Por Colby Smith — Financial Times, de Washington
08/09/2022 05h03 Atualizado há 5 horas
Um alto integrante do Federal Reserve (Fed) disse que é preciso elevar os juros a um patamar que restrinja a atividade econômica e mantê-los nesse nível até as autoridades monetárias estarem “convencidas” de que a atual inflação desenfreada começa a diminuir.
Em entrevista ao “Financial Times”, o presidente do Fed regional de Richmond, Thomas Barkin, disse que o banco central já reorientou sua política monetária para um quadro muito mais contracionista, com o objetivo de domar as piores pressões de alta nos preços em cerca de 40 anos. Mesmo assim, para voltar ao cenário de estabilidade de preços, disse que o Fed precisaria apertar ainda mais a política, até as taxas reais ficarem acima de zero.
“Você precisa, de fato, passar a um nível em que as expectativas inflacionárias recuem de forma a que restrinjam a economia o suficiente para derrubar a inflação”, disse Barkin. “O ponto de chegada são taxas reais em terreno positivo e minha intenção seria mantê-las ali até o momento em que realmente estejamos convencidos de que colocamos a inflação para dormir”, afirmou.
Recentemente, colegas de Barkin, como John Williams, do Fed de Nova York, indicaram que os juros provavelmente precisariam subir acima de 3,5% e permanecer nessa faixa em 2023. Esses patamares “não me surpreenderiam de forma alguma”, disse Barkin, destacando ser favorável a usar expectativas inflacionárias de curto prazo para calcular o que constituiria uma taxa de juros real positiva.
Barkin falou sobre qual deveria ser a velocidade do Fed para atingir esse território. “Tenho uma inclinação, em geral, por andar mais rápido do que mais devagar, desde que você não quebre nada sem querer ao longo do caminho.”
Os comentários de Barkin chegam no momento em que as autoridades do Fed definem como será a próxima fase de seu ciclo histórico de aperto monetário, que avança no ritmo mais agressivo desde 1981. O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) precisa decidir se promoverá um terceiro aumento consecutivo de 0,75 ponto percentual nos juros em sua reunião no fim de setembro ou se desacelerará o ritmo, para elevações de 0,50 ponto.
Barkin, que será membro com direito a voto no Fomc em 2024, disse ainda não ter decidido o tamanho do próximo aumento que defenderá nas discussões, mas enfatizou a resiliência da economia dos EUA e que há mais trabalho a ser feito para esfriá-la.
“A economia ainda está avançando [e] seu ímpeto não foi interrompido”, disse, observando que o mercado de trabalho ainda está “muito apertado” no que se refere à disponibilidade de mão de obra. Mais de 300 mil vagas foram criadas em agosto em termos líquidos, enquanto o mercado de trabalho, em notícia bem-recebida, cresceu em tamanho. Como mais pessoas procuraram emprego, mas ainda precisam conseguir vagas, a taxa de desemprego aumentou 0,2 ponto percentual, para 3,7% – ainda uma das menores na história.
Barkin, assim como outras autoridades do Fed, aguarda o próximo relatório de inflação, que deve ser divulgado na semana que vem, quando o banco central entre em um período oficial de silêncio e pronunciamentos públicos ficam limitados. As pressões de alta dos preços diminuíram um pouco em julho, já que houve declínio nos preços das fontes de energia, que haviam disparado em decorrência da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Embora a taxa de inflação anual tenha recuado um pouco, para 8,5%, o núcleo da inflação, que não leva em conta itens mais voláteis como a energia e alimentos, mostrou poucos sinais de recuo.
Em um discurso amplamente acompanhado no fim de agosto, em Jackson Hole, o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que o banco central “deve continuar trabalhando” até restaurar a estabilidade de preços.
“O que você faz é elevar e avaliar, elevar e avaliar”, disse, citando as lições aprendidas na década de 1970, quando o banco central afrouxou a política monetária de forma prematura, antes de ter derrotado totalmente a inflação.
Mas, uma vez que os juros tenham ultrapassado o terreno “neutro”, o patamar em que não estimulam nem restringem o crescimento, Barkin disse que seria “completamente apropriado” considerar os riscos que um exagero no aperto monetário pode trazer.
Da mesma forma que Powell – que advertiu em agosto que domar a inflação provavelmente exigirá “algum sofrimento” das famílias e empresas, diante das previsões de um período de crescimento mais lento e de perdas no mercado de trabalho -, Barkin alertou para os custos que esse processo trará.
Um alívio nos problemas sofridos nas cadeias de suprimentos pelo mundo ou um influxo de novos trabalhadores na força de trabalho poderia ajudar a reduzir a escala em que o Fed precisará conter a demanda, o que significaria uma contração econômica mais branda do que a prevista.
“A palavra recessão não precisa significar um declínio calamitoso da atividade”, disse Barkin. “A palavra recessão pode significar um reequilíbrio para fazer a economia voltar ao normal.”
Fonte: Valor Econômico