Após um 2025 marcado por forte compressão de spreads, o mercado de debêntures entra em 2026 diante de um paradoxo: mesmo com o risco de crédito elevado ao longo do último ano, o prêmio pago aos investidores recuou, impulsionado pelo excesso de demanda por renda fixa. Agora, com a perspectiva de início de um ciclo de queda de juros, gestores avaliam que os spreads podem voltar a se normalizar, mesmo que o risco, em tese, melhore.
Para Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Investimentos que concedeu entrevista à Capital Aberto, 2025 foi um ano de “divergência estrutural” no crédito. “Você tinha a taxa de juros mais alta, que piora as métricas de crédito, mas, ao mesmo tempo, a incerteza no ambiente fez com que os investidores levassem muito dinheiro para a renda fixa, e isso fez com que os spreads de crédito comprimissem”, afirmou. “Apesar do risco estar maior, os spreads estavam menores.”
Na Occam Brasil, a leitura também é de um ano positivo para o mercado, ainda que com episódios pontuais de volatilidade. Segundo Petrônio Cançado, sócio e head de crédito da gestora, “os spreads fecharam 42 pontos-base em média em debêntures indexadas ao CDI e 44 nas debêntures de infraestrutura” em 2025. Ele destacou que houve uma pequena realização em novembro e dezembro, após eventos envolvendo Braskem, Ambipar e a queda de preços em Raízen, mas avaliou que o ajuste foi “modesto”.
O movimento de divergência citado por Nehmi foi mais claro no crédito não incentivado, que já vinha do ano de 2024 com compressão, mas também atingiu as debêntures de infraestrutura, ainda que com uma dinâmica própria. O especialista da Sparta destacou o impacto da MP 303, que propunha mudanças na tributação dos ativos incentivados, mas não foi adiante. “Ela criou uma espécie de oportunidade para o investidor que já estivesse dentro da virada do ano”, analisou. Com a tramitação da medida e, posteriormente, sua caducidade, os preços chegaram a níveis que a gestora considera “bastante delicados”.
A partir de outubro, houve uma correção relevante no segmento. “Foram três meses seguidos de retornos abaixo do CDI para os fundos de infraestrutura”, afirmou o executivo, que vê o movimento como sensível, especialmente pelo risco de resgates em fundos voltados à pessoa física. Diante do cenário, a Sparta adotou postura mais conservadora ao longo do ano.
Para 2026, a leitura da gestora é de que o mercado pode viver o movimento inverso ao observado em 2025. “Começa a cair os juros, as métricas de crédito começam a melhorar, só que isso pode fazer também com que os spreads descomprimam, voltem à normalidade”, disse Nehmi. Ainda segundo ele, isso pode ocorrer tanto pela exigência de retornos mais adequados quanto por uma eventual migração de recursos para outras classes de ativos com maior risco.
Na avaliação do executivo, o cenário-base é de maior apetite a risco com a queda dos juros, mas cercado de incertezas, tanto no ambiente externo quanto no doméstico, com o calendário eleitoral.
“Não é um ano tão óbvio para tomada de risco”, analisou, ressaltando ainda que, com spreads já comprimidos, o crédito tende a oferecer “resultados relativamente baixos” em 2026, o que reduz espaço para ganhos adicionais via compressão.
Nesse sentido, Nehmi vê mais valor em outros vetores da renda fixa. “Tipicamente, quando começa o ciclo de queda de juros, posições pré-fixadas e indexadas à inflação costumam ter uma boa performance”, afirmou. O especialista destaca, ainda, a relevância da isenção fiscal nas debêntures incentivadas. “Com a Selic em torno de 15%, a isenção vale o equivalente a 2,6% ao ano”, destacou, ressaltando que o benefício pode ganhar ainda mais importância caso haja fechamento das taxas.
Para Cançado, “de forma geral, vemos os spreads em níveis adequados para o risco”. Conforme a visão do especialista da Occam, ao longo de 2025, o mercado primário frequentemente trouxe emissões com spreads inferiores aos do secundário, o que levou bancos coordenadores a encarteirar parte das ofertas, especialmente em infraestrutura. “Não foi necessário grande ajuste para que boa parte dessas posições fossem vendidas no secundário”, afirmou.
O executivo avalia ainda que, com o volume sazonalmente mais fraco de emissões no início do ano, o mercado entra em 2026 com suporte de preços. “Vemos sinais de força neste início de 2026”, disse. Ainda assim, Cançado recomenda cautela em setores mais sensíveis ao ciclo econômico. “Com juros em patamares elevados, o mais arriscado são emissões de empresas em setores cíclicos, com baixa margem operacionais e mais alavancadas”, analisou. Ele também destacou o calendário eleitoral como ponto que demanda atenção à duration dos títulos.
Para a Occam, o principal fator a determinar a trajetória dos spreads em 2026 será o cenário fiscal. “O mais importante é a percepção de que o próximo presidente terá compromisso com o fiscal”, disse Cançado. “Se isso ocorrer, devemos ter fechamento de spreads dos títulos de maior risco.”
Fonte: Capital Aberto
