A Eurasia, uma das principais empresas de análise de risco político do mundo, alterou seu cenário-base, para uma retomada do controle do Senado pelos democratas nas eleições de novembro. Como a conquista na Câmara já era o mais provável, agora a Eurasia passa a ver que os dois últimos anos de mandato do presidente dos EUA, Donald Trump, serão com um Congresso liderado pela oposição.
A Eurasia atribui 55% de chance de o Senado ser comandado pelos democratas. Segundo a consultoria, os últimos desenvolvimentos macroeconômicos e pesquisas em disputas-chave apontam para a leve vantagem. “A disparada nos preços da gasolina neste mês é o mais próximo que se pode chegar de uma ‘criptonita política’ para o partido no poder”, diz a Eurasia.
Seus efeitos, aponta, estão repercutindo em corridas eleitorais das quais depende o controle do Senado, como Maine, Texas, Ohio, Alasca e Iowa, e o desfecho parece cada vez menos um empate.
As discussões recentes entre republicanos, sobre suspender temporariamente a exportação de diesel produzido no país, refletem a preocupação do partido. O preço da gasolina sobe 42% em um ano, enquanto o diesel dispara 77%.
“Tenho dito que não devemos enviar nosso diesel, e produzimos bastante dele. Eu disse para o nosso pessoal, tenho defendido isso”, disse Trump na terça-feira. Membros de sua equipe, como o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o de Energia, Chris Wright, ponderaram a iniciativa, mas uma autoridade da Casa Branca negou.
O eleitor mais decisivo, hoje, é aquele “duplamente desencantado”, ou seja, os cerca de 17% que desaprovam Trump, mas não estão alinhados aos democratas, aponta o Cook Political Report, em relatório. E o principal ponto de insatisfação desses eleitores é exatamente o preço dos combustíveis.
Motores a diesel não são comuns entre consumidores americanos. O diesel, no entanto, é intensamente usado por caminhoneiros e agricultores. Assim, a alta do combustível impõe custos a diversas cadeias, incluindo a de alimentos. Além disso, o combustível para aquecimento das residências está sujeito aos mesmos choques do diesel.
Com isso, o consumo de diesel é proporcionalmente maior em Estados mais frios, nos agrícolas ou produtores de petróleo, aponta o Silver Bulletin, plataforma do especialista em dados Nate Silver.
O líder é o Alasca, onde o diesel representa quase 70% do consumo total no Estado. Lá, a disputa por vaga ao Senado é considerada empatada pelo Cook, o que significa chance real de virada da democrata Mary Peltola. O diesel pesa: 40% ou mais do consumo no Maine, Iowa, Nebraska e Kansas, e 35% no Texas.
Considerando apenas a gasolina, o aumento nos preços de combustível no Alasca em um ano é de 30%, mas, somando o diesel, bate em 54%. É a mesma alta do Maine, onde republicanos enfrentam uma corrida apertada para reconduzir a veterana Susan Collins.
Em Iowa, o choque combinado nos preços dos combustíveis é de 62%. No fim de semana, o senador republicano pelo Estado Chuck Grassley, que tem mandato até 2029, chamou atenção ao pressionar Trump. “Por que o presidente não impõe um embargo às exportações de diesel, assim como presidentes nos anos 70 impuseram embargos a produtos agrícolas porque os preços dos alimentos estavam inflacionados? Os preços elevados do diesel estão destruindo a renda dos agricultores.”
A candidata republicana Ashley Hinson, que tem apresentado margem apertada na tentativa de manter outra cadeira do partido em Iowa, disse ser preciso “usar todas as opções disponíveis para aliviar os altos preços”, incluindo “interromper as exportações de diesel”. “Essas ações para reduzir os custos são necessárias o mais rápido possível, e a guerra precisa ter um fim imediato.”
O choque combinado em preços de gasolina e diesel é de 63% em Nebraska, de 62% no Michigan e de 61% no Kansas e Texas. Todos são Estados com disputas acirradas ao Senado, observa Silver. Isso também ajuda a explicar, segundo ele, por que o desempenho dos democratas têm sido surpreendentemente forte no centro dos EUA.
Mas, nem todos os casos, o peso negativo do preço do diesel favorece os democratas. No Michigan, eles brigam para manter uma cadeira no Senado, e o candidato republicano Mike Rogers pressionou Trump ao afirmar nesta semana que a guerra no Irã precisa “acabar rapidamente”.
“Escrevemos há um mês que a disputa pelo controle do Senado estava indefinida, mas com fundamentos que ainda favoreciam ligeiramente o Partido Republicano. Os acontecimentos das últimas quatro semanas tornaram o controle da Casa uma verdadeira incógnita”, escreve Jessica Taylor, editora do Cook para o Senado.
A Eurasia pondera que “a disputa ainda está acirrada” e que a manutenção do controle republicano no Senado não surpreenderia. “Pequenos erros nas pesquisas em apenas alguns Estados seriam suficientes para garantir a vitória republicana”, afirma.
Fonte: Valor Econômico


