A fanfarronice de Donald Trump de que ele vai “administrar” a Venezuela e de que o dinheiro da venda de milhões de barris de petróleo “será controlado por mim, como Presidente” empurrou o mundo para uma nova era da geopolítica. Mas o uso do poderio militar dos EUA para tomar o petróleo venezuelano parece não tanto uma guinada para o futuro, e mais um retorno ao passado.
Por centenas de anos, o mundo foi dividido em esferas de influência quando a competição por recursos — de especiarias a ouro e de borracha a petróleo — levou à colonização de nações e à determinação de fronteiras nacionais.
É apenas no período do pós-guerra que o direito internacional e as regras do comércio global exerceram uma influência tênue. Agora essa ordem parece estar se desfazendo e revertendo a uma era anterior caracterizada pelo imperialismo de recursos.
“De repente, o século 19 e o período anterior às duas guerras mundiais começam a ecoar muito mais alto à medida que o mundo se afasta da confiança na globalização, em fronteiras abertas e em um comércio relativamente livre”, diz Daniel Yergin, historiador de energia e vice-chair da S&P Global.
“Saímos da era [em que] havia uma confiança fundamental de que os mercados funcionariam razoavelmente bem e agora estamos em uma em que a mão visível dos governos é, eu diria, muito mais visível.”
A natureza extrema da ação americana, incluindo o extraordinário sequestro do líder da Venezuela, Nicolás Maduro, tem poucos precedentes recentes. Mas ela chamou a atenção do mundo para duas mudanças subjacentes distintas, porém sobrepostas, na política externa americana.
A primeira é em grande parte provocada pela versão chinesa de capitalismo de Estado, em particular seu sucesso em construir um quase monopólio sobre as terras raras exigidas pelas indústrias de semicondutores e de defesa e uma posição dominante em minerais, como cobalto e níquel, necessários para a transição energética.
Em resposta, Trump busca expandir a política industrial dos EUA no exterior para assegurar o acesso americano à energia e aos minerais necessários para mover sua economia, abastecer sua indústria de defesa e alimentar a AI.
O reconhecimento, que foi amadurecendo lentamente em Washington, da busca obstinada da China por minerais estratégicos recebeu o que Yergin chama de “um verdadeiro choque elétrico” em abril passado, quando Pequim, em resposta às tarifas de “liberation day” de Trump, estabeleceu restrições à exportação das terras raras.
“O pensamento antigo sobre o que eu chamo de ‘globalização fácil’ está cada vez mais fora de cena”, diz Yergin. “Países e governos, incluindo os Estados Unidos, estão se concentrando muito mais em resiliência, vulnerabilidade e controle.”
A segunda mudança de política é a reafirmação, por Trump, da Doutrina Monroe de 1823 — agora, em tom de brincadeira, apelidada de “Doutrina Donroe” — que originalmente foi um aviso à Europa para ficar fora do “quintal” latino-americano de Washington. A estratégia de segurança nacional dos EUA de 2025 invocou a doutrina, acrescentando o que chamou de “Corolário Trump”, que vincula a influência dos EUA sobre o hemisfério ocidental ao controle de seus recursos naturais.

O hemisfério, diz a estratégia, deveria permanecer “livre de incursão hostil estrangeira ou de propriedade de ativos-chave”. Remetendo a Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos EUA e um forte protecionista, o documento prossegue: “Os EUA jamais devem depender de qualquer potência externa para componentes centrais — de matérias-primas a peças e a produtos acabados — necessários à defesa ou à economia da nação.”
Se comentários recentes de Trump e seus assessores servirem de indicação, a definição de hemisfério ocidental está se expandindo. Trump ameaçou tomar a Groenlândia, um gigantesco território ártico controlado pela Dinamarca, pela força se necessário. Além de ser estrategicamente importante, especialmente à medida que o aquecimento abre rotas marítimas no Ártico, o território autônomo tem depósitos promissores de alguns dos minerais e terras raras de que os EUA precisam.
Daniel Drezner, distinguished professor de política internacional na Fletcher School da Tufts University, diz que uma norma que foi preservada até a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 era “a ideia de que você não podia mudar fronteiras por meio do uso da força”.
Essa norma às vezes foi respeitada apenas nominalmente, e críticos frequentemente apontaram o que descreveram como a hipocrisia da ordem liberal baseada em regras, como quando os EUA lideraram a invasão do Iraque em 2003. “Houve exceções, mas agora estamos no ponto em que as exceções estão sobrepujando a regra.”
Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, ao defender a ação militar dos EUA na Venezuela, vinculou explicitamente a ideia de controle territorial ao domínio sobre recursos. “O que não vamos permitir é que a indústria de petróleo na Venezuela seja controlada por adversários dos Estados Unidos”, disse ele. “Por que a China precisa do petróleo deles? Por que a Rússia precisa do petróleo deles? Por que o Irã precisa do petróleo deles? . . . Este é o hemisfério ocidental. É aqui que nós vivemos.”
Por mais que se fale do século 19, os paralelos imediatos mais próximos à ação de Trump na Venezuela podem ser o Irã em 1953 e a Guatemala em 1954. No primeiro, a CIA, junto com o MI6 britânico, orquestrou um golpe para derrubar Mohammad Mosaddegh, o primeiro-ministro, que havia ousado nacionalizar interesses petrolíferos britânicos. Na Guatemala, a CIA apoiou outro golpe para remover Jacobo Árbenz, o presidente, depois que seu governo nacionalizou terras pertencentes à United Fruit Company, de propriedade americana.
O uso de força militar dos EUA para defender interesses comerciais americanos na Venezuela remete a essas intervenções, embora, diferentemente de Mosaddegh e Árbenz, Maduro não tenha sido legitimamente eleito. Trump apresentou explicitamente as ações de Washington como retaliação pela tomada de interesses petrolíferos dos EUA sob Hugo Chávez, antecessor de Maduro, que em 2007 expandiu o controle estatal sobre campos de petróleo operados pela ConocoPhillips e pela ExxonMobil.
“Vamos tirar do subsolo uma quantidade tremenda de riqueza”, disse Trump em uma coletiva de imprensa em Mar-a-Lago pouco depois da operação. “Eles tomaram todos os nossos direitos de energia; tomaram todo o nosso petróleo . . . E nós queremos isso de volta.”
Tendo obtido algum controle sobre o petróleo da Venezuela, ainda não está claro exatamente o que Trump pretende fazer com ele. Ele incentivou as grandes petrolíferas dos EUA a investir “bilhões” no país, que produz o tipo de petróleo pesado para o qual algumas refinarias americanas foram projetadas.
Mas o setor de petróleo da Venezuela, que produzia quase 3,5mn de barris por dia em seu auge no fim dos anos 1990, é uma sombra do que já foi, com a produção despencando para cerca de 800.000 barris agora. Grande parte da infraestrutura está em estado chocante de deterioração.
Analistas dizem que pode levar pelo menos cinco anos de investimentos massivos para fazer com que quantidades substanciais de petróleo voltem a fluir. Nem o petróleo venezuelano, grande parte dele de areias betuminosas extra-pesadas, é tão barato de extrair quanto o da vizinha Guiana, onde empresas dos EUA ajudaram a elevar a produção para quase 1mn b/d no fim do ano passado.
“Minha avaliação direta sobre a Venezuela é que Marco Rubio queria Maduro fora e usou o petróleo como pretexto”, diz Drezner, da Fletcher School. “Eu não duvido de que Donald Trump acha que é tudo sobre petróleo, mas ele está errado.”
Stephanie Junger-Moat, chief executive da Karcsi Global, uma consultoria corporativa com foco na América Latina, também é cética de que as manobras de Trump na Venezuela sejam todas sobre petróleo. “O petróleo pode ter sido um bônus, o narcoterrorismo pode ter sido a justificativa, mas isso foi sobre poder americano e muito pouco mais”, diz ela.
Ainda assim, a competição com a China por recursos no “quintal” americano só ficará mais feroz, ela prevê. Empresas chinesas têm interesses extensos tanto em petróleo quanto em mineração na América Latina. Elas investiram no “Triângulo do Lítio” de Argentina, Chile e Bolívia para abastecer sua indústria de baterias e têm participações significativas no cobre chileno e no minério de ferro peruano.
Junger-Moat diz que a competição poderia se intensificar se Trump se mover para exercer mais controle sobre o Canal do Panamá, que lida com 5 por cento do comércio marítimo, e pressionar países latino-americanos a limitar comércio e investimento chineses. “Os perdedores claros no curto prazo seriam os países presos no meio disso, que são ricos em recursos mas com pouco poder de negociação”, diz ela.
Não é apenas na América Latina que a busca musculosa de recursos por Washington está sendo sentida. Em abril passado, o governo Trump assinou um acordo com a Ucrânia para estabelecer um fundo de reconstrução que receberia 50 por cento dos royalties [pagamentos de royalties] de novos projetos de minerais e petróleo. A ideia é que, em vez de garantias de segurança, Washington seria incentivada por interesses comerciais a proteger a Ucrânia de futura agressão russa.
A República Democrática do Congo também concordou em dezembro em dar às empresas dos EUA acesso preferencial a minerais em troca da ajuda de Washington para intermediar um frágil acordo de paz com Ruanda. Como parte do acordo, o governo dos EUA e a trader suíça Mercuria comprometeram até $1bn cada em novo financiamento para empreendimentos minerais no país, que tem pelo menos metade das reservas de cobalto do mundo e é o maior produtor de cobre depois do Chile.
Peter Pham, que foi o enviado especial de Trump para a região dos Grandes Lagos da África, diz que a ideia é que uma parte dos minerais congoleses seja retirada da cadeia de suprimentos chinesa. Empresas privadas precisam desse respaldo de Washington, diz ele, quando estão competindo de igual para igual com rivais da China ou de Estados do Golfo com bolsos profundos, que podem pensar no longo prazo e operar no prejuízo se necessário. “Nós nem sempre estamos no mundo perfeito de Adam Smith”, diz ele.
A África tem grandes reservas dos metais necessários para a transição energética, incluindo cobalto, cobre, níquel, lítio e fosfatos. Nicolas Niarchos, que escreveu um livro, The Elements of Power, sobre o que ele chama de “guerras das baterias”, diz que a China deu voltas ao redor dos EUA na obtenção de recursos. “Assim como com o petróleo, a energia das baterias tem se tornado cada vez mais poder político”, escreve ele. Niarchos argumenta que, enquanto a China está apostando em nova tecnologia de rápida evolução, os EUA continuaram a apostar demais no passado.
Parag Khanna, estrategista e fundador da consultoria AlphaGeo, diz que os EUA estão reagindo ao empoderar organizações como o Exim Bank, uma agência de crédito à exportação, e a International Development Finance Corporation, que foi criada no primeiro governo Trump, para ajudar a financiar investimentos estratégicos de longo prazo. A IDFC busca triplicar sua capacidade de financiamento para $205bn, especificamente para reforçar suas atividades em minerais críticos.
“O governo dos EUA está agindo como uma instituição financeira flexível com uma intenção estratégica. E isso é muito legítimo e perfeitamente racional”, diz Khanna. “E, francamente, é apenas uma forma evoluída das políticas industriais que governos europeus, Japão e China vêm fazendo há décadas.”
Uma forma de ver o novo impulso, dizem analistas, é como uma resposta à Belt and Road Initiative da China, por meio da qual Pequim canalizou empréstimos para dezenas de países para projetos de infraestrutura, que frequentemente são um conduto para enviar commodities de volta para casa.
Ricardo de Oliveira, professor de ciência política na Sciences Po em Paris, que está pesquisando a disputa por minerais críticos na África, diz que pode haver desvantagens para empresas por estarem alinhadas demais com o governo dos EUA. Mas também há grandes benefícios. “As empresas podem seguir adiante sabendo que o governo dos EUA está do lado delas, que eles realmente enviarão as canhoneiras se seus investimentos forem mexidos”, diz ele. “Os EUA estão passando de um policial hipócrita e ambíguo do mecanismo de mercado para um agente geopolítico particularmente predatório e inflexível.”
O governo Trump está apoiando com cautela um plano da era Biden para ajudar a financiar o chamado Corredor do Lobito, que facilitaria o transporte de cobre, cobalto e outros minerais da Zâmbia e da RD Congo para a costa atlântica em Angola.
Algumas empresas estão construindo teses de investimento especificamente em torno de novos imperativos em Washington para assegurar minerais. A Ivanhoe Atlantic, uma empresa americana, apresentou seu projeto de $1.8bn para transportar minério de ferro de alto teor da Guiné via Libéria ao longo de um chamado “Corredor da Liberdade” como um meio de “ajudar a contrapor o aperto do controle da China sobre minerais críticos”.
Para as empresas, a nova doutrina da Casa Branca não é isenta de riscos. Jakob Stausholm, ex-executivo de alto escalão na Rio Tinto e na Maersk e agora fellow na Blavatnik School of Government da University of Oxford, diz que o papel dos chief executives está mudando à medida que a geopolítica se torna mais urgente. “Líderes empresariais precisam abordar as coisas de forma diferente agora”, diz ele.
Tanto para mineração quanto para óleo e gás, o tempo muito longo que leva para desenvolver novos projetos — uma mina típica tem vida útil de 30 anos — significa que empresas de recursos precisam construir alianças com governos anfitriões mesmo enquanto governos em seus países de origem vêm e vão.
“A questão é, isso é um soluço [episódio pontual], ou uma tendência de longo prazo?”, diz Stausholm, sugerindo que a política dos EUA poderia mudar de novo na era pós-Trump. “Nós não somos políticos, estamos aqui para trabalhar para a empresa.”
Oliveira, da Sciences Po, também duvida da permanência da nova política. “Não é apenas a arte do acordo, mas é sobre construir alianças de longo prazo”, diz ele.
Especialistas dizem que nem sempre é fácil, na prática, separar cadeias de suprimento, garantindo que, por exemplo, o petróleo venezuelano vá para os EUA ou que o cobalto produzido por uma empresa americana não acabe em uma refinaria chinesa. Mercados de commodities, assim como dinheiro, são fungíveis.
Tampouco, em uma era de capital global, a nacionalidade de uma empresa é sempre clara. A Ivanhoe Mines, uma empresa de mineração canadense que é a principal proprietária da gigantesca mina de cobre Kamoa-Kakula na RD Congo, tem cerca de 30 por cento de participação chinesa.
Khanna, da AlphaGeo, diz que os projetos rivais de infraestrutura que China e EUA têm na África podem acabar sendo mais sinérgicos do que competitivos.
Outros executivos são mais positivos, dizendo que a política externa dos EUA acordou para as grandes mudanças em tecnologia que tornaram minerais usados em semicondutores ou defesa tão estrategicamente importantes. “Políticos estão começando a entender como o mundo funciona”, diz Mark Cutifani, ex-chief executive da Anglo American.
Na estratégia de segurança nacional do ano passado, o governo Trump sinalizou que estava dando por encerradas o que disse serem “apostas enormemente equivocadas e destrutivas no globalismo e no chamado ‘livre comércio’.”
Yergin, o historiador, diz que o mercado sempre terá um papel em determinar para onde vão os investimentos. Mas algo mudou, acrescenta ele. “O governo dos EUA pretende ser muito mais musculoso em termos de minerais ao redor do mundo”, diz ele. “Cadeias de suprimento costumavam ser apenas sobre eficiência. Agora elas são muito mais sobre política e segurança.”
Reportagem adicional de Malcolm Moore em Londres
Fonte: Financial Times
Traduzido via ChatGPT
