O bom desempenho dos mercados brasileiros de câmbio e de juros futuros visto nos dias posteriores ao primeiro turno da eleição presidencial teve vida curta. Ontem, o ambiente externo voltou a exercer pressão nos ativos devido a riscos geopolíticos e pela alta nos rendimentos dos Treasuries, os títulos do Tesouro americano. Isso pesou mais no preço do dólar/real, enquanto as taxas conseguiram manter estabilidade, indicando resiliência.
No fim das negociações, o dólar à vista registrou valorização de 0,70%, cotado a R$ 5,0105. O real terminou o dia entre as moedas mais fracas, ao lado do zloty polonês, do rublo russo e do florim húngaro. Já a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2028 recuou de 12,61%, do ajuste da terça, para 12,595% no ajuste de ontem; a do DI de janeiro de 2031 anotou leve alta de 12,57% para 12,59%.
Depois de tocarem novas máximas desde 2002 durante a manhã, os juros ultralongos dos Estados Unidos exibiram uma sensível melhora à tarde com a realização de um leilão de T-notes de 10 anos que teve forte demanda, embora a venda tenha registrado as maiores taxas para esses papéis desde 2000. Na reta final do pregão em Nova York, o rendimento do T-bond de 30 anos oscilava de 5,661% a 5,671%.
Apesar da forte pressão externa em parte do dia, os juros futuros operaram sem grande estresse no Brasil, evidenciando o descolamento da renda fixa doméstica em relação ao ambiente global e superando a correção vista no câmbio e na bolsa. Ainda que o rali eleitoral tenha feito uma pausa, as taxas sustentaram os níveis bastante inferiores aos quais chegaram após a histórica redução dos prêmios de risco que se deu nos dois pregões anteriores, em especial na segunda-feira.
O dólar, por sua vez, avançou desde o começo do pregão de quarta-feira, acompanhando a dinâmica global de menor apetite por ativos de risco. Pedro Figueiredo, trader de câmbio da Hedgepoint, apontou em nota no começo do dia que a sessão seria marcada pela volta do aumento do petróleo Brent com ataques dos houthis à Arábia Saudita e combates perto do Estreito de Bab el-Mandeb, rota que ganhou peso com Ormuz fechado. “Há ainda uma tempestade a caminho de áreas produtoras nos EUA. Para o real, o petróleo em alta ajuda pelos termos de troca e amortece parte do “risk-off”, a aversão a risco; hoje [ontem], porém, o canal do dólar global e dos juros americanos pesa mais.”
O diretor de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, disse que, se as taxas de juros americanas voltaram um pouco dos patamares mais altos que alcançaram, o rali dos mercados locais pode se estender. “Se o rendimento do título de 10 anos nos Estados Unidos vem mais para perto de 5%, dá um alívio global que beneficia nossos ativos”, diz. Para ele, na ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve (banco central americano), ficou claro que o Fed elevou as taxas de juros porque as condições não estavam restritivas, mas sem dar sinais claros de que haverá ter uma sequência de altas, “dando mais a aparência de um ajuste fino”.
Ainda na leitura de Weigt, outro fator que deve orientar os ativos são as pesquisas eleitorais daqui para frente. “Agora, teremos quase que uma nova eleição. Se o Flávio Bolsonaro aparecer com uns três a quatro pontos de distância do Lula, o dólar pode voltar a perder espaço, mas para os níveis de R$ 4,95 ou talvez mais, até uns R$ 4,90. Mais do que isso é difícil acontecer antes do segundo turno. Deve ter isso como piso e talvez ir até uns R$ 5,05.”
Matheus Zani, gestor de risco de moedas da Deaglo disse em nota que o primeiro turno das eleições tornou o “hedge” cambial mais barato. Segundo ele, com a reprecificação do mercado de juros e câmbio em 48 horas pós-eleição, o custo do “carry trade” anualizado caiu de 7,11% para 6,60% (para 1 ano) e de 7,28% para 6,27% (para 2 anos). “O mercado vem precificando, de forma crescente, maior disciplina fiscal, taxas de juros reais mais baixas e um real forte. Isso poderia abrir espaço para uma queda mais rápida da taxa Selic em 2027.”
Apesar da alta do dólar, o euro terminou mais contido, com valorização de 0,12%, a R$ 5,6093. A dinâmica reforçou a percepção de que a piora do câmbio se deu mais pela força da moeda americana.
Fonte: Valor Econômico
