Mercado de produtos para cuidados com a pele movimentou R$ 7 bi no ano passado e é palco de movimento acelerado de fusões e aquisições
Em busca de maior participação em um mercado que movimentou quase R$ 7 bilhões em 2024 e tem se sofisticado, grandes marcas e farmacêuticas nacionais estão ampliando a aposta em dermocosméticos. Via investimento em inovação e lançamentos ou aquisições, a mais recente protagonizada pela Eurofarma, o segmento de produtos de saúde e beleza da pele deve seguir como palco de M&As (fusões e aquisições, na sigla em inglês) e da adição de princípios ativos farmacêuticos na disputa pela preferência de dermatologistas e consumidor final.
Com a aquisição de 60% da Dermage, anunciada no último dia 24, a Eurofarma amplia sua participação nesse mercado e segue uma tendência da indústria brasileira. Outras farmacêuticas locais, como HyperaCotação de Hypera e Cimed, se posicionaram fortemente no segmento nos últimos anos com a aquisição de empresas e ampliação do portfólio.
Já a Natura &Co relançou a linha Chronos, agora como Chronos Derma, também com o objetivo de disputar os consumidores em categorias premium e de apelo dermatológico. O mercado para cuidados com o rosto já havia mobilizado a Monange, que lançou no ano passado um kit de uso diário com gel de limpeza e hidrante e ampliou o portfólio para além dos itens para banho no mercado massivo.
De acordo com dados da IQVIA, o mercado total de dermocosméticos encerrou 2024 movimentando R$ 6,89 bilhões. A métrica considera o chamado PPP, sigla em inglês para preço de compra da farmácia. Para a consultoria Statista, o segmento deve chegar a US$ 3,53 bilhões no Brasil em 2028, quase três vezes mais do que as vendas registradas no ano passado, considerando o câmbio de hoje.
Uma das farmacêuticas pioneiras no segmento premium foi a Aché, com a marca Profuse. Segundo o diretor executivo de comercial, medicamentos isentos de prescrição (MIP) e dermocosméticos do laboratório, Marco Antonio Teixeira, trata-se de um mercado “bastante concorrido”, com variedade de marcas. O segmento é liderado por marcas como La Roche Posay, Vichy, Skinceuticals e CeraVe, do conglomerado francês L’Oréal. Outros nomes com participação de mercado relevante são Bioderma, da NAOS, Cetaphil, da Galderma, e Darrow, parte do grupo Pierre Fabre.
“Nosso objetivo principal é atender a todas as necessidades da cosmiatria e do médico dermatologista. Trabalhamos com dermocosméticos de alta performance, desenvolvidos a partir de estudos científicos e com concentrações elevadas de ativos, sempre com a expertise farmacêutica do Aché”, informou ao Valor. O segmento representa 2% do negócio da companhia.
A farmacêutica Cimed adota uma estratégia diferente para alcançar os consumidores. A recomendação por profissionais de estética é considerado o canal prioritário da companhia, embora o os produtos da Milimetric também estejam disponíveis no varejo farmacêutico e no comércio eletrônico. A marca Milimetric, de produtos injetáveis minimamente invasivos para clínicas de estética, foi adquirida pela Cimed no início de 2024. A partir da aquisição, a Cimed expandiu o portfólio com itens para uso doméstico como gel de limpeza, protetor solar e séruns.
De acordo com a diretora de novos negócios e planejamento estratégico da Cimed, Juliana Felmanas, o objetivo da nova divisão é criar sinergias com o negócio B2B, mas apostando na praticidade para o consumidor final. “Outras empresas trazem tratamentos extremamente inovadores e até complexos demais para a população brasileira. Às vezes, nós não fazemos nem o básico, que é passar um protetor solar todos os dias, e simplificamos essa jornada de cuidado”, disse.
De acordo com Felmanas, o foco da Milimetric seguirá no mercado B2B, embora os produtos estejam disponíveis em outros canais para facilitar a recompra dos itens e captar novos consumidores.
Já a HyperaCotação de Hypera, que há 15 anos é controladora da marca Mantecorp, acelerou a participação no segmento com a compra da marca brasileira Simple Organic, em 2020, e da Bioage, em 2021. Durante teleconferência de resultados do quarto trimestre, o diretor-presidente Breno Oliveira afirmou que as três marcas são, juntas, as recordistas do portfólio em lançamentos anuais. Procurada pelo Valor, a HyperaCotação de Hypera não quis comentar a estratégia para a categoria de dermocosméticos.
Nosso objetivo é atender a todas as necessidades da cosmiatria e do médico dermatologista”
As farmacêuticas não são as únicas a diversificar os negócios para disputar esse mercado bilionário. A Natura &Co estreou recentemente no segmento de dermocosméticos com o relançamento da linha Chronos. A companhia afirma que os produtos, agora sob a marca Chronos Derma, foram desenvolvidos com apoio de dermatologistas e em testes clínicos mais de trinta mil mulheres.
De acordo com a diretora de marketing e comunicação da Natura Brasil, Denise Coutinho, a nova linha deve manter consumiras habituais da marca e alcançar novos públicos. “A nossa entrada no segmento de dermocosméticos com a linha Chronos Derma foi impulsionada por oportunidades claras no mercado”, disse ao Valor.
Segundo Coutinho, a Natura nota uma conscientização crescente do consumidor sobre saúde e cuidados com a pele, tendência apoiada por recomendações de dermatologistas e profissionais de saúde no geral. “Esse cenário gerou uma demanda por produtos de skincare de alta performance”, afirmou. A linha da empresa de beleza é destinada a pessoas a partir dos trinta anos, com foco na proteção e renovação da pele, e itens como sabonete, protetor solar, creme hidratante e séruns.
A “premiunização” das fórmulas também foi adotada por marcas de cosméticos de consumo massivo, com forte distribuição no varejo alimentar. É o caso de Monange, com o lançamento de uma linha de cuidados faciais no ano passado.
Conforme o vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da Coty América Latina, Henrique Sales, a linha está presente em 20 mil pontos de venda em todo o país. O principal canal de venda é o varejo farmacêutico. “A linha vem sendo consumida por pessoas de diferentes perfis, como faixas etárias e classes sociais, com inovação, alta qualidade e preço competitivo”, disse.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não utiliza o termo “dermocosméticos” como uma categoria específica. O entendimento do mercado é de que o segmento é composto por produtos com pesquisas clínicas dermatológicas mais extensas, voltadas à saúde e estética da pele, com um posicionamento de mercado de tíquete médio mais elevado.
Para a Anvisa, os produtos podem ser divididos entre os chamados Grau 1 e Grau 2. O primeiro grupo, segundo a agência, inclui itens de “propriedades básicas ou elementares”, sem exigência de informações detalhadas e restrições de uso. A lista inclui cremes com finalidade exclusiva de hidratação, esmaltes e máscaras para cílios. Já o grupo 2 inclui itens com “indicações específicas”, como condicionadores infantis, desodorantes antitranspirantes e peelings.
O dermatologista e preceptor do ambulatório de Cosmiatria do Serviço de Residência da Universidade de Mogi das Cruzes, Renato Pazzini, aponta que um exemplo de restrição de uso observado pela Anvisa é a segurança para mulheres gestantes. “Os dermocosméticos podem ser vendidos sem receita médica, mas isso muda pela composição e pela concentração dos ingredientes. O retinol, que é uma molécula muito presente nos produtos, pode ser vendido sem receita apenas em uma concentração de até 0,3%”, disse.
Fonte: Valor Econômico