Com o ciclo monetário no Brasil na contramão ao dos Estados Unidos, o real pode até experimentar um período de valorização em relação ao dólar, mas, com o fiscal ainda em xeque, não dá para se esperar uma apreciação consistente da moeda, segundo gestores de recursos que participaram de painel do ItaúCotação de Itaú BBA Macro Vision. Do lado mais pessimista, Mariana Dreux, da Itaú Asset, não descarta que a moeda bata os R$ 6.
Uma piora nos dados do setor externo, o enfraquecimento da economia chinesa e eleições nos Estados Unidos são alguns pontos de atenção.
“Estou negativo com a China e a China é importante para o Brasil. A minha visão é de enfraquecimento adicional para o real. Além disso, tem o próprio risco Brasil. Apesar de a Moody’s ter dado um ‘upgrade’ [aumento da classificação], eu tenho dado ‘downgrade’ [rebaixado] a cada notícia que sai”, disse Rogério Xavier, sócio-fundador e presidente do conselho da SPX Capital.
Tendo iniciado a carreira nos anos 80, ele contou que descobriu ali que o problema do Brasil não era a inflação, e sim o fiscal, situação que ainda perdura. “A inflação é a coitada, é a consequência do desatino dos governos”, afirmou Xavier. “Se não tiver as pontas equilibradas, esqueçam, o câmbio [dólar] vai andar, não tem jeito, é quase que uma profecia autorrealizável.”
Se até o ano passado o balanço de pagamentos mostrava números mais robustos, em 2024 o investimento estrangeiro direto será insuficiente para cobrir as necessidades de financiamento externo, disse o fundador da SPX. “[O país] vai precisar do dinheiro do ‘motel’ [o capital especulativo], aquele que vem para ganhar com diferencial de juros e vai embora; é mais um motivo porque os juros têm que permanecer num nível atrativo, para chamar capital externo.”
Bruno Serra, ex-diretor de política monetária do Banco Central (BC) e hoje à frente dos multimercados da família Janeiro, da Itaú Asset, citou que a conta de transações correntes neste ano vai fechar com US$ 30 bilhões faltando, por conta do aumento das importações. É um dado que impacta o câmbio, mas a política monetária também é decisiva para o câmbio. Ele citou os percalços da transição no BC e o aumento de estímulo fiscal, forçando a autoridade monetária a ser reativa.
Conforme descreveu, até a reunião de maio do Comitê de Política Monetária (Copom), o real tinha se depreciado cerca de 3,5%, para a casa dos R$ 5,10, mas depois do dissenso no colegiado, com os nomes indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva votando a favor de um corte maior de juro, a moeda se desvalorizou 8,5% a mais do que seus pares. O pico foi alcançado no início de agosto, antes de o BC começar a incorporar na sua comunicação a necessidade de uma elevação dos juros para manter a inflação sob controle.
“A política monetária voltando para o lugar, sanando a questão da transição do BC [com o discurso técnico de Gabriel Galípolo, que vai suceder Roberto Campos Neto], acho que tem espaço para o real ir bem no curto prazo”, afirmou Serra, fazendo a ressalva de que segue cauteloso pela falta de dinamismo nas economias da Europa e da China.
“Quando penso no real versus seus pares, como a moeda chinesa e outras latino-americanas, acho que tem uma janela de seis a nove meses para o real performar bem, é díficil ficar apostando num ‘carry’ [carrego] contrário”, comentou Serra. “O desafio é chegar ao fim de 2025 e discutindo o orçamento para 2026, ano eleitoral, vai ser a ‘prova do pudim’ da direção do país no médio prazo.”
Dreux comentou que o câmbio costuma ser um bom termômetro em Brasília, já que a classe política não tem muita sensibilidade com taxas futuras de juros ou com a inflação implícita. “Mas a ‘febre’ tem que ficar maior para mudar de direção. Há grandes chances de [o dólar] passar dos R$ 6 no curto prazo.”
Mesmo com um aumento de 0,50 ponto porcentual da Selic, para 10,75% ao ano, no mês passado, a economia tem crescido acima do seu potencial e com o mínimo desemprego, apontou Xavier. “Alguma coisa estranha está acontecendo e a resposta mais óbvia é buscar o lado fiscal como vilão.”
Estímulos parafiscais, com programas como o “Vale Gás” ou o “Pé de Meia”, um incentivo para estudantes que cumprem as etapas do ensino médio, se somam ao desejo do governo Lula de zerar o imposto de renda para quem ganha abaixo de R$ 5 mil. “São contas pesadas”, disse Xavier, e que vão na contramão do ajuste fiscal necessário para manter a inflação sob controle e permitir que a economia rode com juros mais baixos. “O ministro [da Fazenda, Fernando Haddad] falou no encaminhamento de medidas para indicar algo de corte de gastos, mas até agora foram só declarações.”
O gestor mostrou ainda preocupação com a contabilidade do setor público, com vários fundos criados, debaixo da gestão da Caixa, e que têm sido usados para “burlar o resultado fiscal”, a exemplo do Pé de Meia. “Por quê? Porque entra como despesa financeira e não gasto, é como se o governo tivesse alocado dinheiro para comprar cota de um fundo, mas não tem retorno, é a fundo perdido”, afirmou Xavier. “Não estou entrando no mérito se o jovem deveria ser apoiado por um programa de governo, mas está fazendo no programa errado, deveria aparecer no [resultado] primário e não está.”
Em mecanismos parafiscais, Xavier comentou que já circulam cerca de R$ 100 bilhões e que “não há visibilidade”.
“Não vejo vontade política de se atacar o gasto público, então [o Brasil] vai ter a taxa de juros que for necessária, em tese, para botar a inflação na meta. Não é por outra razão que a inflação embutida na NTN-B é de quase 6%.”
Para Serra, da Itaú Asset, o peso do impulso fiscal na economia parece que começa a perder força, mas é difícil achar o ‘timing’ disso, depende do canal em que se joga o estímulo, se por meio de corte de impostos, aumento de transferência de renda ou via subsídio.
“Mas, pelo menos, o número cheio começa a ficar mais condizente com o crescimento perto de 2,5% real que o arcabouço deve definir pela frente.” São dúvidas que, a seu ver, aos poucos tendem a ser esclarecidas. O BC, por sua vez, seguirá fazendo o seu trabalho e pode elevar a Selic em 2,5 pontos no atual ciclo.
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