Por Eduardo Magossi, Arthur Cagliari, Gabriel Roca e Victor Rezende — De São Paulo
24/04/2024 05h02 Atualizado há 4 horas
Os rendimentos dos Treasuries e o dólar registraram quedas expressivas ontem, após a divulgação de dados de atividade mais fracos que o esperado nos Estados Unidos. A dinâmica possibilitou nova recuperação do real, mas teve efeito limitado nos mercados de juros e de ações. A percepção é que houve uma piora no cenário para a trajetória da política monetária doméstica. A bolsa sofreu ainda com o recuo de exportadoras de commodities metálicas.
No fechamento, o rendimento da T-Note de 2 anos caiu a 4,933%, de 4,976%, e o yield de 10 anos recuou a 4,606%, de 4,614%. Já o índice DXY recuava 0,37% no fim da tarde, a 105,69 pontos.
No mercado local, o dólar cedeu 0,74% ante o real, cotado a R$ 5,1304. Já a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 10,79% para 10,82%. O Ibovespa recuou 0,34%, aos 125.148 pontos.
Uma leitura mais fraca do que o esperado do índice gerente de compras (PMI), na preliminar de abril dos EUA, derrubou os yields dos Treasuries e o dólar. Além disso, a ferramenta FedWatch, do CME Group, voltou a apontar apostas majoritárias em dois cortes de juros em 2024, e não apenas um, como passou a indicar desde a semana passada. Agora, 35% dos investidores apostam que os federal funds terminarão o ano entre 4,75% e 5% ante 32,8% ontem.
Segundo a S&P Global, o PMI composto dos EUA de abril caiu de 52,1 para 50,9, enquanto o índice de serviços recuou de 51,7 para 50,9 e o industrial cedeu de 51,9 para 49,9, entrando em terreno de contração. São os resultados mais baixos em cerca de cinco meses.
“O mercado esperava uma alta e obteve um recuo abaixo de 50. A narrativa que fundamentou o dado também foi baixista, com empresas cortando empregos a um ritmo não visto desde a crise financeira global, o que foi a principal razão do mercado reagir com uma queda expressiva”, disse Padhraic Garvey, do ING Bank, notando que o leilão de T-Notes de 2 anos teve uma demanda forte, o que também ajudou a derrubar os yields.
Outra explicação para a boa performance do real está no fato de que a posição vendida em dólar pelo investidor local se afastou do pico recente, o que gera menor pressão diante de estresses. No fim de janeiro, essa posição havia alcançado US$ 17,4 bilhões. À época, o J.P. Morgan citou tal posicionamento como um fator de preocupação. Desde então, esse posicionamento caiu. No fim de março, essa posição rondava os US$ 13,3 bilhões, ainda considerado um nível elevado. No fechamento de ontem, estava em US$ 7,97 bilhões.
Apesar de ter se recuperado parcialmente, agentes começam a ver um teto para apreciação do real. O economista-chefe do Banco Fibra, Marco Maciel, aponta que a curva de juros americana impede movimento expressivo do real, já que deve permanecer elevada. E menciona também a questão fiscal.
Nessa linha, no mercado de juros, houve continuação de um processo de revisão das taxas futuras. A sensação de que a Selic deve cair menos que o esperado neste ano se somou aos ajustes altistas observados no Boletim Focus, que consolidou a percepção de piora das expectativas dos investidores.
A mediana das projeções para a Selic no fim deste ano passou de 9,13% para 9,5% em uma semana, enquanto o ponto-médio das estimativas para o juro básico em 2025 subiu de 8,5% para 9%. Em outro movimento que acende um sinal de alerta, a projeção mediana para o IPCA em 2025 subiu pela terceira semana consecutiva e alcançou os 3,60%, de 3,56%.
“Esperamos que o Copom se mostre mais cauteloso, sobretudo em função da mudança de premissa sobre o cenário de corte de juros nos EUA. Adicionalmente, as incertezas domésticas devem adicionar um sentimento de maior vigilância, o que sustenta nossa expectativa de um Copom que altera seu plano de voo”, informam economistas do Banco do Brasil, que alteraram sua projeção de Selic no fim do ciclo de 9,25% para 9,75%.
Fonte: Valor Econômico
