Por Assis Moreira — De Genebra
09/06/2022 05h00 Atualizado há 4 horas
A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) rebaixou sua projeção do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 0,6% neste ano e 1,2% em 2023. A entidade avalia que a eleição presidencial de outubro acrescenta “consideráveis incertezas” que podem amortecer o consumo e os investimentos. E prevê que a inflação continuará elevada em 2023 na maior economia da América Latina.
Em dezembro, a entidade sediada em Paris projetava expansão de 1,4% da economia brasileira em 2022 e de 2,1% em 2023. Agora, em seu mais recente relatório sobre as perspectivas econômicas, nota que a alta inflação, a guerra na Ucrânia e o aperto das condições financeiras têm corroído o sentimento econômico e poder de compra no país, o que tem prejudicado fortemente a demanda interna.
A OCDE nota que a inflação anual atingiu em abril quase 12%, maior taxa em 18 anos. As altas dos preços dos alimentos, combustíveis e energia erodiram significativamente o poder de compra das famílias. O índice de atividade industrial caiu ainda mais em abril.
Embora o emprego tenha se recuperado e o desemprego esteja caindo, a participação da força de trabalho, a parcela de trabalhadores e salários reais ainda estão abaixo dos níveis pré-pandêmicos. Os salários reais caíram no início de 2022. Em fevereiro, a renda real média para novos trabalhadores contratados caiu 1,1% comparado ao ano anterior, segundo a OCDE.
A entidade prevê que a política monetária continuará em modo aperto, enquanto a política fiscal se expande. Diz esperar que a taxa Selic, que atingiu 12,75%, aumente para 13,25% na próxima reunião do Banco Central, uma vez que as expectativas de inflação do mercado continuam a aumentar. Para a OCDE, a taxa Selic é projetada para permanecer em 13,25% até o início de 2023 e depois cair lentamente durante o ano, na medida em que o efeito dos recentes aumentos forem finalmente sentidos.
A OCDE avalia que os fortes preços de commodities estão apoiando os resultados fiscais a curto prazo. As receitas do petróleo, provenientes de royalties e dividendos, estão beneficiando tanto o governo central quanto os governos estaduais. A inflação também está impulsionando a coleta de impostos federais e estaduais. No entanto, diz esperar que os gastos públicos aumentem em 2022, impulsionados por maiores transferências sociais com o novo programa Auxílio Brasil, ajustes nos salários dos funcionários públicos, e uma postura fiscal expansionista em 2022. “Aumentos permanentes nas despesas públicas representam uma ameaça às perspectivas fiscais a longo prazo, especialmente dada a regra do limite de gastos.”
A OCDE insiste que reformas ambiciosas são necessárias para aumentar o crescimento e preservar as finanças públicas, e evitar que as taxas de pobreza aumentem. Reitera também que leis para prevenir o desmatamento ilegal precisam ser aplicadas, para proteger os recursos naturais, como a floresta tropical amazônica. Alerta que a forte dependência da energia hidrelétrica tem mostrado seus limites e, como a demanda por eletricidade continua a aumentar, as fontes renováveis alternativas terão de ser exploradas. Diz que as fontes eólicas e solares apresentam um potencial significativo inexplorado no Brasil. Aumentar os investimentos nos sistemas de transporte público urbano beneficiaria os trabalhadores de baixa renda, ao mesmo tempo em que reduziria a dependência do automóvel e poluição do ar.
Fonte: Valor Econômico
