O incômodo do Tesouro americano com a disparada dos juros de longo prazo, que já era evidente a partir das ações mais recentes de Scott Bessent, ficou cristalino com o aumento das operações de recompras de Treasuries.
Grosso modo, as operações não parecem ser tão volumosas, a se considerar o novo valor mínimo de US$ 4 bilhões. Ainda assim, na interpretação do mercado, há uma clara tentativa de defesa de nível, já que o anúncio se deu duas semanas após o calendário regular — quando o Tesouro costuma anunciar mudanças na gestão da dívida — e pouco depois de a taxa do papel de 30 anos da dívida americana alcançar as máximas em 19 anos.
“É um Tesouro que está imitando a Yellen”, diz um profissional do mercado, ao se referir à postura da ex-secretária do Tesouro americano Janet Yellen, que, durante o governo Biden, encurtou de forma expressiva o perfil da dívida para não pressionar os vértices mais longos da curva.
Bessent já trilhava a direção de Yellen no encurtamento da dívida americana, mas, agora, parece dar passos além. Não é exagero dizer que há semelhanças com a postura do Banco do Japão (BoJ) nos tempos de controle da curva de juros (YCC), ainda que de forma embrionária e com magnitude muito, muito mais branda.
A política, porém, não gera boas recordações do ponto de vista do BoJ. Quando os juros de dez anos batiam no teto, o banco central comprava o que podia e o que não podia para derrubar a taxa. A operação era efetiva no curto prazo, mas, ao longo do tempo, forçou a autoridade monetária japonesa a relaxar sua política, ainda que aos poucos e a contragosto do então presidente Haruhiko Kuroda.
Entre dezembro de 2022 e julho de 2023, o “cap” dos juros japoneses de dez anos mudou de 0,25% para 0,5% e, depois, para 1%, até que em outubro de 2023 o BoJ deixou de seguir à risca o alvo das taxas longas. Na prática, o helicóptero de dinheiro despejado pelo BoJ no mercado foi efetivo, mas com efeitos de curta duração.
A mudança nas recompras de Treasuries, assim, foi muito mais um aviso ao mercado do que um sinal de um controle da curva às avessas, mas, com alguns antecedentes de peso — megaintervenção no iene para impedir que o Japão vendesse Treasuries e investida de Bessent para o Fed ampliar a linha de liquidez FIMA com bancos centrais estrangeiros —, não surpreende o surgimento de discussões sobre um “teto” informal nos juros longos, e não apenas atuações para dar liquidez à renda fixa.
“O controle da curva de juros está longe de ser uma refeição de graça”, diz o consultor econômico-chefe da Allianz, Mohamed El-Erian. “Embora possa ajudar a reduzir os rendimentos de longo prazo rapidamente, favorecendo, assim, os custos de financiamento imobiliário e outras modalidades de crédito, ele traz riscos de danos colaterais e consequências não intencionais. Além disso, os efeitos dessa engenharia financeira são de curta duração, a menos que sejam acompanhados por ajustes estruturais nas políticas”, pondera.
E, com uma dívida que atingiu US$ 40 trilhões e sem perspectiva de mudança nas políticas fiscais — sobretudo com um Trump pressionado com a possibilidade de o Partido Republicano perder o controle de Câmara e Senado nas “midterms” —, um ajuste, que já estava distante, fica ainda mais complexo.
Resta agora saber como irá agir Kevin Warsh, cuja política se calcava, essencialmente, no aperto das condições financeiras por meio do aumento dos juros de longo prazo.
Com o limite imposto pelo Tesouro, os mercados têm duas opções pela frente: enfrentar o “teto” e testar Bessent ou forçar os juros de curto prazo para cima, já que as emissões devem se concentrar nesses vértices, o que poderia mexer com a precificação da política do próprio Fed e, em última instância, com a política do balanço patrimonial. No fim do ano passado, a emissão elevada T-bills já forçou o Fed a aumentar as reservas por não controlar as compromissadas (“repos”) negociadas no mercado, cujas taxas começaram a subir bem além do nível dos fed funds.
Se o Fed se vir pressionado a mudar sua postura na condução dos juros ou do balanço, já está contratado um primeiro choque entre o Tesouro de Bessent e o Fed de Warsh, o “queridinho” que tem recebido ligações diversas de Trump.
Fonte: Valor Econômico


