Por Rich Miller, Steve Matthews e Catarina Saraiva — Bloomberg
09/01/2023 05h00 Atualizado 09/01/2023
A economia mundial parece estar em transição rumo a uma era mais complicada, na qual os juros serão mais altos, as tensões geopolíticas, maiores e as incertezas, mais acentuadas, alertam grandes nomes da economia – como o ex-secretário do Tesouro dos EUA Lawrence Summers, o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) Kenneth Rogoff e uma ex-integrante do banco central britânico, Kristin Forbes.
A era de juros baixíssimos e de alto crescimento na China está saindo de cena, alertaram economistas que participaram do encontro anual da Associação Econômica Americana (AEA), em Nova Orleans. Investidores e autoridades econômicas vão se deparar agora com um novo mundo, em que a crescente rivalidade entre EUA e China e riscos de defaults desastrosos serão a nova norma.
“Vivemos em uma era de muitos choques”, disse Rogoff, professor da Universidade Harvard. “Podemos estar em um ponto de inflexão da economia global”.
Esses alertas sobre problemas de longo prazo chegam no momento em que muitos investidores estão um pouco mais otimistas com a capacidade do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) de controlar a inflação, ainda elevada, sem provocar uma recessão. As ações e os títulos do Tesouro subiram na sexta-feira, após relatório sobre o emprego nos EUA ter revelado uma queda nos ganhos salariais em dezembro, enquanto a taxa de desemprego caiu para nível historicamente baixo.
A conferência da AEA encerrada ontem – a primeira reunião presencial em três anos – ocorreu em um momento que a profissão dos economistas passa por crise de confiança. O fato de a maioria dos analistas não ter previsto que haveria uma inflação persistente como resultado da pandemia gerou muita reflexão e questionamentos das suposições tiradas a partir de simulações econômicas de computador que têm guiado as medidas governamentais há anos.
“Nosso histórico de compreensão da inflação é muito ruim”, disse David Romer, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “A gama de resultados plausíveis para o próximo um ou dois anos é muito ampla”, incluindo uma queda da inflação ou desta se tornar enraizada na economia.
Um reflexo dessa incerteza são os conselhos conflitantes dados ao Fed pelos economistas da conferência. O prêmio Nobel Joseph Stiglitz alertou que o aperto no crédito pode prejudicar a economia e terá pouco efeito na redução da inflação, alimentada por choques de oferta decorrentes da pandemia e da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Em contraste, o economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, ressaltou a importância de o Fed e de outros bancos centrais manterem sua determinação de vencer a inflação mesmo com o aumento do desemprego.
O presidente do Fed regional de Atlanta, Raphael Bostic, disse que o BC ainda precisa elevar mais os juros, apesar da desaceleração no ritmo do ganho salarial. Mas ele reconheceu que as perspectivas são muito incertas. “Como a situação não tem precedentes, porque essa pandemia foi muito singular, é difícil ter expectativas firmes sobre como a situação evoluirá com o tempo”, disse Bostic, que não votará nas decisões sobre política monetária do Fed neste ano.
Enquanto na conferência de 2019, o então presidente da AEA, Olivier Blanchard, defendeu que haveria um período prolongado de taxas de juros baixa, Rogoff e Summers sustentaram em Nova Orleans que diversos fatores – como o aumento dos déficits e das dívidas governamentais e os investimentos futuros para combater as mudanças climáticas – elevarão os juros acima dos baixos níveis que prevalecem desde a crise financeira de 2007-09.
“Meu palpite é que não retornaremos à era da estagnação secular”, disse Summers, professor da Universidade Harvard, aos colegas economistas no sábado.
Isso terá grandes implicações para os mercados e a economia. Os juros baixos foram uma das principais razões porque os preços da moradia e das ações subiram tanto e ajudaram a captação maciça pelo governo para combater a pandemia, de acordo com Rogoff.
Forbes, que integrou o Banco da Inglaterra, o BC do Reino Unido, e é professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), disse que as medidas contra a covid-19 “introduziram novas vulnerabilidades e riscos”.
O grande aumento do endividamento governamental eleva o risco de crises fiscais, enquanto os juros baixíssimos da pandemia geraram bolhas de ativos, que podem vir a estourar. Essas vulnerabilidades podem se manifestar “mais cedo ou mais tarde”, já que o custo do crédito disparou, segundo Forbes.
Outra enorme mudança iminente é uma forte desaceleração no crescimento de longo prazo da China, que por décadas ajudou a impulsionar a economia mundial, segundo Rogoff.
Embora a economia do país deva se recuperar neste ano com o fim das medidas de controle da pandemia, Rogoff destacou que há dificuldades mais profundas no modelo de crescimento chinês, que depende fortemente de altos gastos em infraestrutura e de um setor imobiliário inchado para impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB). Seus cálculos mostram que os preços das moradias em cidades chinesas menores, que representam por mais de 60% do PIB do país, já caíram 20%.
É improvável que a desaceleração chinesa diminua a rivalidade em quase todas as frentes entre os EUA e o país comandado pelo Partido Comunista chinês, da indústria de chips de computador até a disputa por influência militar no Oceano Pacífico.
O economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, advertiu que um confronto entre EUA e a China sobre Taiwan desencadearia choques econômicos que seriam “de muitas ordens de magnitude maiores” que as da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Fonte: Valor Econômico


