Quem pensa que o mundo já atingiu o auge da polarização e fragmentação está enganado. O cenário global vai ficar cada vez mais dividido nos próximos anos, avalia o ex-presidente da Comissão Europeia, ex-primeiro-ministro de Portugal, conselheiro e presidente não executivo do Goldman Sachs Internacional, José Manuel Durão Barroso, em entrevista ao Valor. “China e Rússia procuram mobilizar o sul global contra o Ocidente, nomeadamente, EUA e Europa”, avalia. “É preocupante, mas é praticamente inevitável”, conclui.
O especialista em geopolítica afirma que, em um mundo cada vez mais fragmentado e organizado em blocos, o Brasil pode aproveitar para se posicionar como protagonista nas cadeias globais de valor, uma vez que tanto Ocidente quanto Oriente veem o país como um parceiro comercial respeitado. O país, porém, precisa avançar em reformas para melhorar a produtividade e competitividade e também recuperar o grau de investimento. “O país é o campeão mundial da biodiversidade e tem potencial para ser campeão mundial da transição climática.”
No cenário internacional, Barroso diz haver preocupação entre lideranças europeias e ucranianas em relação a um eventual fim de apoio dos EUA, caso o pré-candidato republicano Donald Trump volte à Presidência neste ano. “Putin não pode, de maneira nenhuma, ganhar a guerra. É muito importante que Estados Unidos e Europa não desistam, porque se a Rússia de Putin sair vitoriosa, então seria um precedente terrível para outras intervenções.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: Após dois anos de guerra entre Rússia e Ucrânia, quais as grandes mudanças no mundo?
José Manuel Durão Barroso: O mundo não é mais o mesmo desde a invasão da Ucrânia pela Rússia. Existem implicações globais e ramificações do conflito. A China, apesar de manter formalmente uma posição de abstenção tem, na realidade, estado politicamente perto da Rússia, que nunca esteve tão dependente da China como hoje. E verificamos que Rússia e China estão procurando mobilizar o chamado Sul Global contra o Ocidente, nomeadamente, Estados Unidos e Europa. É preocupante. Mas penso que é praticamente inevitável. Assistimos a um certo desacoplamento internacional. Uma tendência que temos visto é uma contaminação muito maior das decisões econômicas e comerciais por considerações políticas e geopolíticas. Eu penso que esta tendência vai continuar.
Valor: Há risco de uma escalada de tensões entre EUA e China?
Barroso: Estados Unidos e China não querem, para já, uma ruptura completa. É esse o sentido de alguns esforços que têm havido em diálogos entre o presidente [dos EUA, Joe] Biden e o presidente [da China, Xi] Jinping. Mas a verdade é que existe uma lógica do poder e da competição pelo poder. A questão do Oriente Médio só veio agravar esta situação, que já era muito grave com a invasão da Ucrânia. Isso [fragmentação geopolítica e econômica] é uma tendência forte, que vai se manter. Agora se vê chances de novos conflitos surgirem ou até mesmo um conflito real [amplo]. Há uma proliferação de novos conflitos, desde o que se passa na Etiópia e países vizinhos, na região conhecida como ‘Chifre da África’. Posso apontar outras frentes, como as ameaças da Venezuela à Guiana, a situação tensa no Mar da China. Há ainda o que se passou recentemente entre a Azerbaijão e a Armênia em torno de Nagorno-Karabakh. Nós estamos assistindo uma proliferação de conflitos que vão ocorrer com maior frequência. Existe uma falta de ordem global, porque estamos em um momento de transição da ordem global. Não há capacidade [de articulação] para enquadrar e conter os conflitos. Temos assistido da parte das principais potências, EUA e China, a vontade de evitar uma grande escalada.
Fonte: Valor Econômico