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Ao olhar para os mais de 80 mercados que a Principal Asset Management monitora, o diretor-executivo e chefe global de investimentos da casa, Kamal Bhatia, diz que o investidor estrangeiro precisa “fazer a lição de casa para escolher os setores ou títulos certos” na hora de alocar no Brasil. Em visita ao país, o executivo conversou com o Valor e afirmou que a gestora classificou o Brasil como “amarelo”, ou seja, um país que não está caro e nem barato, mas que há empresas que podem estar supervalorizadas e outras subvalorizadas.
“Não acho que seja muito um jogo de setor, é preciso fazer um trabalho um pouco maior de análise fundamentalista”, diz, mesmo sem citar nomes específicos. Apesar disso, Bhatia vê que o Brasil pode se beneficiar de fluxos externos, diante do corte de juros iniciado pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano). Já no mercado externo, a casa está otimista com o setor industrial americano e com os Reits (Real Estate Investment Trust), veículos muito semelhantes aos fundos imobiliários brasileiros, de data centers.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Valor: Como o sr. vê o mercado brasileiro agora?
Kamal Bhatia: Quando entramos, tínhamos renda fixa, ações e macro. Nosso foco se tornou muito mais voltado para ações no Brasil. Do ponto de vista de investimento, ficamos muito centrados no segmento de investidores de varejo por muito tempo. Depois, expandimos o nosso negócio institucional. Estamos trabalhando muito mais com seguradoras e com bancos. Também trabalhamos mais com o segmento corporativo.
Valor: Por que as seguradoras?
Bhatia: A Principal era e continua a ser uma seguradora. Quando olho para a nossa base global de investidores, trabalhamos com algumas das principais seguradoras do mundo. Entendemos muito bem o segmento de seguros porque colocamos nosso próprio capital para trabalhar no segmento. As seguradoras também tendem a investir no setor imobiliário ou de crédito global, que costumamos ser muito bons.
Valor: O sr. vê oportunidade em algum serviço ou produto no mercado brasileiro?
Bhatia: Hoje não temos presença direta em mercados privados na América Latina ou no Brasil. Se eu fosse ter um item na minha lista de desejos, seria esse. Não atuamos diretamente no mercado imobiliário, de crédito e de infraestrutura privada na América Latina. Nós gerenciamos isso nos EUA, na Europa e na Ásia agora.
Valor: Por que nesses setores?
Bhatia: Acho que esses mercados vão crescer nessas áreas. No Brasil, o ‘private equity’ avançou muito. Em boa parte dos mercados, grande parte do private equity é controlado por pequenas famílias. Seja por razões de liquidez, planejamento sucessório ou mudanças no ambiente de mercado, esses negócios são oferecidos a compradores institucionais. Mesmo em um país como o Brasil, o mercado imobiliário se beneficiaria com a maior participação de grandes investidores globais, como nós. Isso criaria mais valor ao longo do tempo. Tenho a mesma opinião sobre o crédito privado. Mercados como o Brasil estão prontos para isso.
Valor: E o que precisa acontecer para começar a investir nessas áreas no Brasil?
Bhatia: O mercado e os reguladores precisam ser mais abertos à participação ativa de gestores globais neste mercado. Tem que existir um jogo equilibrado para gestores não brasileiros.
Valor: O Brasil está ganhando relevância no cenário internacional?
Bhatia: Acreditamos que há grande valor nas ações da América Latina, em geral. O Brasil apresenta algumas concentrações quando se observa seu mercado de ações, mas é possível ter mais diversificação quando você pensa em adicionar o México, Chile ou outros.
Valor: Como o Brasil é visto, dado o ambiente de taxas de juros?
Bhatia: Há claramente uma oportunidade de ‘carry trade’ [ganho com diferencial de juros] devido à diferença de taxas. Porém, o desafio com a renda fixa no Brasil é que ela não é tão atraente para compradores institucionais, dado o crescente déficit fiscal e a inflação um pouco mais alta e persistente. A criação de valor no Brasil é realmente ser um investidor de capital. Se a economia se mantiver estável ou em crescimento, acreditamos que o Brasil oferece um grande valor relativo do lado das ações. O país se tornou cada vez mais um mercado de renda fixa internamente e o valor líquido para investidores internacionais é maior do lado das ações.
Valor: É possível dizer que agora é ‘a hora do Brasil’?
Bhatia: Uma das análises que fazemos é olhar para os mercados e classificá-los em cores como vermelho, amarelo e verde. Vermelho significa que são caros em comparação com o histórico e com os fundamentos. Verde significa que eles estão muito baratos em comparação com o histórico e com os fundamentos. Amarelos significa que eles não estão baratos e nem caros. Você precisa fazer a lição de casa para escolher os setores ou títulos certos. O Brasil seria amarelo. A razão é que existem empresas aqui que podem estar supervalorizadas e outras que estão subvalorizadas. Não acho que seja muito um jogo de setor, é preciso fazer um trabalho um pouco maior de análise fundamentalista. Mas a economia está em um bom lugar. Ao olhar o histórico do preço/lucro, esse múltiplo também está na faixa inferior.
Valor: O Brasil vai conseguir atrair investidores estrangeiros?
Bhatia: A maior mudança que aconteceu no Brasil foi a saída significativa de fundos locais. Havia um mercado muito grande de gestores macro que estavam investindo ativamente em ações brasileiras. Isso mudou a dinâmica de onde as pessoas estão ou não investidas. Acho que muito dos fluxos de saída podem estar relacionadas a fundos fechando e o investidor retirando o capital. A minha visão é que o Brasil deve ser um beneficiário líquido de fluxos, porque o Fed está cortando os juros. O Brasil é muito interessante para pessoas que desejam guardar dinheiro por um prazo mais longo, mas não tenho certeza se é tão emocionante para investimentos de curto prazo.
Valor: Vimos um avanço das ações de ‘big techs’ americanas. Quais são as oportunidades no mercado americano?
Bhatia: O segmento que vemos muito mais valor relativo é o de empresas de pequeno e médio valor. Todo mundo conhece as ações de grande capitalização, que se saíram muito bem, mas não é possível dizer para onde vão. Em um ambiente de juros em queda, isso ajudaria a reduzir o custo de financiamento para empresas menores.
Valor: Quais setores poderiam se destacar?
Bhatia: O de ‘industrials’ [do setor industrial]. Todos nós mudamos para investir em empresas de ‘software’ e não em companhias que possuem fábricas e manufaturas. Há demanda pelo que eles produzem. Há apoio político e regulatório para reviver esse setor na maior parte do mundo. O setor passou por uma consolidação e as companhias ganharam poder de preço para que elas possam obter preços justos para o que estiverem produzindo.
Valor: Um dos investimentos que a casa vem aumentando é em Reits de data centers. Por quê?
Bhatia: O interesse em infraestrutura está aumentando globalmente. A primeira explicação envolve o que está acontecendo com a IA [inteligência artificial], particularmente a generativa, e a estrutura que será necessária para realizar transações e para montar os data centers. Outra questão é a quantidade de energia e o capital que precisarão ir para o setor de energia para fazer isso rodar. É uma tendência de longo prazo muito forte. E os ‘valuations’ de Reits têm estado baixos em comparação com os de ‘private real estate’. Acho os Reits muito interessantes no setor imobiliário.
Fonte: Valor Econômico
