Fator importante que ajudou a manter a inflação, sobretudo de serviços, relativamente comportada ao longo do ano passado apesar do cenário de desemprego baixo, o custo unitário do trabalho (CUT) retornou ao patamar pré-covid na virada de 2023 para 2024. A situação, dizem economistas, exige cautela do Banco Central, cujo Comitê de Política Monetária (Copom) está reunido para mais uma decisão sobre a taxa de juros do país.
Segundo cálculos do Bradesco, o índice do CUT chegou a 100,65 em dezembro do ano passado. No último trimestre de 2019, estava em 100,64. Desde o terceiro trimestre de 2020, o CUT rodava abaixo de 100. “Ele está acelerando e, tirando a mexida que a pandemia deu no meio, está voltando à tendência pré-covid”, diz o economista-chefe Fernando Honorato.
O CUT mede o custo do trabalhador por unidade de produção. O cálculo é uma relação entre os salários reais médios e a produtividade da economia. Quanto menor o CUT, menor o custo para as empresas adicionarem trabalhadores. Se o custo do trabalhador sobe, por outro lado, o empresário pode repassar isso aos preços que cobra dos consumidores, gerando inflação. Com o CUT historicamente baixo, o emprego avançou sem criar pressões inflacionárias.
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Por um lado, a “boa notícia”, diz Honorato, é que o CUT não está subindo pela queda da produtividade. “Ela está andando meio de lado”, afirma. Toda a dinâmica recente do CUT, diz, vem do aumento dos salários. Segundo o Bradesco, o salário real por hora no mês saiu de R$ 16,9 em dezembro de 2021 para R$ 18,32 no fim de 2022 e fechou 2023 em R$ 19. “Os salários na Pnad viraram uma parede”, afirma Honorato, em referência à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE.
A consultoria A.C.Pastore também reforça em relatório desta semana, o alerta de que “os salários estão crescendo mais rapidamente do que a produtividade do trabalho”. Em janeiro, observa a equipe, o rendimento real na Pnad avançou pelo oitavo mês seguido, chegando à variação anual de 3,8%, enquanto a massa salarial está 6% acima de janeiro do ano passado.
Outro dado que chama a atenção, segundo Honorato, é que os reajustes nominais dos salários deram um salto em janeiro, do patamar de 5% para 5,7%, de acordo com o Boletim Salariômetro, da Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas (Fipe). Mais de 90% dos acordos coletivos assinados tiveram reajustes acima da inflação.
Hélio Zylberstajn, professor na Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo e coordenador do boletim, explica que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado em 12 meses até dezembro de 2023, referência nas negociações de janeiro, fechou abaixo do IPCA, a inflação oficial do país: 3,7%, ante 4,6%.
“A empresa se defronta, no mercado, com um índice maior do que o que roda no mercado de trabalho. Por isso, elas deram aumento generoso. A impressão é que essa diferença entre os índices vai diminuir”, diz Zylberstajn. A prévia do Salariômetro de fevereiro indica reajuste mediano de volta a 5%.
“Se for isso, diminui um pouco a preocupação”, pondera Honorato. “Ainda assim, começamos a ver movimento de salários nominais.”
O comportamento recente do CUT faz sentido dentro da política econômica do atual governo, que é pró-consumo e pró-salário, diz Honorato. “Estamos falando de aumento do salário mínimo, aumento para servidores, gastos maiores do que no período de vigência do teto. É toda uma política econômica mais voltada à demanda doméstica, em um momento em que o desemprego já estava baixo. Faz sentido a aceleração do custo do trabalho”, afirma.
A questão, diz, é se essa dinâmica chegará ao ponto em que fica tão caro adquirir mão de obra que os empresários preferem não contratar. Para Honorato, não há indícios disso até o momento. “O mercado ainda não parece ter escassez de mão de obra, como chegou a haver em 2014”, recorda.
Além de a população economicamente ativa ter aumentado de lá para cá, a taxa de participação no mercado de trabalho ainda está um ponto e meio abaixo do período pré-covid, segundo Honorato. “Ou seja, mais pessoas ainda podem, potencialmente, ser incorporadas ao mercado. Não acho que esteja virando uma questão crônica ainda, mas é um ponto que requer atenção”, afirma.
Inflação converge mais por bens industriais e não tanto por serviços”
Do lado dos preços, a equipe do J.P. Morgan estimou, em um exercício recente, que dados sobre negociações coletivas são os principais a serem observados, no momento, para antecipar informações sobre a inflação.
Uma das implicações da aceleração do CUT, segundo Honorato, é que temos visto preços de serviços mais ligados ao trabalho e à renda acelerando.
Segundo o Barclays, serviços intensivos em mão de obra aceleraram pelo quarto mês consecutivo em fevereiro, para alta de 6,6% na média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada. A métrica suaviza movimentos mensais, mas ainda capta a tendência “na ponta” de modo mais dinâmico.
O Copom disse, na ata da reunião de janeiro, que “um mercado de trabalho mais apertado, com reajustes salariais acima da meta de inflação, pode potencialmente retardar a convergência da inflação, impactando notadamente a inflação de serviços e de setores mais intensivos em mão de obra”.
Roberto Secemski, economista-chefe do Barclays para Brasil, chama a atenção para a composição do núcleo IPCA-EX3, que agrega itens selecionados de serviços e bens industriais. Na média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada, o IPCA-EX3 acelerou de 3,2% em janeiro para 3,5% em fevereiro, com serviços passando de 5,3% para 5,7%, enquanto bens subiram no mesmo ritmo de 2,1%.
Embora medidas de núcleo estejam, gradualmente, convergindo à meta de inflação de 3%, isso tem se dado, nos últimos tempos, mais graças aos industriais e não tanto aos serviços, diz Secemski.
Nesse contexto, a expectativa do Bradesco é que, no comunicado que será divulgado hoje, o Copom deixe de se comprometer com uma decisão para duas reuniões e mantenha a prescrição futura para apenas um próximo encontro.
“Isso significa que não dá mais para cortar juros? Claro que não. Nos modelos do próprio BC, levando em conta nosso PIB e a dinâmica de salários, cabe Selic de 9,25%. Tem espaço grande para cortar”, diz Honorato. A Selic está em 11,25% ao ano e deve ir a 10,75% ao fim do encontro de hoje.
Segundo Mayara Santiago, economista do Bradesco, não há sinais, por ora, de desaceleração do mercado de trabalho em curso ou no futuro próximo. “Isso, provavelmente, virá. Mas, ao que tudo indica, ainda tem algum fôlego no mercado de trabalho”, afirma. “Faz sentido, nesse ambiente, olhar com mais cuidado para a inflação de serviços”, acrescenta Honorato.
Fonte: Valor Econômico

