É grande a preocupação dos economistas do Morgan Stanley com os possíveis efeitos do El Niño sobre a economia brasileira, especialmente sobre a inflação. O cenário-base do banco americano contempla uma intensidade moderada do fenômeno e já mostra efeitos bastante fortes sobre o IPCA. No entanto, os efeitos podem ser maiores, o que pode fazer com que a estratégia usual do Banco Central de “olhar através” do fenômeno (“look through”) custe ainda mais.
No cenário-base do Morgan Stanley, a expectativa é de que o efeito total seja de 0,84 ponto sobre o IPCA “cheio”, distribuído entre 2026 (0,34 ponto) e 2027 (0,50 ponto), diante da expectativa dos economistas Thiago Machado e Ana Madeira de que o pico seja no quarto trimestre deste ano.
Nesse contexto, o banco americano projeta uma inflação de 5,0% no fim deste ano e de 4,0% em 2027, ao considerar uma inflação de alimentos de 7,2% em 2026 e de 5,2% no próximo ano.
“Em um cenário de El Niño forte, secas e enchentes mais severas poderiam reduzir de forma significativa a produtividade agrícola, elevar os custos de transporte e provocar aumentos expressivos nos preços dos alimentos — especialmente café, açúcar, grãos e produtos perecíveis — adicionando potencialmente 1,26 ponto ao IPCA”, observam os economistas do Morgan Stanley.
Há, ainda, um terceiro cenário, que abarcaria um El Niño muito forte. Nesse ambiente, a aceleração acentuada dos preços de alimentos poderia adicionar até 1,68 ponto ao IPCA “cheio”, “bem acima da faixa historicamente observada durante episódios fortes de El Niño”, como notam os economistas do banco americano.
O sinal de preocupação, assim, é bastante elevado e deve ter repercussões sobre a política monetária. Machado e Madeira, contudo, acreditam que a barra para elevações na Selic deve permanecer elevada, mesmo em um cenário de El Niño forte.
“Episódios anteriores sugerem que o Banco Central não reage mecanicamente à inflação de alimentos provocada pelo El Niño; e a atual desinflação dos preços do petróleo deve oferecer algum alívio para a inflação no curto prazo”, avaliam os economistas do Morgan Stanley.
Eles, porém, enfatizam que o cenário atual já está bastante inclinado para uma postura mais dura na condução da política monetária, diante dos riscos inflacionários associados às expectativas desancoradas, à resiliência da atividade com as medidas fiscais e à expectativa de juros globais mais altos. Esse conjunto de fatores “reduz o espaço para que o BC simplesmente ignore um episódio de El Niño, especialmente se ele for forte ou extremo”.
É nesse sentido que, para os economistas do Morgan Stanley, há o risco de que a autoridade monetária não consiga retomar o ciclo de flexibilização monetária até dezembro.
Fonte: Valor Econômico
