Por Alex Ribeiro — De São Paulo
09/06/2022 05h00 Atualizado há 4 horas
Os analistas econômicos do mercado financeiro começaram a discutir se o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deveria reavaliar o seu balanço de riscos para a inflação, depois que o governo anunciou a intenção de furar o teto de gastos para reduzir o preço dos combustíveis neste ano eleitoral.
Nas suas duas últimas reuniões, o Copom ficou menos pessimista com a situação fiscal, e por isso passou a pesar menos nas suas decisões de política monetária o perigo de o descontrole das contas públicas levar a uma inflação mais alta do que o projetado para o ano que vem.
Em março, o colegiado concluiu que o balanço de riscos para a inflação pendia menos para o lado negativo, alegando que os dados fiscais correntes se saíram melhores do que o esperado e que uma boa parte desses riscos havia sido incorporada na cotação do dólar e nas expectativas de inflação. Em maio, por razões semelhantes, disse que o balanço de riscos ficou equilibrado.
O reequilíbrio no balanço de riscos ocorreu em desacordo com a visão da maioria do mercado. A pesquisa pré-Copom feita às vésperas da reunião de março mostrou que 50% dos analistas econômicos avaliaram que a situação fiscal havia piorado naquele momento, ante 22% que disseram que havia melhorado. Os demais 28% opinaram que não tinha havido alteração.
Devido à greve dos funcionários do Banco Central, os resultados do questionário pré-Copom de maio não foram divulgados. O BC encaminhou um novo questionário para o mercado para sondar as opiniões para a sua reunião da semana que vem.
Nos seus documentos oficiais, o Banco Central tem pedido ao mercado financeiro “serenidade” para avaliar os riscos fiscais, num ambiente que considera de bastante incerteza. Muitos, porém, dizem que a melhora nos dados de curto prazo é prejudicada pela destruição da âncora fiscal.
A deterioração fiscal depois da nova iniciativa “fura-teto” ficou clara com a rodada de pressão na taxa de câmbio e, sobretudo, com a alta dos juros de longo prazo, que significa um aumento do prêmio pedido pelos investidores para comprar os títulos do Tesouro Nacional.
Uma eventual revisão no balanço de riscos teria implicações para a política monetária. Atualmente, o Copom está manejando os juros com vistas a cumprir a meta de inflação de 2023. Pela projeção mais recente da autoridade monetária, divulgada na reunião de maio, a inflação de 2023 deverá ficar em 3,4%, acima do centro da meta, de 3,25%.
O mercado, porém, já estima uma inflação de 4,39% em 2023, depois que foram divulgados índices mais salgados referentes a abril e maio. É possível que as projeções do Banco Central também sejam revistas para cima.
Se o BC reconhecer a piora no balanço de riscos, tornando-o novamente assimétrico, significaria que a inflação esperada pelo colegiado seria ainda maior, já que as chances de ela superar o projetado pelo modelo seriam maiores do que ficar abaixo.
Isso, por sua vez, em tese exigiria uma dose ainda mais forte de juros para colocar a inflação na meta dentro do horizonte relevante de política monetária.
Entre os analistas, porém, há muito ceticismo de que o BC possa rever o balanço de riscos para a inflação. A autoridade monetária deu vários sinais de que está próxima do fim do ciclo de aperto e, num quadro de inflação surpreendendo para cima, provavelmente não irá buscar novas razões para subir ainda mais os juros.
Fonte: Valor Econômico