Powell demonstrou estar preocupado com os riscos para a inflação nos Estados Unidos e sinalizou que o banco central americano parece confortável com o atual nível da política monetária. “Consideramos importante manter a política monetária moderadamente restritiva, ou próxima disso”, afirmou. Ele citou que as expectativas de inflação no curto prazo subiram e os membros do comitê vão “monitorar isso com muito cuidado”.
O presidente do Fed também enfatizou que ainda não é possível saber ao certo os efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio, mas reconheceu os riscos. “Há, sim, a preocupação de que já se passaram cinco anos com inflação acima da meta, tivemos o choque das tarifas, a pandemia e agora um choque de energia, cuja magnitude e duração ainda desconhecemos”, ele declarou. “Isso é algo que pode gerar problemas para as expectativas de inflação. Portanto, nos preocupamos bastante com isso.”
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O Sumário de Projeções Econômicas (SEP), que reúne as projeções dos dirigentes para a economia americana, mostrou o comitê de política monetária dividido entre não realizar mais nenhum corte de juros em 2026 e apenas uma redução, além de projeções mais altas para a inflação neste ano e em 2027.
As declarações de Powell foram interpretadas como “hawkish” (duras) pelos participantes do mercado, o que levou a um estresse nos ativos locais. Em Nova York, as bolsas estenderam as perdas vistas mais cedo e, no fechamento, o índice Dow Jones teve queda de 1,63%, aos 46.225,15 pontos, o S&P 500 recuou 1,36%, aos 6.624,70 pontos, e o Nasdaq caiu 1,46%, aos 22.152,421 pontos. Todos os setores da bolsa terminaram o dia no negativo.
Os economistas do Bank of America (BofA), liderados por Aditya Bhave, afirmam que Powell adotou um tom mais “hawkish” na coletiva de imprensa, dando mais destaque aos riscos de alta para a inflação do que os de baixa para o mercado de trabalho. “Na entrevista, Powell discutiu longamente o estouro da inflação acima da meta e os riscos altistas para as expectativas de inflação. Ele também reconheceu a importância de a inflação ter ficado acima da meta nos últimos cinco anos”, afirmam em relatório, acrescentando que o presidente do Fed também dedicou pouco tempo aos riscos negativos para o mandato de emprego. “Isso levou a uma interpretação ‘hawkish’ de seus comentários, embora ele tenha enfatizado bastante o alto grau de incerteza sobre o impacto da guerra com o Irã.”
No cenário local, o Ibovespa também perdeu fôlego durante a entrevista, terminando o dia em baixa de 0,43%, aos 179.640 pontos, perto da mínima intradiária de 179.576 pontos. “Foi uma das coletivas em que o Powell foi mais ‘hawk’ [conservador]. Primeiro, ele falou que a inflação não está melhorando como eles esperavam. Depois, ele disse que não descarta não ter corte de juros e até uma alta, dependendo do que acontecer. Ele falou também que é muito cedo ainda para avaliar se os efeitos da guerra no Oriente Médio serão passageiros, ou se é algo para o ano inteiro”, avalia o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz.
Depois de duas sessões de enfraquecimento global do dólar e maior apetite por risco, a moeda americana recuperou parte do terreno, com um movimento que começou gradual e se intensificou durante a coletiva de Powell. Perto do fechamento do pregão, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis divisas de mercados desenvolvidos, avançava 0,64%, aos 100,219 pontos. O real até rondou a estabilidade em relação ao dólar durante boa parte do dia, mas a resiliência da moeda brasileira foi se desfazendo conforme o dólar ganhava força no exterior. Encerradas as negociações, o dólar comercial teve valorização de 0,90%, cotado a R$ 5,2457.
No mercado de juros, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,155% no ajuste anterior para 14,20%; e a do DI para janeiro de 2028 avançou de 13,67% para 13,75%. Já entre os vértices intermediários e longos, a taxa do contrato para janeiro de 2029 passou de 13,65% para 13,755%; e a do DI para janeiro de 2031 avançou de 13,795% para 13,895%. No fim da sessão, nos EUA, os rendimentos dos Treasuries com vencimento em dois anos subiam para 3,792%, de 3,684% no fechamento anterior, e os rendimentos dos Treasuries com vencimento em 10 anos avançavam para 4,265%, ante 4,203% na última sessão
Apesar da reação dos ativos, a percepção de que Powell foi “hawkish” não foi consenso entre os participantes do mercado. O sócio-fundador e chefe de pesquisa da Jubarte Capital, Benjamin Mandel, disse ter se surpreendido com a reação dos investidores. “O comportamento de Powell nos últimos anos mostrou bem mais sensibilidade no lado de crescimento em relação ao lado da inflação, então acho que, ao longo do tempo, isso deve gerar mais reação do comitê”, afirmou. “Powell tem um viés mais ‘dovish’, de proteger a economia real, a atividade e o mercado de trabalho do que do lado de inflação.”
Na mesma linha, Andrew Hollenhorst, economista-chefe do Citi para Estados Unidos, acredita que as projeções do banco central americano ainda apontam para uma direção “dovish”, na medida em que a mediana das estimativas para inflação e crescimento econômico subiram, mas boa parte do comitê ainda vê espaço para cortes de juros. “Continuamos projetando um total de 0,75 ponto percentual de cortes neste ano”.
O movimento de estresse nos mercados locais e americanos se intensificaram próximo ao final da sessão, em meio a notícias de ataques a infraestruturas importantes de energia no Oriente Médio, o que impulsionou os preços do petróleo no pós-mercado de Nova York. As bolsas de Nova York e o Ibovespa ampliaram as perdas de maneira significativa, enquanto os DIs, os rendimentos dos Treasuries e o dólar estenderam a valorização. O petróleo tipo Brent (referência mundial) chegou a superar o nível de US$ 110 por barril.
Fonte: Valor Econômico
