Por Larissa Garcia e Guilherme Pimenta, Valor — Brasília
11/07/2022 12h42 Atualizado há 20 horas
O diretor de política econômica do Banco Central (BC), Diogo Guillen, reafirmou nesta segunda-feira que o horizonte relevante considerado na última decisão sobre a taxa básica de juros (Selic) estava integralmente em 2023. Além disso, ele admitiu que a estratégia de manter juros altos por mais tempo impactaria mais a inflação de 2024, devido à defasagem da política monetária.
“A gente reafirmou na última reunião o horizonte relevante sendo 2023. Por que a gente colocou primeiro a projeção de 2024? Porque os choques são muito persistentes. Na medida que você discute 2023 e vê os impactos desses choques, você rapidamente começa a discutir 2024, a gente já colocaria no relatório de inflação e optamos por colocar também [no comunicado], já que os choques traziam 2024 para o debate”, disse em evento promovido pelo Credit Suisse.
“Para a próxima reunião, o calendário usual já incorpora [2024] em menor magnitude. Então ele vai entrando de maneira paulatina, não tem descontinuidade na introdução de 2024, é um horizonte relevante rolante”, complementou.
Sobre a defasagem da política monetária, Guillen ressaltou que o impacto máximo se dá cinco a seis trimestres à frente. “Comparando com outros países, emergentes ficam em torno disso, nos desenvolvidos o lag [defasagem] é um pouco maior”, ressaltou.
“Na medida que você vai mantendo juros parados altos ao longo de 2023, vai tendo maior impacto sobre 2024 dada a defasagem de política monetária. Continua havendo uma estratégia de política monetária, independente do horizonte, quais são os caminhos de juros que vão atingir o redor da meta em 2023”, pontuou.
Mas, segundo o diretor, o impacto maior será em cinco trimestres. “Então mantendo juros estáveis ao longo de 2023 e 2024, construindo um cenário alternativo desse jeito, a projeção sobre 2024 vai ter maior impacto do que sobre 2023”, avaliou.
A estratégia de manter juros elevados por mais tempo levantou dúvidas no mercado sobre a efetividade do plano para o próximo ano e seu impacto para 2024, que só entra no horizonte de atuação da autoridade monetária em agosto. A projeção do BC para a inflação para o período, que não considerava a Selic estável em 2023, ficou em 2,7%, abaixo da meta de 3%.
Em relação à importância das projeções de inflação do mercado, Guillen disse que o BC “olha todas as expectativas, inclusive as implícitas”. “O Focus acaba tendo maior peso porque entra no modelo, é uma expectativa mais limpa, no sentido de que não tem que limpar prêmios. As expectativas são muito importantes, porque reancorar reduz o custo da desinflação futura”, colocou.
Segundo Guillen, o colegiado ainda conta com instrumento de política monetária mesmo em meio à estratégia atual de elevar pela última vez a Selic em agosto e manter em patamar estável ao longo de 2023.
“O Banco Central continua tendo um instrumento [de política monetária], a gente vai avaliar no futuro qual vai ser o melhor uso do instrumento”, disse.
Questionado sobre a possibilidade de o BC utilizar o câmbio como instrumento de política monetária, Guillen respondeu que se “identificar volatilidade excessiva, redução de liquidez e disfuncionalidade, merece intervenção”. “Mas se é uma mudança de fundamentos e o câmbio, que é um preço relativo e reflete esses fundamentos, aí não. É difícil fazer conjectura”, complementou.
Fonte: Valor Econômico