A economia brasileira começou a mostrar sinais mais claros de perda de ritmo no fim do primeiro trimestre. O mercado já esperava esse movimento para 2026, mas não na intensidade vista na sequência de dados mais fracos de serviços, motor do PIB brasileiro e com o recuo do IBC-Br. O índice de atividade econômica, considerado a prévia do PIB, divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central, recuou 0,7% em março na comparação mensal. O resultado veio abaixo das projeções do mercado. Ainda assim, o indicador acumulou alta de 1,3% no primeiro trimestre.
Para Leonardo Porto, economista-chefe do Citi Brasil, o principal sinal do pé no freio veio justamente do setor de serviços, que encerrou o trimestre em queda e destoou do desempenho mais resiliente da indústria e do varejo. Na avaliação dele, o resultado indica que os efeitos dos juros elevados começam a aparecer de forma mais visível na economia real, embora a atividade ainda permaneça em nível forte no acumulado do trimestre.
Na sexta-feira, o IBGE informou que o volume de serviços caiu 1,2% em março, resultado muito pior do que o esperado pelo mercado. O setor encolheu 0,7% no primeiro trimestre, após alta de 0,6% no fim de 2025, encerrando cinco meses sem expansão. O economista destaca que a desaceleração dos serviços ganhou peso justamente por atingir o principal componente da atividade econômica brasileira.
Tendências da economia no próximo trimestre
A leitura predominante entre economistas é que o Brasil entrou em uma fase de crescimento mais moderado após um começo de ano impulsionado pelo consumo, pela indústria e pelos estímulos à demanda. O debate agora passou a girar menos em torno da força da atividade e mais sobre a velocidade dessa desaceleração.
Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, o IBC-Br mostrou uma desaceleração disseminada entre os segmentos da economia e interrompeu uma sequência de aceleração observada nos meses anteriores. Segundo ele, os dados ainda mostram recuperação em relação ao segundo semestre de 2025, mas indicam um ambiente mais desafiador daqui para frente.
A Genial avalia que os próximos trimestres também devem ser marcados por um enfraquecimento gradual da atividade, à medida que os efeitos da política monetária restritiva ganham força e os estímulos concentrados no início do ano perdem intensidade. O banco também aponta aumento dos riscos externos ligados ao conflito no Oriente Médio e aos impactos sobre inflação e petróleo.
Na Suno Research, Rafael Perez afirma que o desempenho de março representou uma acomodação após a forte expansão registrada nos dois primeiros meses do ano. Segundo ele, serviços e indústria ainda sustentaram um trimestre resiliente, mas a tendência é de perda gradual de intensidade ao longo de 2026.
O Banco Daycoval vê uma economia cada vez mais heterogênea, com consumo e varejo ainda sustentados pelo mercado de trabalho aquecido e por estímulos fiscais, enquanto segmentos mais dependentes de crédito começam a perder tração. Para o banco, a divergência entre serviços mais fracos e comércio resiliente indica uma recuperação concentrada em poucos setores.
Mudança no cenário de juros
Mesmo com a atividade desacelerando, a inflação continua impedindo uma mudança mais rápida no cenário de juros. O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira mostrou manutenção das expectativas inflacionárias acima da meta e aumento da projeção da Selic ao fim de 2026, de 13% para 13,25%.
Para Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras e Valores (ANCORD), esse cenário mantém o Banco Central em posição delicada. “A economia dá sinais de desaceleração, mas a inflação ainda incomoda. Isso mantém o Banco Central em modo de cautela e reforça o cenário de juros elevados por mais tempo”, afirmou.
Fonte: Forbes Brasil