Representantes dos governos dos Estados Unidos e do Irã chegaram a um acordo sobre um memorando de entendimento para estender por 60 dias o cessar-fogo em vigor e iniciar negociações sobre o programa nuclear de Teerã. No entanto, o pacto ainda precisa da aprovação final do presidente Donald Trump, que pediu alguns dias para refletir antes de tomar uma decisão.
As informações foram repassadas por duas autoridades americanas ao site Axios, que divulgou a notícia em primeira mão. Reuters, Bloomberg, Associated Press e Fox News também noticiaram o acordo. Se confirmadas por Trump e pelo regime de Teerã, as informações representariam o avanço diplomático mais significativo desde o início da guerra, especialmente após os países terem voltado a trocar ataques nos últimos dois dias.
Fada-Hossein Maleki, parlamentar iraniano e membro da comissão parlamentar de Segurança Nacional do país, afirmou que as negociações mostraram “avanços significativos” e que os EUA aceitaram a maior parte das exigências do Irã, segundo a agência semioficial Iranian Students’ News Agency (ISNA). Os EUA ainda precisariam decidir sobre várias condições impostas por Teerã, informou a ISNA ao citar Maleki, sem fornecer detalhes.
A notícia de um possível acordo surge após acusações mútuas de violações do frágil cessar-fogo. Forças dos EUA afirmaram ter derrubado quatro drones iranianos lançados contra um navio comercial e também atingido uma unidade de lançamento próxima ao Estreito de Ormuz. Por sua vez, o Irã atacou a base americana de onde partiu a ofensiva, de acordo com a emissora estatal Press TV.
As autoridades americanas disseram ao Axios que os termos do acordo estavam praticamente fechados até terça-feira, mas ambos os lados ainda precisavam obter aprovação de seus líderes. Representantes iranianos teriam dito que já haviam conseguido sinal verde para fechar o pacto, segundo o portal. Teerã não confirmou a informação.
Ainda segundo o Axios, os negociadores americanos informaram Trump sobre os termos do acordo, e o presidente teria pedido mais tempo para refletir antes de tomar uma decisão. “O presidente comunicou aos mediadores que quer alguns dias para pensar nisso”, disse uma das autoridades.
O memorando estabelece que a navegação pelo Estreito de Ormuz será “irrestrita”, de acordo com as autoridades ouvidas pelo Axios. Uma delas afirmou que isso significaria o fim de pedágios e do assédio a embarcações. Teerã também teria se comprometido a remover todas as minas marítimas da passagem em até 30 dias.
Em troca, os EUA suspenderiam gradualmente o bloqueio naval aos portos iranianos, à medida que o transporte marítimo comercial fosse normalizado pelo Estreito de Ormuz.
Compromisso iraniano
Conforme o Axios, o memorando incluirá um compromisso de Teerã de não buscar uma arma nuclear — ponto reiterado por Trump quase diariamente. As primeiras questões a serem negociadas dentro do prazo de 60 dias seriam o destino do urânio enriquecido do país e o próprio programa atômico iraniano.
Por sua vez, a Casa Branca se comprometeria a discutir o alívio de sanções contra o Irã e a liberação de ativos iranianos congelados, estimados em US$ 24 bilhões, como parte das negociações. Trump, porém, tem afirmado que não aceitará “entregar dinheiro” a Teerã.
“Não estamos falando de qualquer alívio nas sanções — nada de dinheiro, nada de nada”, disse Trump na quarta-feira. “Quando eles se comportarem adequadamente e fizerem o que é certo, deixaremos que tenham seu dinheiro.”
Os termos do acordo revelados ao Axios por autoridades americanas são semelhantes aos divulgados ontem pela TV estatal iraniana. A Casa Branca classificou a reportagem como uma “invenção”, mas, apesar do desmentido, as informações são consistentes com outros supostos vazamentos sobre as negociações divulgados pela imprensa ocidental e por fontes no Oriente Médio.
A principal divergência parece estar na questão do Estreito de Ormuz. Enquanto a imprensa iraniana noticiou que a navegação seria controlada conjuntamente por Irã e Omã, as autoridades americanas frisaram que o memorando prevê tráfego irrestrito pela passagem, por onde circulam cerca de 20% do petróleo e do gás natural comercializados globalmente.
Durante uma reunião de gabinete realizada na quarta, Trump rejeitou a possibilidade de o Irã controlar Ormuz após um acordo e demonstrou insatisfação com os termos negociados. “O Irã está muito empenhado, quer fechar um acordo. Até agora, eles não conseguiram chegar lá. Não estamos satisfeitos com isso, mas estaremos. Estaremos ou então teremos simplesmente que terminar o trabalho”, afirmou aos seus secretários.
Trump também fez ameaças a Omã. “Ninguém vai controlar o estreito”, disse o presidente. “São águas internacionais, e Omã vai se comportar como todo mundo ou teremos de explodi-los. Eles entendem isso, vai ficar tudo bem.”
Omã não comentou a ideia de controle conjunto do estreito com o Irã, embora tenha afirmado discutir liberdade de navegação com Teerã. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, expressou solidariedade a Omã diante do que chamou de “ameaças de autoridades americanas”.
Fonte: Valor Econômico