As autoridades do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, estão se preparando para seguir com a interrupção da histórica campanha de aumento das taxas de juros neste mês de dezembro, pela terceira reunião seguida. Mas isso não significa que elas já estão preparadas para discutir cortes nas taxas.
Desde julho, a taxa dos “Fed funds” se mantém estável na faixa de 5,25% a 5,5%, o mais alto patamar em 22 anos, nível que as autoridades descreveram como “restritivo” para as famílias e as empresas, à medida que o banco central tenta conter a demanda na maior economia do mundo.
Mas as autoridades se deparam com duas questões cruciais: se as taxas de juros estão agora suficientemente altas para reduzir a inflação para a meta de 2% do Fed e por quanto tempo elas deverão permanecer em um nível “suficientemente restritivo”.
Essas questões permanecerão sem resposta quando o Comitê de Mercado Aberto (Fomc) se reunir na metade de dezembro para a última reunião de 2023. As autoridades do Fed deverão deixar aberta a possibilidade de um maior aperto, mantendo ao mesmo tempo possíveis cortes à distância, mesmo com os sinais econômicos sugerindo cada vez mais que a discussão dentro do Fed começará a avançar nessa direção.
A hesitação em declarar oficialmente o fim da fase de aumento dos juros na luta contra a inflação e abordar mais diretamente os parâmetros para os cortes das taxas decorre em parte das preocupações de que, ao fazer isso, o banco central poderia desencadear uma onda de condições financeiras mais frouxas, o que minaria seus esforços para conter as pressões sobre os preços.
Em um sinal de alerta, os mercados de ações dos EUA subiram bastante nas últimas semanas, com a queda das taxas de juros de longo prazo – algo que Christopher Waller, um presidente regional do Fed, disse na terça-feira servir de lembrete de que “as autoridades precisam ter cuidado ao confiar em tal aperto para fazer o nosso trabalho”.
A alta ganhou mais força esta semana depois que Waller disse estar “cada vez mais confiante” de que a política monetária está no caminho certo para atingir os objetivos do Fed e sugeriu que os juros poderão cair se a inflação diminuir “por vários meses mais”.
Agora, os investidores nos mercados futuros estão apostando que o primeiro corte ocorrerá em maio e que a taxa oscilará em torno de 4% até o fim do ano, cerca de 1 ponto percentual abaixo do nível atual.
As autoridades também estão incertas quanto à rapidez com que a inflação irá arrefecer e se a recente série de dados melhores que o esperado se mostrará passageira – como foi o caso em 2021 – ou se o aumento dos preços ao consumidor irão se estabilizar em um nível inaceitavelmente elevado.
Thomas Barkin, presidente do Fed de Richmond, alertou na quarta-feira que se a inflação parecer que “vai aumentar novamente, acho bom ter a opção de fazer mais com as taxas”. Jerome Powell, presidente do Fed, também pareceu cauteloso em novembro, temendo ser “enganado” por notícias positivas sobre a inflação, ao manter a porta aberta para um maior aperto na política monetária. “Eu ficaria muito surpreso se em breve ouvíssemos comentários de alguém como o presidente ou outros de que ‘terminamos’”, disse Charles Evans, que se aposentou do Fed em janeiro, após atuar por 15 anos como presidente do Fed de Chicago.
John Roberts, que trabalhou 35 anos no Fed até sua saída em 2021, acrescentou: “Definitivamente não é hora de cantar vitória”.
Mesmo assim, as autoridades não conseguem negar que os dados começam a sugerir que elas podem ter feito o suficiente para conter a economia. Os gastos do consumidor começaram a diminuir, juntamente com a atividade empresarial nos setores da indústria transformadora e serviços. A demanda por mão de obra também diminuiu, sem causar fissuras no mercado de trabalho.
Talvez o sinal mais encorajador tenha vindo do índice de preços ao consumidor em outubro, que mostrou que a inflação anual recuou a 3,2% – mais do que o esperado por analistas -, com a desaceleração dos custos.
Para os cortes nas taxas de juros serem considerados, as autoridades precisam estar confiantes de que a inflação recua de forma sustentável para os 2%. Powell disse este mês que as autoridades não estão pensando em tal ação política “neste momento”.
Mas ele já havia oferecido pistas sobre o pensamento do Fed. Powell sinalizou em setembro que os cortes nos juros poderiam ser justificados à medida que a inflação fosse caindo, para que as definições de política do banco central não se tornassem mais proibitivas. Tal ajuste poderia se assemelhar a uma série de cortes implementados pelo Fed em três reuniões em 2019 – que chamou de um “ajuste de meio de ciclo” -, voltados para amenizar os riscos à economia.
No mínimo, o Fed precisará ver vários relatórios sobre a inflação que reflitam uma tendência de queda, conforme indicado pelo relatório do índice de preços ao consumidor em outubro.
Para Roberts, hoje um consultor sênior da Evercore ISI, um limiar “à prova de finta” seria o núcleo da inflação, conforme medido pelo índice de preços de gastos pessoais de consumo (PCE), atingir um ritmo de 2,5% em seis meses, com o os aumentos salariais também diminuindo.
Em outubro, o núcleo do PCE mantinha um ritmo anual de 3,5%, após um aumento mensal nos preços de 0,2%, segundo mostram dados divulgados nesta quinta-feira. “Não é inconcebível que até a metade do ano a inflação possa ter caído para o ponto em que o Fed gostaria de cortar [os juros]”, disse Roberts.
Uma queda súbita e acentuada da atividade também poderia influenciar a postura de Fed, embora funcionários e autoridades do banco não estejam esperando isso.
Segundo previsões individuais divulgadas em setembro, as autoridades preveem cortes de apenas 0,5 ponto percentual no ano que vem, com o núcleo da inflação esfriando para 2,6%, um crescimento menor de 1,5% e uma taxa de desemprego ligeiramente maior de 4,1%. Essas estimativas serão atualizadas agora em dezembro.
Economistas do Deutsche Bank preveem no momento que o Fed começará a reduzir os juros em junho, com um corte total de 1,75 ponto percentual até o fim do ano, à medida que a economia mergulhar em uma recessão “branda” no primeiro semestre de 2024. O UBS acredita que a economia dos EUA crescerá cerca de 0,3% no ano que vem e prevê que os cortes nos juros começarão em março.
Evans diz: “Se a economia enfraquecer, agora que a inflação caiu eles têm a capacidade de reposicionar a taxa básica para menos e ela ainda assim ser restritiva nesse cenário. Acho que eles terão mais opções de política se entrarem nessa situação, do que se a inflação estivesse mais próxima de 4% e eles não tivessem certeza de que ela estaria caindo”.
Fonte: Valor Econômico

