Moderna e Pfizer devem trazer ao país imunizantes com foco tanto na cepa original do coronavírus quanto da variante ômicron
Por Marcos de Moura e Souza — De São Paulo
18/08/2022 05h00 Atualizado há 5 horas
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Alexandre Seraphim: “A gente está andando rápido; é um processo muito complexo” — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Uma nova geração de vacinas contra covid-19 poderá chegar ao Brasil nos próximos meses. A farmacêutica americana Moderna e sua parceira no Brasil, a Zodiac, iniciaram em março contatos com Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As empresas trabalham com a perspectiva de que no início de 2023 seu novo imunizante esteja disponível no país.
A Pfizer também trabalha para trazer ao mercado brasileiro seu imunizante com fórmula atualizada e espera submeter ainda neste mês à Anvisa a solicitação para liberação do medicamento.
Os dois laboratórios desenvolveram para o mercado global a chamada vacina bivalente, desenhada para atacar a variante ômicron, que se tornou dominante em vários países inclusive no Brasil, e também para atacar a cepa original do coronavírus. Até agora, todas as vacinas são baseadas apenas na cepa original. A vacina bivalente promete ser mais eficaz.
Nesta semana, o Reino Unido se tornou o primeiro país a aprovar a vacina bivalente da Moderna para ser aplicada como dose de reforço no outono do hemisfério Norte. O novo imunizante está em processo de análise por autoridades sanitárias de EUA, Canadá, Austrália, países europeus e latino-americanos.
Moderna e Pfizer trabalham com a tecnologia de RNA mensageiro. Em vez de usar o vírus atenuado ou inativo, essa tecnologia “ensina” o organismo a sintetizar uma proteína que estimula o sistema imunológico a responder ao vírus. A tecnologia pode ser atualizada mais rapidamente.
A vacina bivalente da Pfizer marcaria, portanto, uma segunda etapa da atuação da empresa no Brasil no combate à covid-19.
No caso da Moderna, uma vez que a empresa tenha aval da Anvisa para comercializar sua vacina Spikevax Bivalente, será sua estreia no mercado brasileiro.
Para atuar na América Latina, a Moderna firmou em fevereiro parceria com o grupo farmacêutico Adium, com sede no Uruguai e de capital argentino. Pelo acordo, o Adium passou a ser o braço operacional da Moderna na região, responsável pela solicitação de registro junto às autoridades sanitárias, pela logística, pelo trabalho de informação aos médicos e pelo diálogo com ministérios da Saúde. No Brasil, a operação está cargo da subsidiária do Adium, a Zodiac – que opera há 31 anos no país.
“A gente está andando rápido. É um processo muito complexo, tem tecnologia de ponta envolvida e a Anvisa é uma das melhores agências regulatórias do mundo e, portanto, bastante exigente”, disse ao Valor, Alexandre Seraphim, gerente geral da Zodiac no Brasil.
“Temos conversado com a Anvisa, recebido material da Moderna e estamos confeccionando o documento [sobre a nova vacina] para submeter à Anvisa nos próximos meses”, disse. Seraphim diz levar em conta um cenário no qual no início de 2023 a nova vacina da Moderna esteja disponível no Brasil. “Estamos pedindo autorização em caráter emergencial”, afirmou. “A partir da aprovação, a disponibilidade é rápida.”
O executivo disse que a empresa já começou a conversar também com os técnicos do Programa Nacional de Imunizações para que a vacina da Moderna seja incluída no programa do governo federal.
A vacina que a Moderna planeja trazer ao Brasil será voltada para quem tem mais de 18 anos. Estudos sobre a vacina bivalente para crianças ainda estão sendo feitos.
As vacinas da Moderna virão prontas para uso. A Moderna tem sete fábricas e mais de 1 bilhão de pessoas já foram imunizadas com a vacina tradicional contra covid da empresa em 70 países. Uma vacina que contemple subvariantes está no horizonte das duas empresas.
A Pfizer no Brasil informa que considera enviar nos próximos dias à Anvisa os dados dos testes de sua vacina bivalente. “Esperamos submeter ainda em agosto à Anvisa a vacina ComiRNAty bivalente adaptada BA.1 para avaliação regulatória”, disse a companhia por nota.
Em relação à chegada ao Brasil da vacina bivalente da Pfizer, a empresa diz que essa “estimativa dependerá das análises regulatórias, bem como da definição junto ao Ministério da Saúde”. E acrescenta. “O contrato de fornecimento de vacinas da Pfizer ao Brasil atualmente vigente inclui entrega de potenciais vacinas adaptadas para diferentes faixas etárias.”
A diretora médica da Zodiac, a imunologista Glaucia Vespa, lembra o que parece ser a percepção dominante entre especialistas em saúde que, apesar da melhora da pandemia, o coronavírus seguirá circulando. “Nós estamos numa fase da transição. Temos o período pandêmico e devemos chegar ao período sazonal [da covid-19]. Agora estamos vivendo esse período de transição”, afirma. “E ainda que possa haver discussões [sobre a evolução da pandemia], o que se tem claro é que o Sars-Cov-2 veio para ficar e vai continuar com a gente.”
No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, 178,7 milhões de pessoas tomaram a primeira dose; 159,9 milhões tomaram a segunda. A dose de reforço foi aplicada em 104,7 milhões. A segunda dose de reforço, no entanto, atingiu um público bem menor até agora: 19 milhões. E a dose adicional, apenas 4,8 milhões.
O Brasil seguirá vacinando sua população em 2023 – assim como fará a maior parte dos países. E fabricantes das novas vacinas bivalentes se veem em condição mais competitiva para atender a essa demanda do ano que vem.
Thiago Barbosa, diretor de vacinas da Zodiac, afirma que uma visão para 2023 é que haverá um posicionamento global por um reforço de vacinas bivalentes. “Vejo um desafio grande no próximo ano em relação à disponibilidade de vacina para todo o globo, pensando em duas companhias que estariam com vacinas prontas que levam em conta a questão da ômicron”, disse. Ele acrescenta que a companhia vem trabalhando para atender a essa demanda futura do Brasil e da região.
“O Brasil é o segundo maior marcado do mundo de vacinas, incluindo vacinas de covid, em faturamento. Ocupava a quarta posição no cenário global antes da pandemia no mercado público e privado e alcançou a segunda posição. Em volume, o Brasil era o segundo e mantém a segunda posição”, afirma. “É um país extremamente estratégico para qualquer organização que queira desenvolver uma plataforma de vacinação.”
Fonte: Valor Econômico
