Desde sua fundação, há quase oito décadas, a Nato (OTAN), a mais poderosa aliança militar do mundo, se apoiou em um truque de confiança — a suposição de que cada membro, e sobretudo seu integrante preeminente, os EUA, defenderia um aliado sob ataque.
Essa confiança já havia sido severamente abalada pelo questionamento repetido de Donald Trump sobre a utilidade da Nato e por sua desautorização das obrigações de defesa mútua dos EUA. Neste mês, ela foi despedaçada pelas ameaças de Trump de tomar a Groenlândia da Dinamarca, uma parceira próxima na Nato.
Trata-se de uma mudança sísmica que forçará os aliados desamparados da América, a contragosto, a reimaginar como organizam a própria segurança.
“Esta crise é muito pior do que qualquer coisa que vimos em 77 anos de história da Nato e, em muitos aspectos, qualquer coisa desde 7 de dezembro de 1941, que é quando os Estados Unidos formalizaram a ideia de que a segurança da Europa era fundamental para a segurança dos EUA”, diz Ivo Daalder, ex-embaixador dos EUA na Nato. “Essa ideia que foi formalizada em forma de tratado em 1949 acabou. Terminou.”
Líderes europeus, embora aliviados por Trump ter recuado de suas ameaças contra a Dinamarca e seus parceiros europeus, terão dificuldade em esquecer o que teria sido um golpe fatal para uma organização que os manteve seguros por gerações e ajudou a sustentar uma ordem global baseada em regras.
“Agora temos uma crise. É óbvio”, disse o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, em uma cúpula da UE em Bruxelas na semana passada.
Rachel Ellehuus, chefe do Royal United Service Institute, em Londres, e ex-funcionária da Nato e do Pentágono, diz: “O dano foi feito, e a incerteza sobre a credibilidade do compromisso dos EUA agora é uma corrente subterrânea das relações transatlânticas.” Ela acrescenta: “[Trump] é mercurial demais e a resistência de dentro dos EUA é inconsistente demais.”
Embora este continue sendo um assunto altamente sensível para a maioria dos membros da Nato, alguns funcionários europeus começaram a pressionar por um debate mais ativo sobre a arquitetura de segurança do continente.
“Precisamos ter uma estratégia clara de como estamos substituindo, do ponto de vista material, todas aquelas capacidades [dos EUA], o que eles chamam de prontidão material de defesa”, disse ao FT Andrius Kubilius, comissário de defesa da UE.
“Mas também teremos de discutir cada vez mais . . . nosso entendimento sobre nossa prontidão institucional de defesa. O que podemos chamar de pilar europeu da Nato. Essas discussões também devem se tornar cada vez mais intensas. Agora é o momento adequado. É isso que precisamos fazer.”
Antes das ameaças mais recentes de Trump sobre a Groenlândia, as potências europeias estavam apenas começando a lidar com as implicações de um governo Trump transferindo o ônus da segurança do continente para longe da América. Tendo, em grande medida, subinvestido em sua própria defesa por décadas, elas esperavam que uma promessa feita por todos os membros da aliança no ano passado de gastar 5% do PIB até 2035 em defesa e segurança lhes comprasse algum tempo para se rearmar e substituir parte dos ativos militares críticos que elas dependeram da América para fornecer.
O secretário de guerra dos EUA, Pete Hegseth, no ano passado conclamou aliados europeus a assumirem a “responsabilidade primária pela dissuasão e defesa convencional da Europa”. A estratégia nacional de defesa dos EUA publicada na sexta-feira descreveu a ameaça russa ao flanco leste da Nato como “administrável”. O Pentágono, disse o documento, iria “calibrar a postura de forças [force posture] e as atividades dos EUA no teatro europeu para levar mais em conta a ameaça russa aos interesses americanos, bem como as capacidades dos próprios aliados”.
Funcionários do Pentágono disseram a diplomatas europeus que queriam que isso acontecesse até 2027, de acordo com uma reportagem da Reuters no mês passado. Esse seria um cronograma muito mais acelerado para as Forças Armadas europeias, que deixaria buracos enormes em suas defesas, mas ainda assim seria, em alguma medida, uma transição.

No entanto, a aparente abertura de Trump para invadir um aliado mudou o jogo.
Até os mais robustos defensores do papel da América entre autoridades europeias de defesa dizem que não podem mais se dar ao luxo de ser complacentes quanto às intenções dos EUA.
Na semana passada, surgiu a informação de que as Forças Armadas do Canadá inclusive conduziram planejamento de cenários para uma possível invasão dos EUA, por mais improvável que seja.
Os aliados da América na Nato foram sacudidos do medo de abandono pelos EUA para o medo de hostilidade dos EUA, diz Steven Everts, diretor do Instituto da União Europeia para Estudos de Segurança, em Paris.
“Agora parece que estamos em um debate bastante diferente: confiamos de fato na garantia dos EUA? Esta é uma pergunta muito mais difícil porque está obrigando as pessoas a pensar o impensável, que isso não se trata de mudar o acordo de segurança entre os EUA e a Europa. Trata-se de a Europa essencialmente se ver sozinha com uma América parcialmente hostil.”
As capitais europeias têm posições muito diferentes sobre quanto, e quão rápido, elas deveriam rastejar para fora debaixo do cobertor de segurança dos EUA.
Em uma cúpula de líderes da UE na última quinta-feira para discutir as relações transatlânticas, os 27 concordaram com uma “redução sistemática de dependências dos EUA no médio e longo prazo”, segundo um funcionário da UE informado sobre a discussão privada, mas ficaram divididos sobre a abordagem correta para os três anos restantes de Trump: engajamento ou afastamento.
O Reino Unido enfrenta um dilema particularmente difícil, dadas suas estreitas relações militares e de inteligência com Washington e sua dependência dos EUA para manter sua dissuasão nuclear.
Repensar os arranjos de segurança na Europa permanece, em grande parte, um tabu em círculos oficiais por temor de provocar Trump a se afastar da Nato por completo ou de encorajar o presidente russo Vladimir Putin a explorar uma fraqueza percebida.
“Estamos no processo de criar uma Nato mais forte do que jamais vimos desde o fim da guerra fria”, tentou argumentar, em Davos na semana passada, o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, justamente quando Trump usava uma bola de demolição contra a aliança.
Até o presidente francês Emmanuel Macron, que declarou famosamente a aliança “com morte cerebral” em 2019, tem o cuidado de não questionar a importância da aliança para a defesa da Europa.
Ainda assim, se os EUA se desengajassem ou abandonassem a defesa europeia, isso levantaria desafios assustadores para os governos europeus.
“Se alguém aqui acha . . . que a União Europeia ou a Europa como um todo pode se defender sem os EUA, continue sonhando”, disse o secretário-geral da Nato, Mark Rutte, ao Parlamento Europeu na segunda-feira.
“Se você realmente quer seguir sozinho, esqueça que algum dia conseguirá chegar lá com 5% [de gasto em defesa]. Será 10%. Você precisa construir sua própria capacidade nuclear. Isso custa bilhões e bilhões de euros.”

Rutte também foi mordaz sobre as discussões do chamado pilar europeu dentro da Nato. “Um pilar europeu é um pouco uma expressão vazia”, disse ele. “Desejo-lhe boa sorte se você quiser fazer isso . . . Acho que Putin vai adorar.”
Manter os EUA envolvidos na Ucrânia tem sido a principal prioridade de líderes europeus desde o retorno de Trump ao poder há um ano, mesmo ao custo de absorver tarifas punitivas dos EUA sobre bens da UE no último verão, sem retaliação.
Se os EUA abandonassem Kyiv, isso seria um golpe pesado para o exaurido Exército ucraniano, e autoridades europeias dizem que isso apenas encorajaria Putin a perseguir seu objetivo maximalista de submeter a Ucrânia.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, demonstrou pouca confiança na capacidade da Europa de dar um passo à frente em um discurso duro na semana passada, em Davos: “A Europa adora discutir o futuro, mas evita agir hoje”, disse ele.
No entanto, os efeitos do abandono dos EUA não seriam tão críticos quanto pareciam há um ano, quando o governo Trump pausou brevemente o compartilhamento de inteligência e as entregas de armas. Outros aliados entraram com seus próprios ativos, dizem autoridades ucranianas e europeias. Macron afirmou neste mês que a França agora fornece à Ucrânia dois terços de sua inteligência. Segundo uma autoridade ocidental, a dependência da inteligência dos EUA para a Ucrânia poderia ser amplamente reduzida em questão de meses.
Embora a Ucrânia ainda precise muito de armas dos estoques dos EUA, especialmente para defesa aérea, a mudança para a guerra com drones e a rápida expansão da produção doméstica de armamentos da Ucrânia, agora respondendo por 60% de suas necessidades, reduziu sua dependência.
Mesmo em defesa aérea há alternativas: a Ucrânia deve receber neste ano o primeiro de vários novos sistemas de longo alcance Franco-Italianos SAMP/T NG, que a França afirma serem mais avançados do que o Patriot, embora ainda não tenham sido testados em combate.
Se apoiar a Ucrânia sem a América já é difícil, defender a Europa sozinha é quase impossível.
A aliança depende fortemente dos EUA para capacidades cruciais, em particular: inteligência, reconhecimento e vigilância; comunicações de combate e cloud computing; defesas aéreas; aeronaves de transporte pesado; e supressão das defesas aéreas inimigas. Membros europeus da Nato também carecem de mísseis de ataque de precisão de longo alcance em quantidade suficiente.
Eles também teriam de prescindir de uma força dos EUA de 128.000 pessoas que analistas dizem que comandantes americanos tipicamente deslocariam para uma operação da Nato contra um ataque russo.
Substituir diretamente a contribuição dos EUA custaria US$ 1 trilhão, assumindo custos de aquisição únicos e ciclo de vida de 25 anos para os equipamentos, estimou o International Institute for Strategic Studies em um relatório no ano passado. Em alguns casos, como satélites espiões, preencher a lacuna deixada pelos EUA poderia levar uma década ou mais.
Além disso, substituir a dissuasão nuclear dos EUA na Europa — seja expandindo o tamanho e o escopo das capacidades nucleares britânicas e francesas, seja desenvolvendo uma nova plataforma — é um desafio separado e adicional, de uma magnitude completamente diferente.
Para Carlo Masala, professor de política internacional na Bundeswehr University Munich, substituir integralmente os EUA é o objetivo errado.
“Não se trata de ser tão bom quanto os EUA, o que levará 15 anos ou ainda mais. Trata-se apenas de ser melhor do que os russos.”
Isso é “completamente diferente” e alcançável em três a quatro anos, acrescenta Masala.
A Nato também depende fortemente dos EUA para planejamento, comando e controle. O comandante supremo aliado, ou SACEUR [Supreme Allied Commander Europe], é sempre um oficial dos EUA, que simultaneamente está no comando das forças dos EUA na Europa.
A estrutura de comando da Nato, planos de defesa e compromissos de força fazem dela muito mais do que um pacto de defesa. Ela é, diz Masala, uma “máquina de interoperabilidade”, e não faz sentido tentar replicá-la.
Políticos europeus frequentemente falam de um pilar europeu da Nato, mas raramente dizem o que isso implica. Autoridades da Nato e analistas de defesa dizem que seria melhor imaginar uma europeização da Nato para a defesa convencional — gradualmente substituindo pessoal e ativos dos EUA. Isso também poderia, potencialmente, se alinhar com a agenda do governo Trump de transferência de encargos.
Matthew Whitaker, embaixador dos EUA na Nato, causou alvoroço em novembro quando disse que “aguardava o dia” em que um oficial alemão pudesse se tornar SACEUR. Um SACEUR americano é, na prática, o elo entre a defesa convencional e a dissuasão nuclear dos EUA, de modo que substituí-lo por um europeu, por si só, marcaria uma mudança drástica.
Mas e se os EUA saíssem dos trilhos [went rogue] ou obstruíssem a aliança? O comissário Kubilius aventou a ideia de um Exército europeu permanente de 100.000 homens, em vez de 27 forças nacionais modestas. Mas há pouco apetite nas capitais europeias para ampliar os poderes da UE em assuntos de defesa.
Macron, a voz líder da autonomia estratégica europeia, disse a uma reunião de militares franceses neste mês que a defesa europeia se apoiaria nas “escolhas soberanas de cada nação”.
Paris, em vez disso, vê a “Coalition of the Willing” [Coalizão dos Dispostos], o grupo de nações reunidas sob liderança franco-britânica para ajudar a Ucrânia e sustentar sua segurança no pós-guerra, como uma forma potencial de organizar a defesa da Europa.
Macron descreveu a coalizão neste mês como uma “verdadeira revolução em estratégia conjunta, capacidade e organização”. Ela tem o mérito de incluir países não pertencentes à UE, como o Reino Unido, a Noruega e a Turquia, que são vitais para a defesa da Europa.
Potências da Nato também poderiam operar cada vez mais por meio de subgrupos regionais, como a Joint Expeditionary Force liderada pelo Reino Unido entre países do norte, ou as nações do Ártico. Ainda assim, transferir a defesa coletiva para um grupo tão novo e informal parece um alongamento.
Seja desengajamento dos EUA, seja hostilidade dos EUA, o maior desafio de todos para os aliados europeus será manter a unidade. Já existe uma tensão crescente entre membros do norte e do leste que gastam pesadamente em sua defesa e governos com menos recursos no sul e no oeste.
A coerção de Trump sobre a Groenlândia poderia ter se tornado “tóxica” também para a UE, diz Everts, do EUISS, porque teria testado os limites da solidariedade interna. Seus membros podem ter fechado fileiras atrás da Dinamarca na semana passada. “Mas se realmente se resumir a uma escolha, Groenlândia versus Ucrânia ou Groenlândia versus o que resta da garantia do Artigo 5, vamos manter esse nível de unidade?”
Stefano Stefanini, ex-embaixador da Itália na Nato, diz que o domínio dos EUA sobre a segurança europeia por meio da Nato forneceu um dos fundamentos da integração regional ao tirar das mãos europeias questões divisivas sobre rivalidade militar.
“Você tira essa presença, e a Europa se desintegra, assim como a Nato.”
Membros da Nato mais ligados aos EUA — o Reino Unido, com sua suposta “special relationship”, ou governos mais alinhados ideologicamente a Trump, como a Itália — são os mais relutantes em abraçar a necessidade de reforma. Se a Nato ruir ou os EUA se desengajarem, eles buscarão garantias de segurança bilaterais ou investirão em segurança coletiva europeia?
Líderes europeus estão “divididos porque ainda há esperança de que possamos administrar os EUA, o que significa não gastar ainda mais em defesa do que já estamos gastando”, diz Masala. “Mas, intelectualmente falando, todos eles percebem que os tempos mudaram de forma fundamental. Se você não quer ficar entre uma potência regional agressiva, a Rússia, e uma potência global agressiva, os EUA, você precisa engrenar.”
Fonte: Financial Times
Traduzido via ChatGPT

