Por Sarah White e Leila Abboud — Financial Times, de Paris
06/03/2023 05h02 Atualizado há 4 horas
As empresas dos EUA estão começando a reduzir sua dependência das cadeias de suprimentos chinesas e buscando rotas marítimas alternativas na Ásia, diante da deterioração nas relações entre as duas superpotências, diz o presidente de uma das maiores empresas de contêineres do mundo.
Rodolphe Saadé, presidente-executivo da CMA CGM da França, prevê que a reformulação levará vários anos porque potenciais beneficiários como a Índia, ou países do Sudeste da Ásia como Vietnã e Tailândia, ainda carecem da infraestrutura para acomodar os maiores navios de contêineres.
“Clientes estão nos dizendo que não querem colocar todos os ovos na mesma cesta na China, de modo que eles estão buscando outras soluções”, disse Saadé.
“O movimento começou, mas ainda não envolve grandes volumes. Isso levará tempo. Talvez em cinco ou dez anos, se a Índia e o Sudeste da Ásia construírem terminais portuários que possam acomodar grandes navios, então, terão um papel diferente e maior”, acrescentou. Ele não citou o nome de nenhuma empresa americana.
A pandemia da covid-19 e a invasão da Ucrânia pela Rússia mostraram o risco das cadeias globais que sustentam tudo, da energia aos suprimentos médicos.
A motivação para as empresas examinarem suas cadeias de suprimentos na China foi intensificada pelos temores com as consequências econômicas e políticas, caso Pequim ordene uma invasão de Taiwan, um país democrático sobre o qual a China reivindica soberania há muito tempo.
As companhias de navegação têm sido uma das maiores beneficiadas da globalização, mas agora enfrentam o fim abrupto de um “boom” de três anos que proporcionou lucros recordes.
As perturbações causadas pela pandemia, que elevaram os fretes, vêm diminuindo com o fim das restrições da covid-19 e a redução do gastos dos consumidores.
Essa desaceleração fez com que a CMA CGM registrasse sua primeira contração desde o boom induzido pela pandemia, com as receitas caindo 3,6% no quarto trimestre, para US$ 16,9 bilhões. Os lucros também recuaram para US$ 3 bilhões, com as margens encolhendo de 46% no terceiro trimestre do ano passado para 33,7%.
A AP Møller-Maersk e a MSC Mediterranean Shipping Company também foram afetadas pela acentuada queda nas taxas dos fretes nos últimos seis meses. Nas rotas da China para a costa oeste dos EUA, estão 85% abaixo do pico.
O setor de transporte marítimo é muito suscetível aos ciclos de expansão e queda. “Depois do que experimentamos nos últimos dois anos e meio, qualquer coisa que acontecer depois disso será um pouso duro”, disse Saadé.
O boom ajudou a CMA CGM a registrar um lucro líquido recorde de US$ 24,9 bilhões no ano passado, enquanto a receita cresceu 33% para US$ 74,5 bilhões. As margens de lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) foram de quase 45% no ano passado, em comparação a 12,4% em 2019, antes da pandemia.
Saadé disse que cerca de 10% do lucro consolidado será distribuído como dividendos, com o restante reinvestido nos negócios. Como a família de Saadé controla 73% do grupo, eles foram muito beneficiados com boom do transporte marítimo. A família possui um patrimônio líquido de quase US$ 24 bilhões, segundo a Bloomberg.
O grupo não fornece orientações específicas, mas Saadé prevê que a CMA CGM voltará a ter lucro neste ano, acrescentando estar otimista de que os EUA conseguirão evitar uma recessão.
Mas o próximo ano poderá ser mais difícil, pois as companhias de transporte marítimo receberão novas embarcações equipadas para atender os padrões ambientais mais rígidos, o que poderá causar um problema de excesso de capacidade, segundo ele.
Como outros executivos do setor, Saadé diz que um afastamento da China, especialmente das empresas dos EUA, não sinaliza o fim da globalização, e sim uma evolução em direção a cadeias de suprimentos mais regionalizadas.
Rolf Habben Jansen, presidente-executivo do grupo de transporte marítimo alemão Hapag-Lloyd, disse na semana passada que a Índia poderá ser uma das maiores beneficiadas. “Muitos estão olhando para a Índia como uma alternativa ou uma adição à China”, disse.
Assim como seus concorrentes, a CMA CGM vem usando o dinheiro acumulado durante o boom para financiar uma onda de aquisições. Ela adquiriu mais infraestrutura portuária e está se diversificando com um grande esforço na área de logística, incluindo operações de entrega de “última milha”, assim como outras formas de frete como cargas aéreas. Ela comprou uma participação de 9% na Air France-KLM como parte de uma parceria com a companhia aérea.
“Continuaremos fazendo aquisições em nossos principais negócios”, disse Saadé. (Colaborou Oliver Telling)
Fonte: Valor Econômico


