O cataclismo provocado pela apresentação de medidas fiscais aquém do esperado pelo governo, a expectativa de um forte protecionismo do presidente americano Donald Trump e a elevação da Selic ajudaram a afastar o investimento de estrangeiros da bolsa ao longo de 2024.
Números da B3 mostram que os investidores estrangeiros retiraram R$ 32,1 bilhões em recursos no segmento secundário da B3 (ações já listadas) em 2024. Essa foi a maior saída de capital da bolsa desse perfil de investidor desde 2020, no primeiro ano da pandemia, quando o déficit anual da categoria chegou a R$ 40,1 bilhões, de acordo com levantamento feito pelo Valor Data com dados da B3. Os dados excluem aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês) e “follow-ons” (ofertas subsequentes).
Investidores institucionais também realizaram mais saques do que aportes no ano passado, no mercado secundário. Em 2024, o déficit da categoria chegou a R$ 37,5 bilhões.
Segundo dados da B3, apenas investidores individuais terminaram 2024 com um superávit de R$ 30,8 bilhões em recursos no segmento secundário.
Michel Frankfurt, chefe da corretora do Scotiabank no Brasil, avalia que a vinda de fluxos mais expressivos de estrangeiros para a bolsa local parece pouco provável no curto prazo. “Não teremos grandes fluxos. Podemos ter alguma entrada para aproveitar pechinchas da bolsa, mas não temos uma ‘narrativa’ para surfar uma onda. Vai ser uma marola.”
Na avaliação do profissional, o Brasil parece “largado” na visão do estrangeiro. Segundo ele, o país não conseguiu obter destaque do ponto de vista global de alocação e problemas internos, como a deterioração das contas públicas e a decepção de investidores com o pacote de corte de gastos, ajudaram a afastar de vez o investidor global.
O ciclo econômico vicioso provocado pela frustração de agentes financeiros com o pacote de corte de gastos também foi citado com preocupação por analistas do HSBC, que rebaixaram na semana passada a recomendação de ações brasileiras de neutra para “underweight” (abaixo da média de mercado), em meio ao maior pessimismo com o país.
“Consideramos o Brasil uma ‘armadilha clássica’ de valor”, resumiram os especialistas Alastair Pinder, Nicole Inui e Herald van der Linde, em relatório.
Para os analistas do HSBC, é inegável que as ações brasileiras estejam baratas neste momento, com um preço sobre lucro projetado para 12 meses em 6,6 vezes, mas é “improvável” uma reavaliação dos ativos até que a Selic caía ou o retorno de títulos de renda fixa diminua, o que pode não ocorrer antes do segundo semestre de 2025.
Fonte: Valor Econômico
