Ao cenário de alta de juros e à reprecificação de commodities que pressiona o agronegócio, agora somam-se os efeitos de um conflito externo prolongado entre Estados Unidos/Israel e Irã e os impactos ainda incertos de um fenômeno natural de grandes proporções: o El Niño.
Inicialmente, previa-se um conflito mais curto e com impactos mais leves, mas a extensão da guerra têm gerado efeitos sob toda a cadeia do agro, causando a alta de fertilizantes, custos de logística, frete e energia. O ambiente já é de dificuldade, considerando os juros a 14,50% e a grande quantidade de pedidos de recuperação judicial de produtores rurais.
Ricardo Jacomassi, sócio e economista-chefe da TCP Partners, pontua que ouve de fabricantes de máquinas agrícolas, fornecedores de matérias-primas para o setor e o próprio produtor, na ponta final, que a dificuldade de crédito, a oferta de dinheiro e os riscos de inadimplência têm deixado o setor na defensiva. Isso, somado ao aumento de custos de produção gerado pelo cenário externo, margens de comercialização em queda e agora o temor sob o impacto do El Niño geram ainda mais pressão no segmento.
“O panorama é de muito desafio para o agronegócio. E os credores, de uma maneira geral, porque sei que o veículo tem uma penetração muito forte no mercado financeiro, no fim do dia, vai ficar muito na defensiva, receoso, em fomentar o setor por conta desse cenário, que, na nossa visão, vai se estender até o próximo ano safra. Ou seja, daqui a um ano, um ano e meio, os efeitos vão continuar também impactando o poder do negócio da cadeia”, diz.
A análise é de que o Brasil dificilmente terá um problema generalizado de produção, devido à resiliência e escala do agronegócio, mas a safra pode nascer mais cara, com menor espaço para erro e maior necessidade de gestão financeira.
“O risco não é apenas produzir menos, é produzir com capital mais caro e margem mais sensível a qualquer oscilação. Nesse ambiente, a qualidade da estrutura financeira por trás das operações ganha mais relevância, porque fundos ligados ao agro dependem de lastro bem monitorado, governança e controle permanente dos riscos”, afirma Edgar Araujo, CEO da Azumi Investimentos.
Cerco sobre os Fiagros
Do fim de 2025 para cá, o tamanho dos problemas nas carteiras dos fiagros oscilou, mas se manteve mais baixo. Em novembro, havia R$ 1,16 bilhão de ativos inadimplentes no agro, representando 2,9% do total investido pela indústria. Em dezembro, esse número passou para R$ 2,97 bilhões, 9,7% do total investido, atingindo R$ 3,90 bilhões (11,6%). Até abril, esse número era de R$ 1,44 bilhão, 2,8% do total investido, segundo a Uqbar.
Quando os custos de produção aumentam, as margens dos produtores tendem a diminuir, elevando a necessidade de capital de giro e aumentando a dependência de crédito. Com os juros em patamar restritivo, o custo do endividamento fica mais alto, reduzindo a capacidade financeira de algumas empresas e produtores.
“Isso exige ainda mais atenção dos gestores de Fiagros, principalmente na análise de crédito, garantias, diversificação e qualidade dos ativos que compõem as carteiras. Os fundos mais bem estruturados tendem a atravessar esse período com maior resiliência, enquanto operações mais alavancadas podem sentir os efeitos de forma mais significativa”, comenta Gustavo Assis, CEO da Asset.
A tendência é que a indústria de Fiagros fique ainda mais criteriosa e até procure se distanciar da tese de grãos, olhando o mercado da proteína como uma alternativa. Fundos que trabalham na cadeia de campos, soja, com mais exposição a produtores rurais podem sofrer no quesito necessidade de rolagem de vencimento, postergar pagamentos de juros e amortização.
“Vejo impacto nesses fundos que têm exposição direta à produção rural, tirando quem tem exposição a grandes grupos, por exemplo, uma SLC da Vida, acho que não vai sofrer”, opina Carlos Fernandes, gestor de Agronegócios da Capitânia.
A própria Capitânia, que tinha exposição a revendas e teve duas grandes perdas para os fundos: AgroGalaxy e Lavoro, esse último presente em menor quantidade de produtosAgora, acredita que os Fiagros devem sofrer um pouco no resultado, devido a renegociações com produtores com baixas margens.
“Mas os fundos de 2023, 2024 para agora, diminuíram essas exposições em revendas. São poucos fundos que tem grandes exposições em revendas. acho que se tiver algum impacto, ele vai ser menor ali do que a gente viu em anos anteriores”, avalia.
Para o executivo da Capitânia, que não sofreu com default ou inadimplência, o cenário de produtores em inadimplência, em RJ ou postergando pagando de CRA em Fiagros deve seguir até ano que vem, mas analisa que, diferentemente dos casos AgroGalaxy e Lavoro, essas operações têm garantias fiduciárias.
“Na maior parte dos casos, com garantias bem constituídas e com devedores que estão a fim de negociar. Não são aqueles provedores que se aproveitaram dessa onda de RJ no agro e tentaram renegociar, diminuir o passivo da dívida a qualquer custo”, diz.
As cotas dos Fiagros vinham em movimento de recuperação no último ano, mas voltaram a sofrer oscilação. Para a Capitânia, uma recuperação para os fundos listados, de maneira geral passarem, sobre o ágio em relação a cota vai demorar.
Para Assis, da Asset, a melhora mais consistente para os Fiagros deve ocorrer quando houver maior previsibilidade sobre a trajetória dos juros e redução das incertezas fiscais e externas. A leitura da Azumi é similar: a melhora do ciclo deve depender menos de um gatilho isolado e mais da combinação entre queda mais visível dos juros, acomodação dos custos de insumos e redução da incerteza geopolítica.
Há ainda um pessimismo geral sobre os efeitos do El Niño, fenômeno climático de aquecimento anormal do Oceano Pacífico. No entanto, ainda não há certeza sobre a intensidade do evento e sobre as regiões a serem afetadas.
Fonte: Capital Aberto