A economia brasileira continua exibindo uma característica que se tornou familiar aos investidores nos últimos anos: resiliência suficiente para sustentar o crescimento, mas insuficiente para dissipar as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas. Foi esse o retrato traçado pela agência de classificação de risco Fitch Ratings ao reafirmar nesta terça-feira (16) a nota “BB” do Brasil, mantendo o país dois degraus abaixo do grau de investimento.
A decisão não surpreendeu o mercado. Mais relevante do que a manutenção da classificação foi a mensagem embutida no relatório: o Brasil permanece preso a uma combinação de crescimento moderado, rigidez fiscal e endividamento crescente que limita avanços mais ambiciosos na percepção de risco do país.
A avaliação da Fitch sugere que o principal desafio brasileiro já não está na capacidade de enfrentar turbulências de curto prazo, mas em demonstrar que consegue estabilizar suas contas públicas em um horizonte mais longo. Enquanto isso não ocorrer, o tão almejado retorno ao grau de investimento continuará distante.
A agência projeta que a dívida bruta ultrapassará a marca de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, um nível elevado para economias emergentes e significativamente acima da mediana dos países com classificação semelhante. Ao mesmo tempo, o déficit do governo geral deverá atingir 8,6% do PIB neste ano, refletindo não apenas o peso dos juros elevados, mas também a dificuldade estrutural de conter o avanço das despesas públicas.
O diagnóstico não é novo, mas ganha relevância em um momento em que o calendário eleitoral começa a influenciar as expectativas econômicas. Para a Fitch, as eleições presidenciais de outubro representam um divisor de águas para a percepção de risco do país porque podem definir não apenas a direção da política econômica, mas também a disposição do próximo governo para enfrentar temas historicamente sensíveis, como a revisão de gastos obrigatórios.
A agência avalia que um eventual novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenderia a preservar a atual orientação econômica, baseada na expansão de programas sociais e em uma tributação mais progressiva, com menor disposição para reformas profundas de contenção de despesas.
Já uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro poderia resultar em uma agenda mais orientada ao mercado, centrada em privatizações, eficiência dos gastos públicos e redução de impostos. Mesmo nesse cenário, contudo, a Fitch ressalta que a implementação dessas medidas seria cercada de incertezas políticas, especialmente diante da fragmentação do Congresso e das dificuldades históricas de aprovar reformas estruturais no país.
Enquanto as dúvidas sobre a política fiscal persistem, a inflação continua exigindo atenção. Depois de encerrar maio em 4,7%, a projeção da agência é que o índice alcance 5% ao final de 2026, ultrapassando novamente o teto da meta estabelecida pelo Banco Central.
A pressão inflacionária tem origem principalmente nos serviços, nos alimentos e nos efeitos dos choques globais de energia. Como consequência, a autoridade monetária deverá conduzir um processo de flexibilização monetária mais cauteloso. A Fitch estima que a Selic encerre o ano em 13%, sugerindo um ritmo de queda mais lento do que o esperado anteriormente pelos agentes financeiros.
PIB segue forte, mas desaceleração já está na conta
Mesmo sob juros elevados, a atividade econômica continua surpreendendo pela resistência. A agência prevê expansão de 2,1% para o PIB em 2026, após crescimento estimado em 2,3% no ano anterior. O desempenho continua sendo sustentado por um mercado de trabalho aquecido, desemprego próximo das mínimas históricas e ganhos reais de renda que preservam a capacidade de consumo das famílias.
Nesse contexto, a reforma do imposto de renda implementada em 2025 aparece como um fator adicional de estímulo. Ao ampliar a renda disponível das camadas de menor renda, grupo que tende a consumir uma parcela maior do que recebe, a medida ajudou a sustentar a demanda doméstica, mesmo em um ambiente de crédito mais caro.
A força do consumo, entretanto, não elimina os desafios de longo prazo. Para 2027, a Fitch prevê desaceleração do crescimento para 1,7%, refletindo tanto os efeitos retardados da política monetária quanto a perspectiva de redução dos estímulos fiscais.
Amortecedores da economia
Se o cenário doméstico inspira cautela, o ambiente externo continua sendo um dos principais amortecedores da economia brasileira. A agência destaca que o país mantém uma posição externa mais robusta do que a observada entre muitos de seus pares emergentes. O déficit em conta corrente permanece relativamente moderado e continua sendo integralmente financiado por investimento estrangeiro direto, considerado uma fonte de recursos mais estável.
As reservas internacionais, próximas de US$ 371 bilhões, também figuram entre os principais pontos fortes do balanço brasileiro. Somadas à baixa participação da dívida denominada em moeda estrangeira e à forte presença de investidores domésticos no mercado de títulos públicos, elas reduzem significativamente a vulnerabilidade a choques financeiros externos.
Fonte: Forbes Brasil