O fluxo de capital estrangeiro que tem se deslocado para a bolsa brasileira fez com que a participação desse investidor atingisse 58,3% de todo valor de mercado das empresas listadas. A fatia supera a média histórica e é a maior em pelo menos 20 anos. Os dados refletem a entrada desse capital na B3Cotação de B3, que no acumulado dos dez primeiros meses do ano está com saldo positivo de R$ 25,3 bilhões.
Estudo feito pelo Santander Brasil a pedido do Valor mostra que, no ano passado, a participação do estrangeiro estava em 55,8%, ante 54,7% em 2023. Neste ano, com a ajuda dos recursos que chegaram à bolsa, o Ibovespa bateu uma sequência de recordes, se aproxima dos 160 mil pontos e tem alta acumulada de mais de 30%.
O crescimento da participação do capital gringo tem chegado a empresas de todos os setores, mostra o levantamento, mas as maiores companhias têm se beneficiado especialmente de uma injeção de recursos. As empresas mais líquidas da bolsa brasileira, que são as mais negociadas, concentram o recebimento dos recursos estrangeiros que ingressaram na B3Cotação de B3 em 2025, segundo levantamento do BTG Pactual com as 21 companhias de maior giro diário. Nesse grupo, a participação dos estrangeiros passou de 70% no ano passado para 73% neste ano, o que representa R$ 508,2 bilhões do valor de mercado dessas companhias.
O estrangeiro tem deslocado parte dos recursos para países emergentes, na tentativa de diminuir parte de sua exposição aos Estados Unidos. “A discussão sobre uma possível bolha em inteligência artificial foi o tema da semana. Isso somado à volatilidade nos Estados Unidos, das tarifas comerciais ao impasse fiscal, faz com que os gestores globais busquem reequilibrar portfólios”, afirma o presidente da Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord), Rafael Furlanetti, que também é diretor institucional da XP. “Até um pequeno movimento de diversificação representa muito dinheiro entrando em países emergentes como o Brasil.”
Como fator de atratividade do país, ele menciona o diferencial de juros em relação aos mercados desenvolvidos.
“Não víamos tanto apetite de investidores estrangeiros em visitar o Brasil desde 2020 e 2021”, afirma o responsável pela área de renda variável do Santander Brasil, Pedro Costa. “E, tipicamente, quanto maior a empresa, mais atrativa ela é para os estrangeiros.”
De acordo com o executivo, o investidor ainda pode acelerar o ritmo de investimentos se houver alguma sinalização positiva sobre a saúde fiscal do país.
“Estamos vendo o investidor estrangeiro aumentar a exposição em mercados de fronteira”, afirma o sócio do BTG Pactual responsável pela área de renda variável, Fabio Nazari.
Segundo o executivo, a liquidez dos papéis é um ponto relevante para a atração desses recursos. “O dinheiro só entra pela porta em que vai conseguir sair”, diz. Para Nazari, é importante que as empresas olhem para sua liquidez para conseguir aproveitar o fluxo estrangeiro direcionado ao mercado brasileiro.
Anderson Brito, que comanda o banco de investimento do UBS BB, também destaca a importância da liquidez neste momento. Ele diz que os recursos estrangeiros que estão chegando à bolsa brasileira têm privilegiado as ações mais líquidas. “Temos visto os investidores institucionais de fora se posicionando em papéis de maior liquidez. Há algumas exceções, mas vemos prêmio de liquidez”, diz.
Evidência disso, de acordo com o executivo, é que, em um mesmo setor, as empresas mais líquidas têm sido negociadas com múltiplos mais elevados que as menores.
Como consequência, Brito afirma haver uma movimentação de empresas para fazer operações em busca de liquidez. Transações do tipo são olhadas de perto por aquelas que têm fundos de private equity no capital social, apostando que o aumento dos volumes pode ajudar na valorização do papel. “Percebemos que quando há private equities há uma visão mais pragmática sobre criar liquidez”, diz.
Historicamente, o mínimo de giro diário buscado pelos estrangeiros para entrar em um papel era de US$ 10 milhões, mas agora o fluxo tem se direcionado a companhias com liquidez bem maior, diz o responsável pela área de renda variável do Itaú BBA, Leonardo Linnet. Segundo ele, o capital não está, neste momento, chegando de forma homogênea às empresas.
De qualquer forma, diz Linnet, companhias com liquidez diária inferior a US$ 10 milhões podem colocar na mesa a possibilidade de aumentar o número de ações negociadas para conseguir atrair o fluxo estrangeiro e melhorar a base acionária. “Essa é uma provocação para empresas com liquidez mais baixa”, afirma.
Além do aumento do fluxo vindo de outros mercados, outro fator contribui para que a participação dos estrangeiros esteja proporcionalmente maior. Segundo Costa, do Santander, é preciso levar em conta que, desde 2024, os fundos multimercados e de renda variável no Brasil sofreram saques da ordem de R$ 500 bilhões com a migração dos recursos para renda fixa. Dessa forma, os investidores locais acabaram perdendo espaço, na contramão dos estrangeiros. À medida que os juros começarem a cair no país, e com o desempenho das ações chamando atenção, é esperado que haja mais apetite para tomar risco e parte do capital dos fundos volte à renda variável.
“O investidor local tende a tomar mais risco por conta do desempenho das ações”, diz a diretora de renda variável do Santander Brasil, Gabriela Evans.
Fonte: Valor Econômico
