será significativamente afetado”, acrescentou ele. “A falta de uma solução nas próximas semanas e a possibilidade de o conflito se expandir ainda mais pelo Oriente Médio representam um risco relevante para a economia global.”
Prasad disse que os bancos centrais também “estão em uma posição difícil”. Segundo ele, “as contas públicas de muitas das principais economias desenvolvidas já estão sob pressão, com altos níveis de déficit e dívida deixando pouco espaço de manobra”.
A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, afirmou no início da semana que o fundo teria elevado suas projeções para a economia global não fosse o conflito. Ontem, ela reiterou que que levará tempo até que os preços globais retornem aos níveis anteriores aos do início da guerra.
Mas agora, devido aos danos à infraestrutura, interrupções nas cadeias de suprimento, perda de confiança e outros efeitos, “mesmo o cenário mais otimista prevê uma revisão para baixo do crescimento”, disse.
Ajay Rajadhyaksha, chefe global de pesquisa do Barclays, destacou em nota a clientes que os preços mais altos do petróleo, a postura mais dura dos bancos centrais ocidentais e uma “margem de segurança menor” para os consumidores são alguns dos custos duradouros do conflito.
“Mesmo que a guerra realmente termine, a fatura precisará ser paga e o valor final ainda está sendo calculado”, afirmou.
Beata Manthey, responsável pela estratégia de ações europeias e globais do Citi, disse que “um cessar-fogo não desfaz completamente o que já aconteceu, como por exemplo os custos mais altos dos insumos, as pressões inflacionárias e o impacto sobre o consumo. O cenário previsto no começo do ano não existe mais”, disse. “Não é possível simplesmente voltar para trás.”
A consultoria Independent Economics afirmou em relatório a clientes que o aumento dos riscos e dos custos “persistirá” e que a retomada dos fluxos de energia levará tempo.
“Assim como ocorreu na década de 1970, esses eventos tendem a provocar uma profunda reconfiguração econômica, financeira e geopolítica”, disse.
Stefano Scarpetta, economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), disse ao FT que se as exportações pelo Estreito de Ormuz forem normalizadas, a organização poderia manter as projeções para as economias desenvolvidas, publicadas no mês passado com revisões para baixo, em vez de adotar “um cenário ainda mais negativo”.
Segundo ele, as projeções atuais da OCDE “continuam valendo”, mas o nível de dano à infraestrutura energética no Golfo ainda é incerto.
“A incerteza ainda é grande. Precisamos entender as condições do cessar-fogo e saber se isso levará a uma paz mais estável”, acrescentou.
Ricardo Amaro, economista da Oxford Economics, diz que o cessar-fogo “reduz o risco de um cenário muito mais disruptivo no curto prazo”, mas destacou que “o acordo parecia frágil desde o início e que os desdobramentos posteriores apenas reforçaram essa percepção”.
Em carta a clientes assinada pelos economistas Claudio Irigoyen e Antonio Gabriel, o Bank of America diz que “mesmo que o cessar-fogo se mantenha, é pouco provável que retornemos ao cenário anterior à guerra. Os mercados de energia deverão continuar enfrentando uma certa disrupção, o que deve frear o crescimento e acelerar a inflação.”
“Ao mesmo tempo, cenários de escalada continuam representando riscos significativos e podem levar a uma recessão global”, escreveram.
O banco de Wall Street revisou sua projeção de crescimento global para 2026 de 3,5% para 3,1%, enquanto a estimativa de inflação subiu de 2,4% para 3,3% no período.
“Esse choque de caráter estagflacionário deve impactar a inflação primeiro e o crescimento só depois. Projetamos também um aperto nas taxas básicas de juros”, diz o documento.
Bruce Kasman, economista-chefe do JPMorgan, afirmou: “Grandes choques na oferta de energia tendem a reduzir o crescimento global e elevar a inflação ao consumidor.”
Segundo ele, o mais provável é que os efeitos da guerra resultem em “uma inclinação estagflacionária global moderada e temporária”, embora os riscos associados a um fechamento prolongado do Estreito [de Ormuz] continuem sendo uma ameaça “relevante” para a economia mundial. (Com reportagem de Emily Herbert — Tradução de Samuel Rodrigues)
Fonte: Financial Times
