Por Nikkei Asia, Valor — Xangai
04/08/2023 02h47 Atualizado há 7 horas
A economia da China está mostrando sinais de queda semelhante à do Japão após o fim de sua bolha de preços de ativos, com a incerteza minando os negócios e o apetite do consumidor por gastos à medida que o declínio da população se instala.
Mesmo depois que o governo encerrou sua política de tolerância zero contra a covid-19, em dezembro passado, a economia ainda luta para voltar aos trilhos.
“Os clientes apertaram os cintos desde o fim do feriado do Dia do Trabalho em maio”, disse o dono de um restaurante em Pequim. O gasto por cliente caiu de cerca de 400 yuans na primavera para menos de 300 yuans, ou de cerca de US$ 56 para menos de US$ 42.
O padrão de demanda fraca levando a uma inflação anêmica tem semelhanças com as décadas de estagnação do Japão desde 1990.
“A China está mostrando evidências da ‘doença do Japão'”, disse Yin Jianfeng, vice-diretor-geral da Instituição Nacional de Finanças e Desenvolvimento, um think tank afiliado ao estado.
O crescimento do núcleo da inflação do índice de preços ao consumidor (IPC) da China, que exclui alimentos e energia, desacelerou para 0,4% no ano em junho. As tendências da inflação nos últimos anos se parecem muito com as do Japão na década de 1990.
As autoridades chinesas descartaram o risco de deflação. Mas Yin disse que a China está em um estado deflacionário agora, com base na tendência do IPC de ler acima da inflação real.
O povo chinês está expressando preocupação com a direção da economia. “A ansiedade sobre o futuro tornou-se arraigada em muitas pessoas”, disse um funcionário do restaurante que sofreu com o “lockdown” de Xangai na primavera de 2022.
Os consumidores estão relutantes em fazer grandes compras, como casas e bens duráveis. Os jovens apertaram ainda mais os cintos com o desemprego juvenil superior a 20%.
O dinheiro está parado nos bancos, assim como no Japão pós-bolha. Os depósitos na China ultrapassaram os empréstimos em 48 trilhões de yuans (US$ 6,7 trilhões) no final de junho – a segunda maior diferença já registrada, atrás apenas de março passado. No Japão, uma forte preferência pela poupança em detrimento dos gastos criou uma armadilha de liquidez que tornou a política monetária menos eficaz para estimular a economia.
A rápida queda nas taxas de natalidade da China também se assemelha à ocorrida no Japão. Algumas estimativas preveem menos de 8 milhões de nascimentos este ano, metade do total de cinco anos atrás. Um declínio descontrolado acabaria por levar a uma grave escassez de mão de obra e a um encolhimento do mercado consumidor.
Enquanto a população crescia, o país pôde usar a formação de capital – construindo ativos como imóveis e ferrovias – como um motor econômico. Mas com a infraestrutura tendo atingido um certo grau de desenvolvimento, especialmente nas cidades, sua eficácia em impulsionar o crescimento está diminuindo.
A equipe de pesquisa de Yin descobriu que a eficiência de investimento da China em 2010 foi o dobro da do Japão e 20% maior que a dos Estados Unidos, mas caiu abaixo dos Estados Unidos no início de 2010 e do Japão em 2019.
Mesmo que as políticas de grandes gastos do governo tragam retornos decrescentes, a transição de uma economia liderada por investimentos para uma economia impulsionada pelo consumo, almejada por Pequim, tem sido lenta. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê o crescimento da China em 4,5% no próximo ano e na faixa de 3% em 2026.
Os formuladores de políticas chineses estudaram intensamente o Japão pós-bolha. “Eles se concentraram em evitar o estouro excessivo de bolhas e em manter a estabilidade econômica e financeira”, disse Yasunari Ueno, economista-chefe de mercado da Mizuho Securities.
“Mas o custo de não aprender as lições do Japão sobre a questão populacional é significativo”, acrescentou Ueno.
Fonte: Valor Econômico