26 Apr 2023 LUCAS AGRELA
Em um ano marcado pela redução de investimentos em startups, com fundos de capital de risco mais criteriosos na seleção de portfólio, grandes corporações aproveitam para ampliar o trabalho que fazem com essas plataformas. Desde 2020, companhias tradicionais pisaram no acelerador para criar programas de investimento em empresas nascentes – ou de Corporate Venture Capital (CVC), no jargão do mercado.
Segundo dados globais das consultorias Pitchbook e Galaxy Venture Capital, o número de acordos tanto entre startups e companhias tradicionais quanto entre startups e fundos cresceu 42%, cada um, de 2020 para 2021. Condições macroeconômicas como inflação e alta de juros provocaram uma queda de operações no ano seguinte, mas essa queda não foi uniforme. Enquanto os acordos com fundos de venture capital caíram 25%, os envolvendo o instrumento de CVC tiveram queda de apenas 2%.
Diversos nomes conhecidos no Brasil já têm programas de CVC, entre eles, Albert Einstein, Itaú, Banco do Brasil, Santander e Sinqia.
Pedro Bramont, diretor de negócios digitais do BB, diz que as startups na mira são negócios ligados a finanças, cidades inteligentes, agronegócio e tecnologia para empresas. O investimento mais recente do BB Ventures, fundo gerido pela MSW Capital, foi de R$ 4 milhões na startup Payfy, que tem uma plataforma de gestão de gastos corporativos.
A empresa de tecnologia financeira Sinqia também mantém um programa de inovação com um fundo de CVC chamado Torq. A iniciativa é voltada a melhorar processos de instituições financeiras e, desde 2018, já investiu direta ou indiretamente em 150 startups. Só nos últimos dois anos, foram R$ 50 milhões investidos.
Mas não só o segmento financeiro tem atraído investidores corporativos. O setor de saúde também está na mira. O Hospital Israelita Albert Einstein tem seu próprio programa de CVC para realizar aportes nas chamadas healthtechs.
Rodrigo Demarch, diretor executivo de inovação do Einstein, conta que a área de inovação do hospital já tem mais de dez anos. O fundo de investimento em startups foi estruturado em 2021, e já faz a gestão de cerca de 30 startups.
No setor de telecomunicações, o investimento em inovação é condição para a evolução dos negócios. Por isso, a operadora Vivo trabalha com startups há cerca de dez anos, inicialmente com a aceleradora Wayra. Desde 2018, a empresa passou a investir em startups com foco em negócios em estágio inicial.
A empresa tem hoje 26 startups no portfólio, mas, se for considerado desde 2012, o número total chega a 85. O fundo Vivo Ventures em si, um FIP de R$ 320 milhões, só nasceu em 2022. Neste ano, esse programa de CVC da Vivo estima que fará mais 11 investimentos em startups.
Os especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que as startups na mira de CVC em 2023 são aquelas que têm negócios de inteligência artificial (IA), blockchain, saúde, fintechs e logística.
Há ainda percepção de que o mercado brasileiro de startups pode passar por um período de consolidação, do qual as grandes empresas podem se beneficiar.
AMEAÇA. “A empresa consciente da importância da inovação é como um forno de siderurgia: não pode deixar o fogo apagar”, diz Marcos Olmos, sócio e diretor de venture capital na Vox Capital. A Vox é a gestora que cuida dos programas de CVC do Hospital Israelita Albert Einstein e do BB.
“As empresas viram a genialidade do funcionamento de uma startup bem financiada”, diz Diego Perez, presidente da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs). Além das vantagens, há o temor de novos concorrentes. Os dados mostram que as empresas se preocupam mais com a disrupção e novos negócios”, diz Rodrigo Carneiro, cofundador da SMU Investimentos e da Carrera Capital.
Na visão de André Bolonhini, da consultoria Bain & Company, o aumento de investimentos em startups fez com que elas se tornassem ameaças para as empresas tradicionais, que escolheram como opção se unir às empresas nascentes.
“A digitalização das cadeias fez surgir mais tecnologias que ameaçam os grandes negócios. Passamos por um momento de bastante investimento, o que fez aflorar soluções reais. Isso fez as corporações buscarem as startups”, diz. •
União Grandes empresas não só veem chance de soluções, mas também afastam o risco de novos rivais
Fonte: O Estado de S. Paulo