Por Henry Foy e Demetri Sevastopulo, Financial Times — Bucareste e Washington
29/11/2022 11h58 Atualizado
Os EUA estão pressionando seus aliados europeus para que adotem uma postura mais dura em relação a Pequim, enquanto tentam alavancar sua posição na Ucrânia para ganhar mais apoio dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) em seus esforços para conter a China no Indo-Pacífico.
Segundo fontes informadas sobre as conversas entre os EUA e seus aliados da Otan, nas últimas semanas Washington pressionou membros da aliança para endurecer sua linguagem sobre a China e começa a trabalhar em ações concretas para conter Pequim.
No começo de seu governo, o presidente dos EUA, Joe Biden, identificou a contenção da China como seu principal objetivo de política externa, mas seus esforços foram complicados pela invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro.
Mas como a guerra iniciada pelo presidente russo Vladimir Putin em seu décimo mês, Washington está pressionando para colocar a China de volta na agenda da Otan. Segundo as fontes, os EUA estão tentando aproveitar a ação adotada pela aliança em relação à Ucrânia — incluindo ser o maior fornecedor de armas e ajuda para Kiev — e transformá-la em um apoio mais concreto às suas políticas na região do Indo-Pacífico.
“A mudança dos americanos quanto a isso é perceptível”, disse uma das fontes. “Está bem claro que eles decidiram que agora é o momento de avançar nisso.”
Questionada sobre o esforço, uma autoridade de alto escalão dos EUA observou que a Otan concordou com um novo “conceito estratégico” em junho que “abordasse os desafios sistêmicos” representados pela China. “Nossas conversas sobre esses assuntos continuam”, acrescentou a autoridade.
Referindo-se aos 30 aliados da Otan que endossaram o novo conceito em uma reunião de cúpula em Madri em junho, uma autoridade do Departamento de Estado dos EUA disse que os ministros das Relações Exteriores da Otan “abordarão maneiras de fortalecer nossa resiliência e os desafios colocados pela China” na reunião desta semana em Bucareste, na Romênia. “Valorizamos muito e encorajamos uma abordagem europeia unida para a China”, acrescentou.
Coordenar as estratégias dos países membros da Otan para a China está no topo da lista dos assuntos a serem discutidos na reunião de dois dias, que começou nesta terça-feira (29). “O que começamos a fazer na Otan é pensar em maneiras que permitam à aliança enfrentar esse desafio [da China] em termos concretos”, disse Julianne Smith, embaixadora dos EUA na Otan.
“Os aliados procurarão implementar o que assinaram, para passar do que chamamos de avaliar o problema, para enfrentar o problema”, acrescentou ela.
Os ministros da Otan discutirão um novo relatório sobre a China, destinado a endurecer a posição da aliança, que em junho classificou Pequim pela primeira vez como uma “ameaça” a seus “interesses, segurança e valores”.
O relatório deve abordar o desenvolvimento militar da China, seus esforços para exercer influência sobre os membros da Otan e outros países e o relacionamento de Pequim com Moscou, segundo disseram autoridades.
Mas muitos aliados europeus estão preocupados com a possibilidade de que as discussões desviem a atenção daquilo que eles consideram como a necessidade mais urgente, que é consolidar o apoio resoluto à Ucrânia.
Além disso, embora a UE também estude maneiras de endurecer suas relações comerciais com a China, a imensa maioria dos países da Otan, entre eles a Alemanha e a França, reluta em alinhar completamente suas posições sobre a China com as de Washington.
“Digamos que os EUA têm uma certa tendência a serem impositivos, não apenas com relação à China, mas sobre tudo”, disse um alto funcionário da UE, que sugeriu que em última instância a Europa acabaria por se alinhar mais à posição dos EUA. “Nós vamos ficar, digamos assim, completamente isolados e bem no meio entre a China e os EUA? Não, eu acho que não.”
Fonte: FT / Valor Econômico