Bancos e empresas de mercados emergentes estão fazendo captações com emissão de dívida no maior ritmo desde 2021, conforme a demanda dos investidores por títulos do Tesouro dos EUA cai para o menor nível desde 2007. Esses tomadores emitiram pelo menos US$ 250 bilhões entre janeiro e julho, num volume próximo ao visto em 2021, quando as emissões dispararam durante a pandemia, de acordo com dados do J.P. Morgan e da S&P Global.
Os mercados globais de ações e dívida estão levando as empresas a aproveitarem a redução nos custos dos empréstimos, já que os investidores apostam que as tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump, causarão menos danos à economia global do que se temia.
Apesar da crescente disposição de Trump em lançar ameaças tarifárias contra grandes países em desenvolvimento, como Índia e Brasil, os compradores de títulos globais estão cada vez mais confiantes de que as taxas de juros dos EUA cairão nos próximos meses, à medida que Trump pressiona o Federal Reserve (Fed, banco central americano).
“O mercado está começando a precificar um Fed mais acomodatício… muitas empresas que estavam à margem estão acelerando seus motores”, disse Alan Siow, codiretor de dívida emergente da gestora de ativos Ninety One.
O rendimento geral de um índice de referência do J.P. Morgan para títulos corporativos emergentes ainda é de cerca de 6%, mas com a alta dos rendimentos dos títulos americanos este ano, o “spread” sobre os títulos do Tesouro de 10 anos – o prêmio que os investidores exigem para manter dívidas mais arriscadas – caiu para menos de 2 pontos percentuais pela primeira vez em quase duas décadas. O spread sobre os títulos do Tesouro de dívidas corporativas de alto rendimento e mais arriscadas de mercados emergentes também diminuiu.
Analistas do J.P. Morgan preveem que o total de emissões de dívida corporativa internacional fora da China em 2025 chegará a US$ 370 bilhões, pouco abaixo do total de 2021. Incluindo emissores chineses, a estimativa sobe para US$ 433 bilhões, mas espera-se que os pagamentos de dívida sejam maiores do que isso e já superaram a nova oferta este ano em US$ 8 bilhões.
“Os dois anos mais fortes na história da oferta de dívida corporativa de mercados emergentes foram 2020 e 2021”, e este ano está a caminho de acompanhar este último, mas as dívidas decorrentes do boom de emissões da pandemia também estão vencendo, disse Siow.
“O que está por trás disso é que, no acumulado do ano, a oferta líquida é negativa”, disse ele, após anos recentes em que as taxas de juros globais estavam altas e as empresas se aventuraram menos nos mercados para refinanciar dívidas.
A China já dominou as vendas internacionais de títulos corporativos em mercados emergentes, antes de uma crise da dívida atingir as incorporadoras do país a partir de 2021 e os tomadores de empréstimo recorrerem aos mercados onshore, onde as taxas de juros despencaram.
Com mais de US$ 160 bilhões até agora neste ano, os governos dos mercados emergentes estão vendendo dívida internacional em ritmo mais acelerado do que em 2020, ano recorde para emissões, de acordo com dados do J.P. Morgan. O governo e os bancos da Arábia Saudita têm sido particularmente grandes vendedores de dívida em dólar este ano, já que o reino recorreu a empréstimos para financiar um aumento no investimento doméstico e para superar uma calmaria nas receitas do petróleo.
O governo mexicano recentemente conduziu uma emissão recorde de US$ 12 bilhões em títulos para ancorar um resgate parcial à Pemex, a empresa estatal de petróleo. Apesar das recentes ameaças de Trump de tarifas de 50% sobre a Índia e o Brasil devido a disputas políticas com ambos os países, “eu descreveria o mercado como surpreendentemente otimista” em relação às tarifas, disse Siow.
“Esses anúncios são assustadores se se concretizarem, mas o mercado está ignorando”, em parte devido aos “detalhes” das isenções para exportações importantes para os EUA, acrescentou.
Fonte: Valor Econômico