A Guerra no Irã completa dois meses neste dia 28 de abril. No mercado financeiro, o saldo do conflito se estende para diversos ativos: bolsas, dólar, ouro e sobretudo o petróleo reagiram fortemente às movimentações durante a guerra.
A relação entre o conflito o desempenho dos ativos fugiu do óbvio: via de regra, ativos seguros, como ouro e dólar costumam ser mais buscados nesse momento de incerteza, enquanto a bolsa é evitada, devido à volatilidade. Mas, supreendentemente, o que aconteceu foi o contrário.
O dólar recuou nesse período. No Brasil, a divisa chegou na casa dos R$ 4,974 no dia 20 de abril e, neste dia 27 de abril, fechou a R$ 4,982. Já o ouro, que estava cotado a US$ 5.311,60 no primeiro pregão após o início da guerra, no dia 2 de março, recuou e fechou US$ 4.697,70 por onça troy nesta segunda-feira, acumulando queda de aproximadamente 11,5% nos dois meses de guerra.
Já as bolsas, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, renovaram recordes nesse período. Nesta segunda-feira, Nasdaq fechou com alta de 0,20% aos 24.887,10 pontos, enquanto S&P valorizou 0,12% aos 7.173,97 pontos. Já o Ibovespa registrou leve perdas, recuando 0,61%, aos 189.578 pontos.
O índice chegou muito perto dos 200 mil pontos e agora está longe dessa máxima. Ainda assim, registra um leve ganho em relação ao começo da Guerra, pois estava com 188.787 pontos quando os bombardeios começaram.
O único ativo que se comportou conforme o esperado foi o petróleo, que disparou, com o barril do Brent, referência global, chegando perto da casa dos US$ 120, em US$ 118,35 no dia 31 de março. Na sessão deste dia 27 de abril, o petróleo Brent para junho encerrou o pregão a R$ 108,23 por barril.
O comportamento atípico da maioria dos ativos tem explicação. Segundo especialistas, inflação, liquidez e quebra de padrões clássicos é o que explicam algumas dessas movimentações.
Ouro recuou na guerra
O ouro recuou durante a Guerra no Irã e um dos principais motivos disso foi a forte valorização do metal ao longo dos meses anteriores à Guerra. No pico do ano, por exemplo, a onça troy valia US$ 5.318,40 no dia 29 de janeiro. Essa alta, por sua vez, foi impulsionada pela compra de bancos centrais ao retor do mundo e, depois, por um ‘efeito manada’ de pessoas físicas, explica Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos.
“O ouro já andou num patamar que o mercado acredita que seja suficiente e, em um cenário de maior previsibilidade, pode recuar ainda mais. Mas num fortalecimento do conflito, a performance pode ser de alta – mas não no patamar que existiu lá atrás, porque grande parte do movimento já foi realizado”, diz Trotta.
Existe outro fator que colabora para a queda do ouro: a alta do petróleo. A commodity se valorizou fortemente nesses dois meses de guerra e influenciou expectativas de inflação ao redor do mundo. Com as revisões altístas, os títulos do tesouro americano passam a ser mais atrativos do que o ouro, que não tem rendimentos, o que faz o capital migrar para lá.
“Esse cenário de escassez do petróleo fará a inflação global subir demasiadamente, o que se reflete na tendencia de alta de juros, principalmente nos Estados Unidos. Isso segurou a alta do ouro. Mas a qualquer sinal de acordo do conflito Estados Unidos e Irã, a cotação voltará a subir podendo atingir novos recordes”, comenta Mauriciano Cavalcante, economista da Ouriminas.
Petróleo subiu 63% no pico
O grande protagonista da Guerra no Irã é o petróleo, que subiu 63,29% do começo da guerra até o pico de alta no dia 31 de março. Isso porque o Estreito de Ormuz, onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, foi fechado, se tornando uma das maiores interrupções da oferta de petróleo da história, com muitos navios parados na região, explicam especialistas ouvidos pela EXAME.
Os próprios dados da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam perdas estimadas entre 8 e 11 milhões de barris por dia. Com o temor de escassez global, derivado do fechamento do estreito somado aos cortes de produção, o resultado foi um “prêmio de risco” elevado.
No Brasil, entretanto, o repasse para os combustíveis foi parcial e amortecido, segundo Lucas Lima, analista chefe da VG Research.
“A Petrobras (PETR3; PETR4) abandonou a paridade internacional automática (PPI) em 2023 e passou a adotar reajustes graduais, absorvendo parte do choque para proteger o consumidor interno. Houve aumentos, mas bem menores que a alta internacional. Atualmente, a defasagem do preço da gasolina já atinge cerca de 55%”, pontua.
A companhia se beneficiou porque a maior parte do resultado operacional da empresa vem de exploração e produção, representando quase 80% do Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) consolidado. Como a empresa possui custos bastante competitivos, ela captura valor com a alta do petróleo.
“Além disso, a Petrobras tende a ser mais beneficiada porque faz pouca proteção de preços (travamento de vendas futuras), ficando mais exposta à variação do petróleo. Já PetroReconcavo (RECV3) e Brava (BRAV3) foram menos beneficiadas porque adotam uma estratégia mais intensa de proteção de preços, o que reduz o ganho quando há alta na cotação do petróleo”, destaca Lima.
O choque também elevou as expectativas de inflação. Atualmente, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está próximpo de 5%. O último Boletim Focus apontou uma revisão de 4,80% para 4,86%, marcando a sétima alta seguida, enquanto a projeção para 2027 subiu para 4%. “O choque foi forte, mas ainda vem sendo parcialmente amortecido pela Petrobras e pelo governo”, aponta.
Para os preços do petróleo recuarem, teria que ocorrer um cessar-fogo mais concreto e respeitado – fato que não vem acontecendo. Para a VG Research, a commodity não deve voltar aos patamares pré-conflito, próximos de US$ 60 por barril.
“Mesmo com um cessar-fogo e eventual fim da guerra, o mercado deve continuar exigindo um prêmio de risco geopolítico. Além disso, muitos países tendem a recompor suas reservas estratégicas, o que deve manter os preços em níveis mais elevados”, conclui Lima.
Dólar rompeu o padrão
O comportamento do dólar durante esses dois meses de conflito foi fora do padrão clássico – ele se desvalorizou. Normalmente, a divisa é procurada como ativo seguro em momentos de incertezas, é o chamado “flight to safety”.
Entretanto, dessa vez foi diferente. Em vez de uma valorização expressiva e contínua, a moeda americana operou de forma relativamente estável frente às principais divisas, com o índice do dólar oscilando em uma faixa estreita, sem tendência definida. O DXY, que mede a força do dólar frente a uma cesta de divisas de países desenvolvidos, saiu de 97,61 para 98,47 pontos entre 27 de fevereiro, um dia pré-conflito, e 28 de abril.
“Movimento este que reflete, em primeiro lugar, a avaliação o mercado de que, apesar da gravidade geopolítica, o choque não se traduziu em um risco sistêmico para o funcionamento do sistema financeiro global”, explica explica Marcio Ariana, head da mesa de operações da StoneX Banco de Câmbio.
Ele continua: “Não houve ruptura relevante nos mercados de liquidez, no funding em dólar ou nos mecanismos de financiamento internacional, fatores estes que, historicamente, são os principais gatilhos para uma forte demanda defensiva pela moeda americana.”
Aqui no Brasil, o dólar rompeu a barreira dos R$ 5 recentemente, em uma mistura de fatores externos mas, principalmente, internos, que atuam de forma favorável mesmo em um ambiente volátil internacionalmente. O principal vetor? O elevado e atrativo diferencial de juros praticado no Brasil, que seguiu exercendo forte atração sobre fluxos financeiros gringos.
Dados da B3 mostram que, até 20 de abril, investidores internacionais aportaram R$ 65,3 bilhões na bolsa brasileira em 2026, mantendo participação dominante de 61,2% no volume negociado.
“Em um cenário global sem estresse sistêmico, o mercado voltou a priorizar estratégias de carrego, favorecendo moedas com juros reais elevados e arcabouço monetário mais previsível, fatores estes que mantiveram o real competitivo dentro do universo de moedas emergentes”, destaca Ariana.
Quem se saiu na frente como ativo seguro foi outra moeda: o franco suíço e, claro, o Tesouro americano, o que reduziu o impacto direto dessas alocações sobre o câmbio. Mas também os emergentes foram beneficiados, justamente devido “ao atrativo carry trade de juros, onde aqueles menos avessos ao risco conseguiram surfar melhor nos rendimentos”, fazendo com que a estratégia se sobressaísse ao risco geopolítico.
Para onde vai o dólar? No momento, o mercado trabalha com um viés mais equilibrado, mas com riscos assimétricos levemente inclinados para uma alta do dólar no curto prazo, ainda que movimento adicionais de queda não estejam descartados, diz o especialista da StoneX.
“Mas rapidamente o dólar poderá recuperar o papel central de moeda de financiamento global. Dentre os riscos altistas destaco também surpresas no processo da política monetária americana, como adiantamentos de cortes de juros ou discursos mais cautelosos pelo Fed, o que tendem a reeditar movimento de apreciação do dólar.”
Bolsas bateram recordes
Ibovespa
A ideia de que, durante questões geopolíticas, os investidores fogem de ativos de risco e procuram a renda fixa parece que não valeu para o atual momento. O Ibovespa bateu cinco recordes durante o conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, chegando próximo da marca dos 200 mil pontos, sendo dados da Elos Ayta Consultoria.
“Apesar do choque inicial ligando o modo de aversão a risco, o saldo líquido foi positivo para o Ibovespa. O Brasil foi precificado como beneficiário geográfico indireto: alta do petróleo, reposicionamento de capital estrangeiro para emergentes fora do eixo de risco imediato e fortalecimento do real em boa parte do período”, ressalta Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos.
Sendo assim, a correlação negativa “guerra derruba a bolsa” durou poucos pregões – o que prevaleceu foi o canal de commodities e o canal de fluxo, principalmente de gringo vindo para o Brasil. Mas o comportamento, segundo Villegas, só é contraintuitivo na superfície. Em conflitos regionalizados, diferentes de choques sistêmicos como 2008 ou a pandemia, o capital não busca apenas segurança absoluta, busca melhor custo-benefício entre ativos.
“Treasuries absorveram parte do ‘flight to afety’, mas o excedente migrou para emergentes selecionados onde os ativos estavam baratos e os fundamentos melhorando. O Brasil reuniu as três condições: bolsa descontada, real depreciado e ciclo de juros virando”, pontua.
Some-se ao fato de que o Ibovespa tem peso relevante de commodities, ativos esses que sobem em guerras com epicentro energético – “e o resultado é a correlação positiva entre conflito regional e bolsa, não negativa”.
Com isso, petróleo e gás, mineração e siderurgia, bancos, agro e frigoríficos se beneficiaram. Ficaram para trás varejo doméstico, construção civil e elétricas – setores estes mais sensíveis à curva longa de juros e sem exposição ao trade de commodities.
Mas, caso o cessar-fogo se mantenha – e seja respeitado – e o Estreito de Ormuz reabra, o prêmio de risco do petróleo poderá diminuir, o que desinflará parte do trade que beneficiou Petrobras e as commodities. “No curto prazo, isso tende a provocar rotação setorial, com a saída de petróleo/mineração e entrada em consumo doméstico, utilities e construção.”
No agregado, o efeito líquido é neutro a positivo: a redução do modo de aversão a risco global libera fluxo adicional para emergentes, e a queda do petróleo ajuda a desinflação global, acelerando a expectativa de cortes de juros nos EUA – historicamente benéfico para o Ibovespa.
Para a Genial Investimentos, o viés é construtivo, com volatilidade elevada. O cenário-base é a continuidade do rali, com testes da marca dos 200 mil pontos no curto prazo e espaço para extensão no horizonte de seis a nove meses se três condições se mantiverem: corte de juros nos EUA e no Brasil avançando, commodities firmes e fiscal doméstico sem ruptura.
Bolsas americanas
Novamente, ao contrário do que o senso comum sugeriria, as bolsas americanas tiveram um desempenho resiliente ao longo desses dois meses do conflito. Até agora, houve momentos pontuais de volatilidade ou queda, especialmente nos dias imediatamente seguintes a eventos mais agudos, mas sempre seguidos de movimentos de recuperação, explica Bruno Corano, economista da Corano Capital.
“Isso reflete uma característica estrutural do mercado americano atual, que é reagir menos aos eventos em si e mais às suas implicações sobre crescimento, liquidez e política monetária. Enquanto não há deterioração clara nesses três pilares, o mercado tende a absorver choques geopolíticos com relativa rapidez”, comenta.
Para ele, a tese americana não apenas segue viva, como continua sendo, na prática, a principal âncora de capital global. “Em momentos de incerteza, o investidor global não necessariamente foge de risco, ele recalibra o tipo de risco que quer carregar. E o risco corporativo americano ainda é percebido como o mais qualificado dentro do universo de ativos de risco”, ilustra o especialista.
Entre os setores que se destacam nos Estados Unidos, está a famosa indústria da tecnologia, que concentra as Mag7, e segue sendo o principal vetor de desempenho.
“Mas não se trata mais de tecnologia no sentido amplo, e sim de um subconjunto específico de empresas que lidam com inteligência artificial. Companhias como Nvidia, Microsoft e Alphabet concentram uma combinação rara de crescimento estrutural, margens elevadas e capacidade de investimento. Isso cria um efeito de concentração de fluxo, onde o capital se direciona para poucas empresas que, de fato, entregam crescimento acima da média.”
O mercado americano negocia entre 20x e 24x os lucros projetados, acima da média histórica. Esse patamar, no entanto, precisa ser relativizado: a forte concentração de lucros nas maiores empresas e o crescimento esperado ajudam a justificar parte desse prêmio. Ainda assim, frente à renda fixa dos EUA, com yields elevados, o prêmio de risco das ações está comprimido — não é um mercado barato, mas tampouco irracional dado o perfil de crescimento e qualidade das companhias listadas.
“Enquanto não houver uma mudança relevante na trajetória de juros ou uma deterioração clara do crescimento, o viés tende a permanecer construtivo. O que pode mudar é a forma dessa alta. Ou seja, menos linear, mais concentrada e com episódios de correção mais frequentes. O mercado atual exige mais seletividade do que simplesmente exposição ampla ao índice”, explica o economista.
Caso o Estreito de Ormuz se reabra, por exemplo, o preço do petróleo poderia cair e, por consequência, as expectativas globais de inflação. O reflexo seria uma maior janela para o Federal Reserve (Fed, banco central americano) cortar juros, o que seria benéfico para as bolsas dos Estados Unidos – e mudaria a dinâmica dos outros ativos. “Por outro lado, qualquer escalada que pressione commodities energéticas pode gerar um efeito oposto, trazendo volatilidade, correções e quedas.”
Fonte: Exame
