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A maioria dos conselheiros e executivos de empresas brasileiras está com uma perspectiva negativa para o ambiente de negócios no país em 2026. É o que mostra um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
Pela primeira vez nas edições da pesquisa, iniciada em 2024, os respondentes com perspectiva negativa para o ambiente de negócios superam os positivos. Na avaliação de 2025, 28,6% consideravam o ambiente de negócios como “ruim” ou “muito ruim”, percentual que aumentou para 35,3% para 2026. Entre aqueles que o avaliavam como “bom” ou “muito bom”, o percentual diminuiu, de 37% para 30%, no mesmo período.
A perspectiva predominantemente pessimista para este ano está presente em empresas de todos os portes. As menores organizações da amostra – com receita bruta de até R$ 20 milhões por ano – têm a maior proporção de conselheiros e executivos pessimistas, com 43,2% das citações de um ambiente ruim, possivelmente por sua maior sensibilidade em um ambiente instável, com maiores dificuldades geradas por crédito caro e menor liquidez.
Entre os executivos de organizações com faturamento acima de R$ 1 bilhão, a perspectiva negativa foi presente em 33,9% das respostas (somando respostas “ruim” e “muito ruim”), enquanto 27,4% avaliam o cenário como “bom” ou “muito bom”.
As avaliações mais otimistas vieram dos executivos de empresas com faturamento entre R$ 100 milhões e R$ 300 milhões, com 44,4% avaliando o ambiente como “bom” ou “muito bom”.
Entre os setores mais representativos da amostra, respondentes do mercado financeiro e de construção e transportes avaliam, no geral, o ambiente de negócios como “ruim” para 2026 – 45,2% e 40,9%, respectivamente.
O setor de saúde é o único com respondentes que apresentaram uma avaliação “muito ruim” do ambiente de negócios, com 5% das respostas. No entanto, também é o setor com a maior avaliação positiva, com 45% avaliando o ambiente como “bom”.
Por fim, no setor de serviços, que inclui empresas de consultorias e advocacia, as respostas se dividiram igualmente entre “ruim”, “neutro” e “bom”.
Em relação ao desempenho das próprias organizações, 59% dos conselheiros e executivos consultados estão com perspectiva positiva para 2026, queda de 10,9 pontos percentuais em relação a 2025. Já os respondentes com perspectiva neutra subiram em relação ao ano anterior: de 25,8% para 36,3%. Apenas 4,7% avaliaram de maneira negativa o desempenho das empresas em que atuam, leve alta de 0,3 ponto percentual em relação ao ano passado.
A pesquisa não ouve diretamente os respondentes. O IBGC utiliza um formulário. Entre as questões, são perguntados os fatores que poderão colocar em risco o ambiente de negócios no Brasil.
Assim como na edição de 2025, a carga tributária figura como o principal fator de risco na opinião dos executivos, apontada por 45,8% dos respondentes. Em seguida, os fatores mais citados na edição de 2026 foram: insegurança jurídica (32,6%); tensões geopolíticas (27,4%); possibilidade de aumento da taxa de juros (24,7%) e corrupção (22,6%). No ano passado, os fatores mais apontados foram: carga tributária (58,7%); inflação (50,1%); corrupção (32,4%); baixa qualificação da mão de obra (25,5%) e dificuldade de obtenção de crédito (23,8%).
“Incluímos na pesquisa de 2026 [questões sobre] tensões geopolíticas e insegurança jurídica, porque esses temas apareceram de forma espontânea nas respostas para a categoria ‘outros’. Como esses fatores apareceram mais de uma vez, decidimos colocá-los na pesquisa deste ano”, explica Danilo Gregório, gerente de conhecimento e relações institucionais do IBGC.
Falta conhecimento ou interesse em ampliar” temas ligados à sustentabilidade”
Apesar do histórico de três edições da mesma pesquisa, Gregório destaca que os dados têm uma limitação do ponto de vista estatístico, uma vez que são pessoas diferentes que respondem à pesquisa a cada ano, e a amostragem não é igual. Em relação ao ano passado, que contou com 349 respondentes, houve uma redução de mais de 40%, para 190 no levantamento atual.
A pesquisa também apresentou os principais temas para os quais os conselhos pretendem ampliar a discussão ao logo deste ano, bem como aqueles que devem receber menor atenção, ou que ainda não são discutidos.
A inteligência artificial lidera a lista de prioridades, com 60,4% das respostas. Ela vem ganhando espaço desde a primeira edição da pesquisa – quando aparecia em terceiro lugar dentre as prioridades. Inovação (46,5%) e gestão de talentos da organização (45,7%) completam a lista de prioridades para 2026.
Outro ponto foi a percepção de preparo dos respondentes para discutir determinados temas. Entre as áreas para as quais eles se veem mais preparados estão: impactos do ambiente político nacional (44,2%), impacto social da organização (43,7%) e impactos do contexto geopolítico (38,3%).
Do outro lado, temas ligados às temáticas ambiental e social têm sido apontados como aqueles que serão discutidos com menor frequência. Como exemplo, “planos de adaptação às mudanças climáticas” são citados por 20,2% dos respondentes como um assunto que tende a ser menos debatido. Ao mesmo tempo, 35% afirmam não terem discutido o tema. Em relação a “planos de mitigação de emissões de gases de efeito estufa”, 17,8% pensam que o tema será menos discutido, e 36,8% confessam não o ter abordado.
Em paralelo, 41,2% dos entrevistados afirmaram estar muito ou totalmente despreparados para discutir o impacto das mudanças climáticas. Para Gregório, o problema pode ser visto sob duas perspectivas: falta de conhecimento e pouco interesse em ampliá-lo. “Além de conhecer, você precisa querer conhecer, e querer implementar essas práticas na sua organização. Isso implica também uma mudança de cultura”, afirma.
A divulgação de riscos e oportunidades de sustentabilidade, conforme padrões internacionais como IFRS S1 e S2, também é um tema de despreparo dos conselhos em todos os portes, aparecendo no “top 3” de despreparo, com exceção das grandes empresas, com faturamento acima de R$ 1 bilhão.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por meio da resolução 193, determina que as empresas de capital aberto, fundos de investimento e companhias securitizadoras devem elaborar e divulgar relatórios de informações financeiras relacionados à sustentabilidade, baseados nos padrões emitidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB, conselho global que cria padrões internacionais para o relato de sustentabilidade). A divulgação será obrigatória a partir dos exercícios sociais iniciados em 1º de janeiro de 2026.
Em dezembro passado, a Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) solicitou à CVM ajustes na Resolução 193. Em carta enviada ao regulador, a associação elencou desafios à agenda contábil e de adequação financeira das empresas, também a partir de 2026, como a implementação simultânea da Reforma Tributária, novas regras do Pilar 2 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a tributação sobre dividendos.
Com isso, a Abrasca propôs que a adoção das normas seja voluntária inicialmente, o que representaria “equilíbrio adequado” entre a necessária convergência internacional e a realidade do mercado nacional e dos desafios legislativos atuais impactando as áreas de contabilidade e finanças das companhias abertas.
Em resposta, outras entidades do mercado financeiro manifestaram apoio à resolução da CVM e afirmaram que a flexibilização ou revogação das normas de sustentabilidade representaria um “retrocesso relevante” para o funcionamento eficiente do mercado de capitais brasileiro.
A carta foi assinada em conjunto pelo Instituto de Auditoria Independente do Brasil (Ibracon), Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Associação dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (Apimec) e Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi).
Fonte: Valor Econômico
