No comunicado, o Fed afirmou que o banco continuará a monitorar dados econômicos e seus impactos na política monetária para determinar o que pode ser apropriado para trazer de volta a inflação para 2% ao longo do tempo. A justificativa da alta foi a inflação elevada, principalmente seu núcleo, e o mercado de trabalho resiliente, embora os índices de preços estejam dando sinais de arrefecimento.
O comunicado também destacou o aperto que está sendo registrado nas condições de crédito, que deve afetar a economia embora a extensão desse impacto ainda seja incerta. “O comitê levará em conta o efeito retardado da política monetária para as próximas decisões”, diz o Fed.
Na coletiva, ao ser questionado sobre a possibilidade de novas altas, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que elas não estão descartadas mas que não existe decisão tomada, reiterando a dependência de dados para se decidir “reunião a reunião”. Segundo ele, os dados de inflação divulgados até agora vieram amplamente conforme o esperado, mas afirmou que são números de apenas um mês e que o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) vai esperar mais dados futuros para tomar sua decisão. “São oito semanas até a próxima reunião, em setembro. Podemos decidir tanto por uma alta nos juros como uma pausa em setembro.”
Para Powell, a inflação moderou, mas, para atingir a meta de 2%, um longo caminho ainda precisa ser percorrido. “É uma benção que estamos conseguindo desacelerar a inflação sem uma alta do desemprego”. Este cenário e novos dados levaram o Fed a não prever mais uma recessão para os EUA este ano. “Não quero usar o termo ‘otimista’, mas há uma chance de pouso suave para a economia.”
Enquanto Powell se mostrou reticente em dizer o próximo movimento do Fed, ele foi mais categórico ao falar que não espera corte nas taxas de juros este ano. O banqueiro central disse que, desde março de 2022, os juros americanos subiram 5,25 pontos e precisarão ficar no atual patamar por algum tempo – ou até subir mais – para que os efeitos da política monetária levem a economia para estabilidade.
Segundo ele, não haverá corte nos juros este ano e há muitas incertezas de que haverá no próximo. “Temos que ver como a inflação se comportará”, disse, reforçando que provavelmente o Fed irá parar de subir os juros antes da inflação atingir a meta de 2%. Porém, a expectativa de Powell é a de que a inflação chegue perto dos 2% apenas em 2025.
Powell disse também que o BC americano pode agora ser mais paciente para analisar os efeitos retardados do aperto antes de tomar uma decisão para setembro. Além disso, ele disse que o Fed está monitorando as condições de crédito dos bancos. “Não podemos mais separar a desaceleração da atividade econômica com o aperto das condições de crédito dos bancos”, disse.
Para o mercado, esses últimos comentários de Powell elevaram a possibilidade do aperto de ontem ter sido o último deste ciclo.
“O comunicado e os comentários de Powell deixaram a porta aberta para outra alta, mas ele está deixando claro que outra alta nos juros não está decidida. Baseado em projeções de desaceleração do crescimento econômico e da inflação, acredito que a alta de ontem será a última do atual ciclo”, disse em entrevista ao Valor Nancy Vanden Houten, economista-chefe da Oxford Economics. Segundo ela, o Fed tem mostrado a cada alta de juros que ele quer ser mais paciente e ter mais tempo para analisar os efeitos das altas acumuladas na economia.
O economista para os EUA do Itaú BBA, Bernardo Dutra, acredita que será difícil o Fed começar a cortar os juros este ano, embora o mercado precifique cortes em 2023. “Para começar a cortar juros, o ‘payroll’ tem que cair para perto de zero, mostrando um desaquecimento da atividade econômica e ele ainda se encontra em torno de 200 mil novas vagas ao mês”, explica. Dutra espera um corte de juros – se a inflação seguir em queda – no segundo semestre de 2024.
O economista-chefe do PicPay, Marcos Caruso, entende que a inflação atual permite ao Fed encerrar o ciclo. No entanto, ele aponta para a recente reaceleração dos indicadores de atividade americanos como um sinal de que o Fed pode ter de subir mais os juros à frente. Pensando na necessidade de mais altas, Caruso avalia a postura atual mais conservadora do Fed como “razoável”. O fato do comunicado da decisão de julho praticamente não ter mudado em relação a junho mostra que “a cabeça dos dirigentes está no mesmo lugar”, o que sugere mais uma alta de 0,25 ponto percentual, conforme indicado nas projeções do Fed do mês passado.
Fonte: Valor Econômico
