Por Victor Rezende e Igor Sodré — De São Paulo
29/08/2022 05h04 Atualizado há 43 minutos
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As incertezas sobre o comportamento do câmbio devem se intensificar, na medida em que a eleição presidencial se aproxima e os próximos passos da política monetária nos Estados Unidos continuam indefinidos. Embora o nível elevado dos juros dê algum suporte ao desempenho do real, a volatilidade da moeda brasileira tende a aumentar nas próximas semanas, em um cenário de pesquisas eleitorais mais frequentes, ruídos políticos e com o mercado global atento às commodities e aos sinais emitidos pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano.
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A volatilidade implícita de um mês – medida do risco de variação de um ativo em determinado período à frente – do real tem ficado em torno de 20% nas últimas semanas e até exibiu alguma desaceleração recentemente. No entanto, os desafios colocados no cenário indicam um ambiente mais difícil para a taxa de câmbio à frente, na avaliação de casas que integram o Top 5 de câmbio do segundo trimestre do Boletim Focus.
“A volatilidade está até me surpreendendo por ser um pouco menor do que eu imaginava. A taxa de juros ajuda a amortecer um pouco os movimentos. Além disso, estamos em um cenário de deflação temporária por pelo menos dois meses com uma Selic de 13,75% [ao ano]. No entanto, devemos ver uma volatilidade maior tanto aqui dentro quanto no exterior. E, na hora em que isso acontece, o movimento dos mercados deve ser de fuga para a qualidade”, afirma Nelson Rocha Augusto, presidente e economista-chefe do BRP, um dos integrantes do Top 5 de câmbio no Boletim Focus.
O sócio e economista da Kairós Capital Marco Maciel nota que, nos últimos três meses, a correlação entre o exterior e o mercado de câmbio local tem ficado entre 65% e 70%. E, para ele, o real poderia estar até mais desvalorizado por causa da incerteza política e fiscal. Ao observar a dinâmica do câmbio e os elementos presentes no cenário macroeconômico atual, ele acredita que o dólar pode alcançar um pico entre R$ 5,40 e R$ 5,45 no auge da volatilidade eleitoral.
“Quando jogo esse nível de volatilidade atual, entre 20% e 22%, encontro um dólar razoavelmente acima de R$ 5, mas, quando aumento a volatilidade para algo entre 27% e 30%, normal para períodos eleitorais, encontro um nível que colocaria o dólar em R$ 5,45”, diz Maciel. Esse cenário também incluiria uma redução da volatilidade do dólar no exterior.
O economista da Kairós diz esperar que o nível de volatilidade na curva de juros americana caia, o que pode produzir menos incerteza para as moedas em geral. Um segundo ponto destacado por ele se dá em relação à China, já que Maciel lembra que o país deve crescer menos de 4% neste ano, o que tem impacto direto no cenário de commodities. “Isso contribui para os exportadores não se valorizarem tanto”, observa.
Nos últimos meses, o câmbio tem acompanhado o comportamento do dólar no exterior. Após ter caído a R$ 4,60 na mínima do ano, a moeda americana voltou a ganhar força e subiu a R$ 5,50 em julho, em linha com o movimento observado lá fora, onde o dólar ganhou ainda mais fôlego e opera nas máximas em 20 anos.
“O dólar ficou forte contra todas as moedas”, enfatiza José Carlos Carvalho, sócio da Vinci Partners e responsável pela área de macroeconomia. “O Fed começou a subir os juros em um ritmo de 0,75 ponto percentual e isso fez o dólar ficar mais forte”, observa.
Segundo Carvalho, apesar da mensagem dura transmitida pelo presidente do Fed, Jerome Powell, no simpósio de Jackson Hole na semana passada, o mercado ainda atribui probabilidade grande de uma desaceleração do ritmo de alta de juros para 0,5 ponto nas próximas reuniões do comitê de política monetária. “Se isso acontecer, talvez essa variável que preocupa muito o mundo inteiro se torne menos relevante”, pondera.
Com isso, o sócio da Vinci acredita que, em um cenário no qual o Fed continue a elevar os juros, mas a um ritmo menos intenso, os fundamentos de cada país voltarão a falar mais alto, o que seria favorável para o câmbio doméstico. “Estamos otimistas com o real. Os fundamentos são positivos do lado do Brasil. O juro mais alto estancou a saída de capital que ocorreu quando a Selic estava muito baixa, e os preços das commodities continuam muito fortes e vemos aquela correlação histórica entre o real e as matérias-primas voltando. Além disso, o déficit em conta corrente está em torno de 1,5% e deve ficar ainda menor”, observa.
Para ele, se o dólar global não ficar ainda mais forte, a tendência de apreciação do real se coloca sobre a mesa novamente. Carvalho, inclusive, aponta que, em relação ao cenário eleitoral, geralmente há nervosismo nos mercados, algo que pode não ocorrer de forma tão intensa neste ano. “Como a disputa se dá, principalmente, entre dois candidatos que não trazem grandes surpresas para o mercado, porque já foram presidentes, o ‘fator eleição’ pode não assustar”, destaca.
Rocha Augusto, do BRP, tem visão semelhante e espera que o dólar fique em R$ 4,90 no fim deste ano. “Vamos ter um ambiente político bastante diferente, independentemente de quem vença. É muito provável que o Executivo comece emitindo sinalizações de maior responsabilidade fiscal. E a sociedade, do ponto de vista técnico, está pressionando por mais medidas, mas que sejam fiscalmente responsáveis”, afirma.
Na semana passada, o dólar anotou queda de 1,74%, em um desempenho do real bem superior à maioria das moedas emergentes. Sob condição de anonimato, profissionais do mercado apontaram para a retirada de riscos de cauda no âmbito político após as entrevistas de Jair Bolsonaro (PL) e de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no “Jornal Nacional”. A percepção de um menor risco político, ao menos neste momento, deu apoio ao real.
Tanto os juros nominais quanto os juros reais americanos têm anotado oscilações diárias expressivas, além de operarem em níveis mais altos, com impacto direto no comportamento global do dólar. Enquanto o retorno da T-note de dez anos voltou a ficar acima de 3%, o juro real americano de dez anos se aproxima de 0,5%, após ter iniciado o mês em apenas 0,09%.
“Os efeitos externos têm direcionado o comportamento do câmbio nos últimos meses, mas, na medida em que o debate eleitoral se intensifica, em especial quando entrar no campo fiscal, seria natural um aumento na incerteza”, diz o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski. “Até porque os dois candidatos que lideram as pesquisas têm sinalizado, no mínimo, uma reforma no teto de gastos e não sabemos ainda como isso se daria, já que as promessas que têm sido feitas não cabem no teto”, observa, ao citar um Auxílio Brasil de R$ 600 como permanente e a recomposição salarial no setor público.
Para Secemski, as incertezas associadas ao campo fiscal no período eleitoral tendem a justificar alguma fraqueza do real. “Junto a isso, temos, ainda, a discussão do Orçamento de 2023 e um projeto que deve ficar parado até depois das eleições, que será quando essas possíveis inconsistências vão precisar ser endereçadas”, diz.
Fonte: Valor Econômico


